A tarde em que a direita deu voz aos grevistas contra Costa

Primeiro-ministro recusa desvios orçamentais para evitar que PSD e CDS se fiquem “a rir” e responde aos partidos à sua esquerda que não se pode fazer tudo para todos no imediato.

Foto
António Costa LUSA/MIGUEL A. LOPES

A contestação social na saúde, forças de segurança e outros profissionais do sector público chegou ao Parlamento. No último debate quinzenal deste ano, PSD e CDS confrontaram o primeiro-ministro com os protestos, em especial na saúde, enquanto BE, PCP e PEV mantiveram em cima da mesa as suas reivindicações no salário mínimo, nas leis laborais e nas negociações com os professores. António Costa repetiu durante o debate: “Não conseguimos fazer tudo para todos ao mesmo tempo.”

Logo na abertura do debate, Assunção Cristas começou por confrontar António Costa com a “contestação crescente nas ruas”, apontando os protestos dos professores, médicos, guardas prisionais, enfermeiros, polícias, juízes, técnicos de diagnóstico e bombeiros. Para a líder do CDS, a situação foi gerada por falsas expectativas: “Todos se sentem enganados por si”. O primeiro-ministro rejeita a acusação e diz que só fez o que prometeu no programa de Governo. “Não podemos dar o passo maior do que a perna”, disse, sintetizando uma ideia que viria a repetir durante o debate quando confrontado com exigências das bancadas mais à esquerda.

A greve dos enfermeiros, explorada pelo PSD, acabou por aquecer o duelo entre o líder da bancada social-democrata e António Costa. Depois de ser insistentemente questionado sobre os números reais de cirurgias adiadas por causa da paralisação, o primeiro-ministro acusou Fernando Negrão de ser “porta-voz” da bastonária da Ordem dos Enfermeiros e isso gerou pateada na bancada social-democrata. António Costa acabou por admitir que fazer greve às cirurgias programadas “não é aceitável”, mas disse prever que as que foram adiadas sejam agendadas e executadas no primeiro trimestre de 2019. No total já foram adiadas perto de cinco mil cirurgias, de acordo com os números do primeiro-ministro. Se a deputada do PS Catarina Marcelino assinalou o “radicalismo” do PSD ao ser apoiante dos sindicatos, António Costa comentou que a direita, à falta de alternativa, se “refugia na táctica da guerrilha”. 

Depois de ter acomodado no orçamento algumas propostas da esquerda, António Costa não se cansou de repetir ao Bloco, PCP e PEV a ideia de que não se pode fazer tudo ao mesmo tempo nem à velocidade que estes parceiros pretendem. “Não é possível tudo para todos e já”, vincou, apesar de a economia crescer. E fê-lo enumerando sempre medidas para as quais têm contribuído, como a redução de alunos por turma ou o aumento do abono de família.

Cada um dos parceiros do PS pegou numa matéria para se queixar da falta de investimento do Governo, mas sem o espírito crítico acintoso de outros debates. Catarina Martins começou até por vir em defesa do Governo acusando a direita de falta de “decoro” e de hipocrisia por ter ajudado a chumbar medidas para sectores que agora fazem greve, e apelidou PSD e CDS de “novos porta-vozes das reivindicações sindicais”. E depois acusou o Governo se seguir a estratégia de “adiar” e “empatar” negociações para resolver problemas. Como o da regularização de precários ou o das carreiras, que serão uma “sombra nesta legislatura”.

Jerónimo de Sousa optou pelo tema do salário mínimo nacional, que o PCP insiste ser possível à economia suportar nos 650 euros, pelas leis laborais, e pela defesa da produção nacional. Ao salário, Costa respondeu que os 600 euros em 2019 são o cumprimento do programa do Governo, admitiu a carência de pessoal na Segurança Social, mas recusou que a proposta laboral do executivo continue a promover a precariedade.

E Heloísa Apolónia, que tentou levar Costa a comprometer-se com a justeza da recuperação integral do tempo de serviço congelado, ouviu-o responder-lhe com a necessidade de manter o “equilíbrio”. O primeiro-ministro voltou a deixar um aviso contra desvios orçamentais, apontando para as bancadas da direita: “Não podemos ir além do limite, sob pena de que PSD e CDS se fiquem a rir de nós e digam que tinham razão”.