Costa acena com “riscos de retrocesso” na mensagem de Natal

Primeiro-ministro assume que não se “ilude” com os resultados alcançados e que é preciso “fazer melhor”. Mar , interior e natalidade no centro do discurso de António Costa.

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Mensagem de Natal do primeiro-ministro LUSA/ANTÓNIO COTRIM

Depois de ter sido apelidado de “optimista às vezes ligeiramente irritante”, António Costa tenta mostrar, na sua última mensagem de Natal antes de novas eleições, que não se deixa “iludir” com os resultados alcançados desde 2015. Apesar de o país já ter “virado a página dos anos mais difíceis”, é preciso “dar continuidade a este percurso, sem riscos de retrocesso”, defendeu o primeiro-ministro.

António Costa tem vindo a moldar o seu discurso nos últimos tempos, suavizando as referências aos resultados conquistados para dar mais ênfase, ou pelo menos para equilibrar em termos de mensagem, ao muito que há a fazer. “Eu não me iludo e não nos podemos iludir com os números”, disse na mensagem de Natal aos portugueses emitida ao início da noite desta terça-feira.

“Estamos melhor, mas ainda temos muito para continuar a melhorar”, afirmou. Ao longo do discurso, o primeiro-ministro foi referindo os dois lados da moeda, sempre separados por um “mas” que distingue o passado (ou o que foi feito) do futuro (o que falta fazer): “Temos mais 341 mil empregos criados, mas há ainda muitas pessoas a procurar emprego”; ou “já conseguimos assegurar médico de família a 93% dos cidadãos, mas há ainda 680 mil portugueses que aguardam pelo seu médico”; ou “os rendimentos têm melhorado, mas persistem níveis elevados de pobreza”. Este último, “mas”, o da pobreza, é um assunto bastante referido pelo Presidente da República.

António Costa sabe que, nesta altura, puxar apenas pelos galões do que foi alcançado seria uma mensagem desfasada até porque estes dias de festividades não foram totalmente pacíficos para o Governo. Com novas greves nos comboios e sem acordo entre o Ministério da Saúde e os enfermeiros, foi também aos funcionários do Estado que o primeiro-ministro se referiu nesta mensagem, especificando os hospitais e destinando uma “atenção especial” àqueles que, “esta noite, estão a trabalhar em empresas ou serviços públicos de laboração contínua, como os hospitais”.

Para responder a todos os “mas” da sua mensagem de Natal, o primeiro-ministro disse que é preciso desenvolver as políticas que têm sido levadas a cabo: “A primeira condição é dar continuidade às boas políticas que nos têm permitido alcançar bons resultados”, defendeu. Contudo, disse, “temos de querer fazer mais e melhor” e isso passa por responder a dois “desafios”: a demografia e a valorização do território.

Estes são, aliás, dois dos temas que António Costa, enquanto líder do PS, fez verter na sua moção ao congresso de Maio passado. O desafio demográfico era mesmo um dos quatro eixos estratégicos, enquanto a valorização do interior entroncava no eixo da redução das desigualdades.

No que diz respeito ao desafio da demografia, o primeiro-ministro disse agora que “não o podemos resolver só com a imigração”, mas também com a criação de condições para que os jovens “sintam que têm em Portugal a oportunidade de se realizarem plenamente do ponto de vista pessoal e profissional, e assegurar uma nova dinâmica à natalidade”, não referindo, desta vez, a vontade de promover o regresso de jovens emigrantes, uma política – Programa Regressar – na qual apostou e que foi inscrita no Orçamento para 2019.

No que diz respeito ao território, o primeiro-ministro quer “valorizar os recursos desaproveitados”, seja no mar dos Açores e da Madeira, seja no “interior do continente”, tentando aproveitar o mercado ibérico.

Nesta mensagem de Natal não houve referências aos três actos eleitorais que se avizinham, nem às falhas que têm sido apontadas ao Estado, nem sequer à contestação que se tem feito sentir, mas foram referidas algumas reivindicações, de uma forma geral, relacionadas com a necessidade de “investir na qualidade dos serviços públicos, como o SNS ou os transportes, na modernização das infra-estruturas, na melhoria da vida dos pensionistas e das condições de trabalho na administração pública”. Tudo, disse, sem pôr em causa do défice e a dívida.