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Spike Lee: "As pessoas percebem que a ascensão da direita não está apenas confinada aos EUA, está a acontecer um pouco por todo o mundo"

Spike Lee quer dar bronca com a história de um polícia negro infiltrado no Ku Klux Klan. O seu filme de época, BlacKkKlansman, acaba com a América de Trump, com a América de Charlottesville.

Sem uma conferência de imprensa de Lars von Trier para agitar as águas no Festival de Cannes deste ano, a criação de polémica ficou a cargo de Spike Lee. E certamente criou-a com um filme que já é considerado o seu mais inflamado desde Do the Right Thing (Não Dês Bronca). BlacKkKlansman: O Infiltrado, que termina com imagens reais da manifestante Heather Heyer a ser morta no desfile de supremacistas brancos de Charlottesville em 2017, já era uma retumbante afirmação do mais prolífico e aclamado realizador negro dos Estados Unidos mesmo antes de ele estar presente na conferência de imprensa de lançamento do filme.

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E aí, perante os jornalistas, esteve cinco minutos a discursar, com muitos palavrões pelo meio, acerca de Donald Trump, referindo-se ao presidente dos Estados Unidos como “Filho da puta!” e criticando-o por não condenar publicamente o Ku Klux Klan (KKK), o grupo de supremacistas brancos.

Estas declarações espalharam-se pela Internet e pelas redes sociais. Ficou claro que, aos 61 anos, Lee ainda mantém a antiga paixão e fogosidade, e na entrevista que nos concedeu mostrou-se encantado por o seu filme estar a ser um sucesso entre os críticos estrangeiros. Recebeu o Grande Prémio do Festival.

“As pessoas percebem que a ascensão da direita não está apenas confinada aos Estados Unidos, está a acontecer um pouco por todo o mundo”, afirma.

O criativo realizador efectivamente fez tudo o que estava ao seu alcance para atrair as plateias internacionais para o seu filme. Primeiro, contou a história inacreditável, mas verdadeira, de um polícia negro, Ron Stallworth, que nos anos 70 se infiltrou nos KKK, com a ajuda do seu parceiro branco. Depois, conseguiu um fantástico grupo de actores. John David Washington, o belo e carismático filho de Denzel (que colaborou com Lee em quatro filmes), interpreta Stallworth. Adam Driver, que fez de Darth Vader nos últimos episódios da saga Guerra das Estrelas, encarna o colega de Stallworth, em parte ficcionado e agora chamado Flip Zimmerman. O actor de Hollywood Topher Grace interpreta David Duke, o grão-mestre do KKK, e a exuberante ex-modelo Laurier Harrier é Patrice Dumas, a activista amiga de faculdade de Stallworth, uma personagem fictícia baseada em Kathleen Cleaver, membro do Partido dos Panteras Negras (Black Panther Party), e na intelectual e activista Angela Davis.

Por fim, Lee trouxe o seu humor particular e um toque de modernidade, que transformam a história e a tornam relevante para a América contemporânea. Tal como Get Out (Foge), de Jordan Peele, navega entre géneros, de forma a alinhar uma história sobre o racismo. Mas é óbvio que Peele não foi o primeiro a fazer isso, nota Spike Lee. “A mistura de géneros e tons em BlacKkKlansman é algo que já foi feito há muito tempo por alguns dos meus realizadores favoritos, como Stanley Kubrick em Dr. Estranho Amor. O que é que pode ser mais sério do que a destruição da Terra? Mas mesmo assim é um filme muito divertido. Mas também tenho que admitir que trazer algum humor para este filme foi um processo muito delicado e nem sempre óbvio.”

É interessante notar que Lee ouviu falar pela primeira vez da história de Stallworth através de Peele, que acabou por ser um dos produtores do filme. A produtora de Peele tinha adquirido os direitos do livro de Stallworth, então esgotado, intitulado Black Klansman: Race, Hate, and the Undercover Investigation of a Lifetime, que, obviamente, voltou agora a ser editado. “Quando o Jordan me telefonou e me contou a história de um polícia do Colorado que se infiltra no Ku Klux Klan no início da década de 70, pensei que não podia ser verdadeira”, recorda Lee. “Eles já tinham escrito um argumento mas depois o Jordan decidiu que não o queria fazer. E então entrei eu.”

“Li o argumento e depois o livro, mas decidi que queria escrever o meu próprio argumento, juntamente com o Kevin Wilmott”, explica, referindo-se ao seu colaborador na escrita do drama musical de 2015 Chi-Raq, uma descrição satírica da violência entre gangues em Chicago que foi bastante mal recebida. “Apesar de BlacKkKlansman ser uma obra de época, queríamos colocar o filme num mundo que parece estar mais ligado à América de hoje.”

O filme inclui habilmente o slogan do movimento America First, quando o diálogo de Duke sugere que Trump lhe roubou algumas das suas ideias. Mas o que torna o filme verdadeiramente relevante é Charlottesville — nos Estados Unidos foi estreado a 10 de Agosto, para coincidir com o primeiro aniversário da marcha de Charlottesville.

Quão abertamente político queria Lee que o seu filme fosse? “Mesmo quando decidimos que queremos fazer algo que não seja político, isso em si próprio já é uma declaração política. Como poderia eu fazer um filme acerca do Klan e deixar a política de fora? Não sou um realizador assim tão bom para conseguir isso. Tínhamos acabado de filmar e estávamos a fazer a montagem quando aconteceu aquilo em Charlottesville. Inicialmente o final ia ser numa queima de cruzes do Klan, mas quando vi as imagens da reportagem na CNN decidi colocá-las no filme. Primeiro pedi licença à mãe de Heather, Susan Bro, e ela disse que sim. E tenho que dizer que não foi um assassínio, mas sim um acto de terrorismo. Existe uma grande diferença. O KKK, a direita alternativa e os neonazis são grupos terroristas. O carro a voar pela rua abaixo é um acto de terrorismo, como acontece em outros países onde já vimos acontecer a mesma coisa.”

Poderia Lee ter imaginado que Donald Trump iria tornar-se presidente dos Estados Unidos? “Não, porque não se poderia saber. Quando ele disse ‘Eu podia estar em plena Quinta Avenida e matar alguém a tiro e mesmo assim não perderia qualquer voto’ pensei que não haveria qualquer hipótese de ele ganhar. Mas ele tinha razão no que disse. Agora está a fazer tudo por tudo para regressar aos tempos antigos, o que considero muito perigoso. É por isso que digo que este é que é o ano em que estamos a viver de forma perigosa.”

No filme Lee esforçou-se para mostrar diferentes formas de alterar o sistema, através de Ron e Patrice. “Patrice é como o Black Power, estar preparado para a revolução, e Ron quer mudar o sistema por dentro.”

Qual é então a melhor forma? “Na minha opinião não existe apenas uma maneira. Mas não podemos ter o presidente dos Estados Unidos a desfazer-se de todas as leis que o presidente Obama publicou ao longo de oito anos de mandato. Tem de haver pessoas capazes de olhar para fora.”

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O realizador tirou as soqueiras do armário com as palavras “LOVE” (amor) e “HATE” (ódio), que são temas sempre presentes nas suas obras, para usá-las na passadeira vermelha em Cannes Matthias Nareyek/getty images

Alguma vez terá Lee sentido que no mundo do cinema estava a trabalhar no interior de um sistema racista? “Alguma vez?!!”, replica. “Deixe-me colocar-lhe uma questão. Que filme ganhou o Óscar de Melhor Filme em 1990? Miss Daisy. Já viu Miss Daisy nos últimos quinze anos? Nesse mesmo ano eu fui nomeado para Melhor Argumento Original com Do the Right Thing e o Danny Aiello foi nomeado para Melhor Actor Secundário, e perdeu para o Denzel em Tempo de Glória. É claro que era um sistema racista.” (Miss Daisy também venceu o prémio da Academia para Melhor Argumento Adaptado de 1990.)

O que Lee não sabia era que por altura da nossa entrevista Miss Daisy estava a ser exibido na secção de Clássicos de Cannes. “O quê?!”, grita. “E o júri não teve nada a ver com isso? Nem me vou pronunciar sobre Wim Wenders. Não digo nada!”

Digamos apenas que não são amigos íntimos.

Wenders foi o presidente do júri do Festival de Cannes em 1989 (e assim sendo tinha direito, como era usual, a dois votos), quando Do the Right Thing/Não Dês Bronca, que em princípio seria o favorito, perdeu a Palma de Ouro, que foi atribuída a Sexo, Mentiras e Vídeo de Steven Soderbergh. Lee garante que os jurados Sally Field e Hector Babenco mais tarde lhe disseram que Wenders desvalorizou o seu filme porque considerava que o protagonista, Mookie, interpretado por Lee, não era um herói, pois incitava a uma revolta após a morte de Radio Raheem (Bill Nunn).

E se bem que Lee não esteja desejoso de estragar a sua boa disposição mencionando isso hoje, o eternamente jovem nova-iorquino sabe muito bem que neste ano ele foi o principal tema das conversas no festival, enquanto a revista Variety classificou o filme de Wenders Pope Francis: a Man of his Word, que passa fora da competição oficial, como “um retrato superficial com muito pouca personalidade”.

Personalidade é uma das imagens de marca de Lee, e hoje ele está a usar soqueiras de ouro incrustadas com as palavras “LOVE” (amor) e “HATE” (ódio), que são temas sempre presentes nas suas obras. Quem imaginaria que a ideia provém do filme de Charles Laughton de 1955, The Night of the Hunter (A Sombra do Caçador)?

“Vi The Night of the Hunter quando estava na escola de cinema”, conta Lee, referindo-se à Universidade de Nova Iorque, onde é professor há 25 anos. “Esse filme impressionou-me muito, a realização, a escrita do argumento, e lamento nunca ter podido conhecer Robert Mitchum. A sua personagem Harry Powel tinha “HATE” tatuado na sua mão esquerda e “LOVE” tatuado na sua mão direita. Quando eu morrer vão analisar os meus filmes e ver que esses temas passam por todos eles. Aquele grande discurso acerca da luta entre o amor e o ódio tem sido uma das minhas grandes influências. E por isso tirei as minhas soqueiras do armário para usá-las na passadeira vermelha em Cannes.”

Quando lhe pergunto qual foi a parte mais difícil durante a concretização de BlacKkKlansman: O Infiltrado, Lee responde imediatamente que foi ter sido um filme de época. “Mas gostava de acrescentar que não há nada fácil quando se faz um qualquer filme. É mesmo difícil.”

Spike Lee filmou em Ossining, a cerca de uma hora de distância de Nova Iorque, que fez de Colorado Springs, a cidade do estado do Colorado onde Stallworth estava colocado. “Existe muita coisa nesta história mas eu decidi que não ia fazer um filme de três horas. Esta é a história de Ron. Ele foi o primeiro polícia negro naquela cidade e tornou-se um herói lá no sítio ao infiltrar-se no Klan.”

Denzel, que provavelmente está para Lee como Robert Mitchum está para Laughton, era claramente demasiado velho para o papel. O seu filho de 34 anos, que se chama JD e teve um pequeno papel em Malcolm X, em que o seu pai foi protagonista, era o candidato perfeito. “Já conhecia o JD antes de ele ter nascido”, diz Lee. “Vi-o a crescer numa série da HBO chamada Ballers e ele aí era excelente. É muito duro quando se é o primogénito de um pai muito famoso. Vejam o caso do Frank Sinatra Jr. ou do Joe DiMaggio Jr.. Eu nem sequer chamei o John David para uma audição, ofereci-lhe logo o papel. A minha mulher, Tonya Lewis, produziu um filme chamado Monsters and Men, onde ele participa, por isso tinha toda a confiança nele. Há um provérbio que diz que quem sai aos seus não degenera. Ele tem o charme do pai, aquele ‘je ne sais pas’ [sic]. Ele tem-lo!» Lee bate palmas e ri-se bem alto.

Existe uma ligação curiosa entre BlacKkKlansman: O Infiltrado e Malcolm X, diz Lee, “porque abordamos aquilo que a América enfrenta actualmente”. Malcolm X era um filme que estava demasiado à frente do seu tempo? “Será que resultava melhor agora? Acho que não teríamos resultados ao nível do Black Panther, mas o que tem que perceber é que... Acho que nunca poderia ter havido um Black Panther se não tivesse havido um Malcolm X, um Do the Right Thing ou um Get Out. Temos que ter uma visão mais geral. Estamos a crescer, a melhorar. Havia nos estúdios leis não escritas que diziam que os filmes de negros não funcionavam bem no exterior e que se temos que ter uma estrela negra, então que seja o Denzel ou o Will [Smith] ou o Chris Tucker. Mas o Black Panther acabou com isso tudo. Já não podem dizer o que diziam. Digo sempre que o Black Panther mudou o mundo a nível cinematográfico.”

Mas Lee pode receber os louros por ter sido o grande impulsionador das mudanças no cinema afro-americano.

“Há 30 anos que faço isto e já fiz 40 longas-metragens”, realça em tom orgulhoso.

Spike Lee tornou-se conhecido em 1986, com o êxito do filme atrevido e de baixo orçamento She’s Gotta Have It (Os Bons Amantes), que no ano passado passou para a televisão, numa série em que Lee surge como produtor-executivo. Consolidou a sua reputação com Do the Right Thing. Denzel interpretou um trompetista de jazz em Mo’ Better Blues/Quanto Mais Melhor (de 1990) e Lee regressou ao modo sexy com o drama romântico inter-racial Jungle Fever/A Febre da Selva (1991), com Wesley Snipes como protagonista. Após Malcolm X, Denzel protagonizou o drama desportivo de Lee de 1998 He Got Game, e também o drama Inside Man/Infiltrado, um dos seus poucos filmes gravados em estúdio e o mais bem-sucedido a nível de bilheteira até ao momento.

Mas na última década os seus filmes, incluindo Red Hook Summer (de 2012) e Da Sweet Blood of Jesus (2014), receberam críticas pouco favoráveis. Não deixa de ser curioso que Bad 25, o seu filme de 2012, é um dos melhores documentários jamais realizados sobre Michael Jackson.

BlacKkKlansman: O Infiltrado representa um espantoso regresso. A revista Variety nota que uma das razões do sucesso foi Lee ter adoptado uma abordagem menos didáctica e professoral. “Esta incrível história verídica dá a Spike Lee oportunidade para focar e dirigir a sua frustração de uma forma construtiva.”

Apesar de se manter firmemente fiel a Brooklyn, onde cresceu e onde mantém os escritórios da sua produtora, 40 Acres and Mule, Spike Lee, nascido em Atlanta de uma mãe professora e um pai músico de jazz, reside agora, com a mulher com quem casou há 25 anos e os seus dois filhos, no mais recomendável Upper East Side de Manhattan. Também enriqueceu com a sua linha de vestuário, que usa como uma espécie de ferramenta de marketing para os seus filmes.

Lee esteve recentemente no The Tonight Show, onde Jimmy Fallon lhe perguntou se já tinha o smoking preparado para a cerimónia de entrega dos Óscares. “Ah, ah, ah! Não agoures!”, avisou o realizador.

É compreensível que ele tenha receio de prémios. Estávamos nós no meio da nossa entrevista para televisão relativa a Malcolm X em Berlim em 1993 quando recebeu a notícia de que não tinha sido nomeado para os Óscares, nem como realizador nem como produtor e co-argumentista de Malcolm X, o seu mais ambicioso filme. Ficou visivelmente perturbado e teve que abandonar a sala. Com este filme Denzel foi nomeado para Melhor Actor mas perdeu para Al Pacino em Perfume de Mulher, o que espantou os críticos. Em 2001, quando Denzel venceu na categoria de Melhor Actor por Training Day/Dia de Treino (à frente do favorito Russell Crowe em A Beautiful Mind/Uma Mente Brilhante), isso foi considerado como um Óscar de homenagem à carreira. Halle Berry também venceu como Melhor Actriz por Monster’s Ball/Depois do Ódio. As coisas estavam a melhorar para as relações entre raças, pelo menos em Hollywood.

“Se a questão que me coloca é sobre se tem havido alguns avanços no que toca às pessoas de cor nos Estados Unidos, eu diria que sim”, admite Lee. “Em relação ao assédio policial ou coisas do género tem havido muitas mudanças, mas continua a haver muita coisa que tem de acontecer.”

Olhando para a grande recepção que o seu filme teve e os temas actuais e polémicos de que trata, parece que Lee irá mesmo vestir aquele seu smoking.