Empresário que financiou partido de Farage doou um milhão de libras a Boris Johnson

Gabinete criado pelo ex-primeiro-ministro britânico em Outubro recebeu quantia avultada de investidor que doou milhões para a campanha do Partido do Brexit nas eleições de 2019.

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Boris Johnson já recebeu 1,2 mil milhões de libras em discursos proferidos desde que abandonou o cargo de primeiro-ministro, em Setembro EPA/ANDY RAIN

O gabinete criado pelo ex-primeiro-ministro do Reino Unido Boris Johnson para gerir a sua actividade política pós-Downing Street recebeu uma doação de um milhão de libras (cerca de 1,2 milhões de euros) por parte do empresário Christopher Harborne, mostram os registos da Câmara dos Comuns do Parlamento britânico.

Para além de se tratar de uma das maiores contribuições monetárias alguma vez atribuídas a um político individual no país, de acordo com o Guardian, o caso destaca-se pelo facto de Harborne ter sido um dos principais financiadores da campanha do Partido do Brexit para as eleições legislativas de 2019.

Segundo a informação disponibilizada pela Comissão Eleitoral no início de 2020, do total de 7,5 milhões de libras que o partido populista e eurocéptico fundado pelo controverso político de extrema-direita Nigel Farage recebeu para disputar essa votação, seis milhões vieram dos bolsos do empresário britânico.

Christopher Harborne é um investidor do sector da tecnologia que vive na Tailândia há cerca de 20 anos e que, informa a BBC, tem estado ligado ao negócio das criptomoedas nos últimos anos.

Tal como o Partido Conservador, de Johnson, o Partido do Brexit concorreu às últimas eleições com um programa essencialmente monotemático, assente na defesa (e na promessa) da retirada definitiva do Reino Unido da União Europeia, depois de três anos de impasse e de muita turbulência política e social pós-referendo.

Um dos factores que contribuiu para a vitória arrebatadora dos tories nessa eleição foi o facto de o partido de Farage ter abdicado de apresentar candidatos nos círculos eleitorais em que poderia dividir o eleitorado brexiteer e ameaçar uma vitória dos conservadores.

Depois de oficializado o “Brexit”, a 31 de Janeiro de 2020, o partido populista mudou o seu nome para Reform UK e, depois de uma travessia no deserto que durou dois anos, durante os quais tentou afirmar-se como um partido anticonfinamento, hoje, e há várias semanas, já disputa com os liberais-democratas o estatuto de terceira força política do país, com um discurso essencialmente neoliberal e anti-imigração.

“Não é dinheiro dele”​

Em Outubro do ano passado, cerca de um mês depois de ter sido substituído por Elizabeth Truss na chefia do executivo britânico (anunciou a demissão do cargo em Julho, na sequência de uma série de escândalos políticos que o fizeram perder o apoio de dezenas de membros do seu Governo), e tal como muitos antecessores seus, Johnson estabeleceu uma empresa para gerir a sua actividade política e financeira.

Por ainda ser deputado, o ex-primeiro-ministro tory é obrigado por lei a declarar os seus rendimentos e despesas no registo de interesses do Parlamento de Westminster.

O dinheiro doado por Harborne à Office of Boris Johnson Ltd. surgiu na última actualização mensal dessa base de dados e soma-se às 250 mil libras que recebeu em Dezembro por dois discursos, que incluem uma intervenção num evento da CNN Portugal, em Lisboa, pago pela TVI.

No total, Boris Johnson já recebeu 1,2 milhões de libras (1,35 milhões de euros) em discursos proferidos em todo o mundo desde que abandonou o cargo que é hoje ocupado por Rishi Sunak, o seu antigo ministro das Finanças – que substituiu Truss no final de Outubro.

Perante as sugestões levantadas na imprensa britânica de que a doação de Christopher Harborne pode indicar que Johnson está a preparar um regresso ao topo da política britânica, uma fonte próxima do antigo chefe do Governo fez alguns esclarecimentos à BBC.

“Não se trata de um plano de regresso ou de algo do género”, afiançou. “Não é dinheiro dele e não tem acesso a ele”, acrescentou a fonte, explicando que todas as doações recebidas servem para financiar a sua actividade enquanto antigo primeiro-ministro do Reino Unido e apenas isso.

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