Costa mais perto de Centeno a pensar nas eleições de 2019

Primeiro-ministro quer mostrar que ainda há "espaço para a ambição", que "falta o que fazer", mas essa ambição tem um "limite" que é o perigo de "retrocesso". Mensagem de Natal foi mais um passo na estratégia discursiva para 2019.

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António Costa fez uma mensagem de Natal mais política do que foi habitual em anos anteriores LUSA/ANTÓNIO COTRIM

Na última mensagem de Natal antes de eleições, António Costa parece ter surpreendido no discurso ao moderar o optimismo e a valorização do que tem sido feito pelo Governo, para se deter mais no que falta fazer. A ideia que quis passar neste Natal é mais um sinal da estratégia adoptada para as eleições, que passa por mostrar que ainda tem programa para cumprir depois de 2019, de médio prazo, e que este se baseia numa posição de moderação, que implica que não se pode retroceder no "equilíbrio alcançado". Esta estratégia de António Costa vem sendo seguida pelo menos desde o congresso socialista, de Maio deste ano, precisamente um ano antes das primeiras das três eleições que se realizarão em 2019, as europeias, a 26 de Maio. 

Na opinião de Pedro Adão e Silva, comentador e professor no ISCTE, o primeiro-ministro "não pode começar a falar como se estivesse no fim do caminho". Ou seja, "nesta fase, não pode fazer tanto o discurso de que o país está melhor. Tem de ser um discurso com médio-prazo, a dizer que o país ainda tem percurso a fazer". A "diminuição do optimismo" tem mais a ver com o facto de o discurso ter de ser menos de "autocongratulação" e mais "a apontar caminhos para a frente". Em resumo: "Tem de ser um discurso que dê espaço à ambição". 

Nas palavras que dirigiu aos portugueses, o primeiro-ministro apareceu mais realista do que optimista, ou, nas palavras do próprio, não iludido. António Costa disse que não se deixa "iludir" pelos números e defendeu que é preciso saber como se consegue "dar continuidade a este percurso, sem riscos de retrocesso". Há dois anos fazia notar que a sua crença nos números e previsões do Governo não era de "optimismo, mas realismo". Há aqui diferenças a assinalar. Costa, que o Presidente da República descreve, quase desde o início, como um "optimista crónico e por vezes ligeiramente irritante", suavizou o discurso dos bons resultados, equilibrando os bons números na mensagem com vários "mas" que faltam cumprir. 

A ambição tem de ser moderada, tem um "limite" e é aqui que entra a segunda parte da mensagem do primeiro-ministro, aquela que mais se aproxima do papel, da prática e do discurso do ministro das Finanças, Mário Centeno. Há duas semanas, no último debate quinzenal deste ano, António Costa dizia  uma frase que resume o recado que quer passar: "Não podemos ir além do limite, sob pena de que PSD e CDS se fiquem a rir de nós e digam que tinham razão”.

Na terça-feira, este "limite" aparecia implícito na expressão "contas certas", repetida já várias vezes pelo chefe do Governo, que é o alfa e ómega da prática e do discurso de Centeno, o que já o levou a ser comparado a Vítor Gaspar, ministro das Finanças do Governo de Passos Coelho. Também se vislumbrou na ideia de que é preciso que não se deixe de "eliminar o défice e de continuar a reduzir a dívida", uma "política de responsabilidade e equilíbrio", defendeu. É um "vínculo à consolidação orçamental", diz Adão e Silva, que lhe permite, ao "mesmo tempo, diferenciar-se muito à esquerda" e engolir o discurso do PSD. "CDS, BE e PCP têm uma história para contar. O PSD, assim, não tem", diz.

A mensagem para 2019 andará por isso à volta dessa ideia de que há um limite, ou nas palavras proferidas pelo primeiro-ministro "responsabilidade e equilíbrio", mas que este não corta as pernas à ambição. "Acho que esta vai ser a estratégia para as eleições: uma valorização do que foi alcançado, aliada à ideia do PS como ponto de moderação e equilíbrio", diz Adão e Silva. 

Neste discurso, a ambição que falta cumprir centrou-se em alguns pontos gerais de governação: mais (e melhor) emprego, a mensagem de marca do programa do Governo; redução das desigualdades que leve a uma redução da pobreza, respondendo a uma exigência do Presidente da República; e melhores serviços públicos (a reboque de mais investimento), que responde à esquerda e a várias contestações que se fazem sentir. Tudo aliado a dois desafios: o demográfico e o da valorização do interior. 

Os desafios não são novos. Nas várias mensagens de Natal, por exemplo, Costa foi sempre referindo a necessidade de promover o regresso de jovens e dar-lhes condições para ficarem, respondendo ao desafio demográfico não só com a natalidade, como também com a imigração e o regresso de emigrantes.

Adão e Silva nota que "houve uma ligeira mudança" no discurso nos últimos meses, sobretudo desde o congresso socialista de Maio, mas estas oscilações estão relacionadas com uma mudança que foi permitida por Rui Rio. O PSD estava numa linha política que dizia "que o Governo estava capturado" pelos parceiros. "A partir do momento em que assinou os compromissos, essa linha desapareceu e deu a Costa a possibilidade de aparecer como o ponto de equilíbrio, diferenciando-se à esquerda e direita".

Aliás, há dois momentos mais políticos dignos de nota sobre esta estratégia de se distanciar ora de uns ora de outros. Nas jornadas parlamentares do partido em Junho, Costa avisava a esquerda para os perigos do "eleitoralismo", por exigirem mais em algumas matérias em discussão no Orçamento do Estado para 2019. Meses depois, nas jornadas de Novembro, o alvo mudava para o PSD e CDS acusando-os de serem os "campeões do despesismo", precisamente por serem os partidos que mais despesa ou menos receita criavam com as alterações ao Orçamento que tinham apresentado. 

O equilíbrio nas políticas, nem tanto quanto quer a esquerda e sindicatos nem tão pouco como tinha previsto ou como seria possível, e equilíbrio na política, nem tanto à direita nem tanto à esquerda, é a mensagem geral. "Estamos aqui num ponto de equilíbrio entre o Estado social, a Europa e a consolidação orçamental e como o PSD não tem história para contar, isto dá incentivos para que Costa vá sempre salientando este equilíbrio", resume Adão e Silva.