Morreu Christopher Plummer, o eterno Capitão Von Trapp

Vencedor de um Óscar e dois Tonys, e um dos grandes actores shakespearianos da sua geração, será sempre recordado por Música no Coração, que protagonizou ao lado de Julie Andrews. Tinha 91 anos.

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Christopher Plummer ganhou um Óscar em 2011 pelo filme Assim é o Amor LUCY NICHOLSON/REUTERS

“Mas esta gente nunca viu outro filme? É o único que eles viram?” Por mais personagens que tenha encarnado ao longo da sua prolongada carreira, Christopher Plummer, que morreu esta sexta-feira, aos 91 anos, na sequência de uma queda em sua casa, no Connecticut, nunca conseguiu dissociar-se do filme que o tornou uma vedeta mundial: a versão cinematográfica do musical de Rodgers e Hammerstein Música no Coração, em que interpretava o papel do Capitão Von Trapp, o rigoroso comandante naval austríaco que se deixa encantar pela noviça que lhe é enviada para ser governanta dos filhos (Julie Andrews). 

O actor canadiano, que foi nomeado três vezes para os Óscares e levou para casa uma estatueta em 2012, chamava-lhe não The Sound of Music – título original da peça, estreada em 1959 na Broadway com Mary Martin e Theodore Bikel nos papéis principais – mas The Sound of Mucus, “o som do muco”. “É um albatroz que me segue por todo o lado”, queixava-se, lamentando que o sucesso do filme de Robert Wise tivesse assombrado toda a sua carreira posterior. Acabaria contudo por fazer as pazes com ele. Quando o jornal britânico The Guardian lhe fez um inquérito em 2010, à pergunta “como gostaria de ser recordado?” respondeu: “Como [um homem] benigno, benévolo e brilhante, mas não tenho esperança nenhuma disso.” Ele sabia que a popularidade de Música no Coração – que foi durante cinco anos o filme de maior sucesso financeiro de sempre e só em Portugal esteve dois anos consecutivos em cartaz – o condenara a ser para sempre lembrado como o Capitão Von Trapp.

Curiosamente, esse fora apenas o quarto papel de Plummer, então com 35 anos, no grande écrã, depois de Lágrimas da Ribalta (1958), de Sidney Lumet, A Floresta Interdita (1958), de Nicholas Ray, e A Queda do Império Romano (1964), de Anthony Mann. E as suas três nomeações para os Óscares – todas na categoria de actor secundário  vieram apenas muitos anos mais tarde, já o actor era octogenário. A primeira foi pela sua interpretação do escritor russo Leão Tolstói em A Última Estação (2009), de Michael Hoffman; a terceira pela sua encarnação como J. Paul Getty, substituindo à última hora Kevin Spacey, em Todo o Dinheiro do Mundo (2017), de Ridley Scott. Da segunda vez, levou para casa a estatueta, pelo papel de um patriarca que assume a sua homossexualidade depois da morte da esposa no filme Assim é o Amor (2010), de Mike Mills. Tornou-se então o actor mais idoso de sempre a ganhar o prémio, aos 82 anos. “Só és dois anos mais velho do que eu, querido, onde é que andaste toda a minha vida?”, disse ao receber o Óscar.

Uma educação shakesperiana

Bisneto do primeiro-ministro canadiano Sir John Abbott, Arthur Christopher Orme Plummer nasceu em 1929 em Toronto e cresceu em Senneville, subúrbio de Montréal, iniciando carreira naquela cidade antes de experimentar tanto a Broadway como os palcos da província canadiana de Ontario e inclusive do West End londrino. A sua educação de palco foi shakespeariana: Henrique V foi o seu primeiro papel principal ainda em Ontario, em 1956; três anos mais tarde, em 1959, actuaria com a Royal Shakespeare Company em Muito Barulho por Nada e Ricardo III. Nos anos 1970, representou autores como Pirandello, O’Neill ou Büchner nos palcos londrinos.

Foram de facto a televisão e o teatro que o sustentaram até à explosão de Música no Coração, mas mesmo depois de ver o seu nome firmado no cinema continuou a regressar ao teatro, tendo sido nomeado sete vezes para o Tony, que venceu em duas ocasiões: por Cyrano em 1974 e por Rei Lear em 2004. E, quando o cinema não se mostrava interessado nele, havia sempre a televisão, que o chamou para séries como Pássaros Feridos. 

Apesar de tudo, não faltaram a Plummer filmes dignos de nota, numa carreira cujos últimos créditos foram Knives Out – Todos São Suspeitos (2019), de Rian Johnson, e Coragem Debaixo de Fogo (2019), de Todd Robinson. Da sua filmografia constam ainda O Estranho Mundo de Daisy Clover (1965), de Robert Mulligan, ao lado de Natalie Wood e Robert Redford; A Caçada Real do Sol (1969), de Irving Lerner, adaptação de uma peça de Peter Shaffer que já havia criado em palco; Waterloo (1970), de Sergei Bondarchuk; O Regresso da Pantera Cor-de-Rosa (1975), de Blake Edwards; O Homem que Queria Ser Rei (1975), de John Huston; Jesus de Nazaré (1977), de Franco Zeffirelli (filmado para televisão mas exibido no cinema em muitos países); Processo Arquivado por Ordem Real (1979), de Bob Clark, onde interpretava Sherlock Holmes, com James Mason como o Dr. Watson; Malcolm X (1992) e Infiltrado (2006), ambos de Spike Lee; Lobo (1994), de Mike Nichols; Doze Macacos (1995) e Parnassus – O Homem que Queria Enganar o Diabo (2009), de Terry Gilliam; O Informador (1999), de Michael Mann; O Novo Mundo (2005), de Terrence Malick; a animação da Pixar Up – Altamente! (2009) ou Os Homens que Odeiam as Mulheres (2011), de David Fincher. Plummer emprestou ainda a sua voz às versões inglesa e francesa do filme de animação de Regina Pessoa, Kali, o Pequeno Vampiro (2012)  na versão portuguesa, a narração coube ao realizador Fernando Lopes. Uma lista muito mais do que honrosa, mas que o actor sabia muito bem que nunca poderia ultrapassar a popularidade global do Capitão Von Trapp.

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Christopher Plummer e Julie Andrews rodeados pelas crianças Von Trapp de Música no Coração Bettmann/GETTY IMAGES

Christopher Plummer foi casado três vezes, com Tammy Grimes (1956-1960), Patricia Lewis (1962-1967) e, desde 1970, com Elaine Taylor. Deixa uma filha do primeiro casamento, a actriz Amanda Plummer. 

Notícia actualizada com a referência à participação de Plummer no filme Kali, o Pequeno Vampiro, de Regina Pessoa.