Editorial

O regresso da palavra maldita

Poderemos chamar a esta estratégia “um ajustamento”, “uma correcção orçamental” ou “um aperto de cinto” para escapar ao anátema da palavra maldita. Mas tudo não passará de uma questão semântica.

António Costa, em entrevista à agência Lusa, no dia 11 de Abril, dizia que não “tenciona aplicar no futuro a mesma receita que há dez anos foi aplicada para enfrentar a crise” do euro. António Costa, agora em entrevista ao Expresso no dia 18 afirmava: “Já ando nisto há muitos anos para não dar hoje uma resposta que amanhã não possa garantir.” Entre a certeza do primeiro momento e a fluidez do segundo persiste a palavra maldita da política portuguesa, em especial da esquerda: austeridade.

O primeiro-ministro permanece convencido de que a contracção brutal da economia e o seu impacte nas contas do Estado se remendam com investimento público e níveis de rendimento capazes de alimentar a procura. Mas ele sabe, como todos nós sabemos, que por esses estabilizadores da crise não dependem em exclusivo da vontade de quem governa. É a tal resposta de hoje que amanhã ninguém pode garantir.

A austeridade aplicada em Portugal na crise do euro foi cega, excessiva e causou traumas na memória dos cidadãos e destruição desnecessária no tecido económico. Mas vale a pena recordar que essa política não resultou de uma deliberação consciente do Governo de Passos Coelho; foi imposta por agentes externos como condição para resgatarem as finanças públicas – mesmo que se possa sublinhar que Passos e os seus ministros a aceitaram com excesso de condescendência e, em alguns momentos, até com simpatia por acreditarem no seu poder para regenerar o país.

Nada nos garante que, com a crise do Grande Confinamento, a combinação do aumento do défice, que se anuncia para a casa dos 7%, o aumento da dívida pública ou o agravamento dos juros não forcem o Governo a cortar nos gastos com salários, pensões ou outras prestações sociais ou a aumentar impostos.

Poderemos chamar a esta estratégia um ajustamento, uma correcção orçamental ou um aperto de cinto para escapar ao anátema da palavra maldita. Mas tudo não passará de uma questão semântica. Para os cidadãos, será sempre a mesma austeridade. E por muito que o Bloco ou o PCP insistam nos seus devaneios sobre a infinitude do dinheiro ou na indizível perversidade do capital, a realidade ameaça ser infelizmente mais forte do que a ideologia.

Depois de anos de sofrimento e de extraordinária resistência que permitiram ao país reerguer a cabeça, esta crise é absurda e imerecida. Mas na vida dos povos há páginas negras que eles não escrevem. Pode ser o caso. Para nosso infortúnio, a austeridade espreita e não é por não a querermos ou lhe darmos com outro nome que ela deixará de nos afligir.

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