Saúde holística: já fez o seu check-up?

O nosso corpo é uma espécie de computador gigante, onde tudo está interligado, onde tudo se afecta mutuamente.

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A proposta é "dedicar algum tempo a ouvir o seu corpo e a reconhecer os sinais que ele lhe dá" Kelly Sikkema/Unsplash

Ser saudável, nos dias que correm, pode ser uma grande dor de cabeça. De todos os cantos, pulam conselhos e recomendações: quais os alimentos mais saudáveis, quanta água devemos beber, quanto exercício físico devemos fazer, quantas horas temos de dormir, quais os vícios que temos de largar, quais as práticas de autocuidado que temos mesmo de seguir. Para complicar, são frequentemente contraditórios. Acabamos inundados por um mar de informação, a acreditar que não estamos a fazer “a coisa certa”, e isso converte esta história do “ser saudável” num autêntico martírio para muitas pessoas. Já experimentaram tudo, já seguiram todas as dietas, até fazem meditação. Então, por que não se sentem saudáveis?

Falar sobre saúde holística ainda arrepia muita gente, que identifica imediatamente este conceito com o de medicina alternativa e com a negação da ciência e da medicina convencional. Nada disso. Quando muito, ela combina esses dois mundos. A saúde holística encara o ser humano com um todo e parte do princípio de que o nosso bem-estar é afectado por vários factores (físicos, emocionais, sociais, espirituais, mentais). Quando um está em desequilíbrio, pode afectar os outros e comprometer a nossa saúde geral. Por isso, quando queremos “tratar” um determinado problema, temos de perceber qual a sua causa (ou causas), e não ficarmo-nos apenas pelo tratamento dos sintomas.

O que lhe proponho neste Dia Mundial da Saúde, é fazer um mini check-up à sua saúde holística. Não falo de exames ou análises (mas é bom que os faça, regularmente!), mas sim de dedicar algum tempo a ouvir o seu corpo e a reconhecer os sinais que ele lhe dá. Este exercício permite identificar e investigar sintomas, reconhecer os “suspeitos do costume” e ligar algumas pontas soltas. Pegue num bloco de notas e numa caneta, e vamos a isso.

Identificar e investigar sintomas

Comece por listar todos os sintomas de saúde que lhe causam desconforto, dor ou medo/receio, seja de ordem física ou emocional (ex: inchaço abdominal, cansaço, falta de energia, ansiedade, stress, apetite descontrolado, dores musculares, dores de cabeça, aumento/perda de peso, etc.).

Investigue esses sintomas. Para cada um, responda: quando e com que frequência ocorrem? Estão associados a alguma situação/comportamento ou há algum padrão associado? Como estão a ser tratados?

Reconhecer os “suspeitos do costume”

Muitos dos nossos sintomas podem ter origem em duas áreas: a alimentação primária e a alimentação secundária. A segunda diz respeito à comida que pomos no nosso prato; a primeira, aos outros “alimentos” que fazem parte da nossa vida e que têm um papel determinante na nossa saúde, bem-estar e felicidade, além de também influenciarem a nossa relação com a nutrição propriamente dita.

Alimentos secundários:

  • Alimentação natural vs. alimentação processada
  • Consumo de água
  • Consumo de açúcar
  • Consumo de cafeína e álcool
  • Possíveis sensibilidades alimentares (ex: glúten, lactose)
  • Como comemos (rapidez, quantidade)

Alimentos primários:

  • Hábitos de sono
  • Níveis de stress
  • Actividade física
  • Relacionamentos
  • Carreira e finanças
  • Espiritualidade

Neste mini check-up, vamos ver cada um destes tópicos em detalhe, através de um pequeno questionário.

Investigar e questionar

Para saber em que ponto está ao nível da alimentação secundária e primária, responda às seguintes perguntas.

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Hoje em dia, já todos temos mais ou menos uma ideia do que é uma alimentação saudável: consumir boas quantidades (e variedade) de vegetais e fruta, escolher boas fontes de proteína (ex: carne, peixe, ovos, leguminosas), hidratos de carbono (de preferência, complexos, como arroz, massa, pães integrais, aveia ou outros cereais integrais) e gorduras saudáveis (como azeite, abacate, peixes gordos, frutos secos ou sementes).

A nossa saúde beneficia de uma alimentação o mais natural possível, ou seja, minimamente processada. O consumo regular de produtos altamente processados, carregados de açúcar, sal e gordura – como o fast-food – aumenta o risco de doenças. O açúcar está, muitas vezes, “escondido” em muitos dos alimentos que comemos e é um dos grandes responsáveis pelo aumento da obesidade e outros problemas de saúde. Além disso, o facto de o açúcar (e de os produtos altamente processados) gerarem sensações de prazer e satisfação, faz com que se tornem altamente viciantes e que seja muito fácil desenvolvermos uma relação “emocional” com eles, o que estimula ainda mais o seu consumo.

Cozinhar em casa é essencial para ter uma alimentação saudável, porque temos mais controlo sobre as porções ingeridas e os ingredientes usados. As doses dos restaurantes são geralmente maiores do que as que deveríamos comer, além de tenderem a conter mais gordura, sal e açúcar.

Além disso, devemos beber bastante água – uma boa hidratação é essencial para a saúde – e evitar o consumo excessivo de álcool e cafeína, que, além de estarem associados a um maior risco de problemas de saúde, podem afectar os nossos níveis de ansiedade e o nosso sono.

Para muitas pessoas, o consumo de alguns alimentos (como os produtos lácteos ou com glúten) provoca também reacções. Não me refiro a casos mais graves de intolerâncias alimentares, mas sim a sintomas de desconforto e distensão abdominal, flatulência ou problemas intestinais, que podem beneficiar da eliminação desses alimentos, pelo menos durante um determinado período de tempo. De preferência, sempre sob aconselhamento e acompanhamento de um profissional.

Do mesmo modo, a forma como comemos pode gerar sintomas físicos adversos, do género dos referidos anteriormente. Comer devagar e com consciência (o chamado mindful eating) melhora a nossa digestão e é uma ferramenta fantástica de gestão de peso e de satisfação alimentar.

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Pode estar a questionar-se: mas o que é isto tem a ver com a minha saúde? Tudo. Haveria muito a dizer sobre cada um destes temas, mas o essencial é percebermos que qualquer uma destas áreas – quando em desequilíbrio – pode mexer com as outras e afectar o nosso bem-estar e saúde.

As nossas relações, o trabalho, o dinheiro, a própria actividade física e a alimentação – todos eles podem ser factores de bem-estar e equilíbrio ou então de stress e ansiedade. E vão inevitavelmente repercutir-se na nossa saúde física e emocional.

Se andar stressado e ansioso, provavelmente vai dormir pior e, isso, por sua vez, vai amplificar ainda mais o seu stress. Neste contexto, é fácil a alimentação ir por arrasto, é fácil não termos energia para nos exercitarmos. É facil termos menos paciência para lidarmos com as outras pessoas e cuidarmos dos nossos relacionamentos. Sentimos que não temos tempo para nós, e que não estamos a dar o nosso melhor. Sofremos, física e psicologicamente. E isto é apenas um pequeno exemplo das múltiplas interacções possíveis.

O nosso corpo é uma espécie de computador gigante, onde tudo está interligado, onde tudo se afecta mutuamente. O nosso sistema digestivo é um bom exemplo disso. Já apelidado como o “segundo cérebro”, os nossos intestinos “albergam” boa parte do nosso sistema nervoso e do nosso sistema imunitário, por isso é fácil perceber que, quando não estão a funcionar bem, o problema dificilmente fica por ali.

Fazer as ligações

Depois de responder ao questionário, encontra alguma ligação entre os seus sintomas ou problemas e os “suspeitos do costume”? Se sim, que tal escolher uma área que considera prioritária e identificar duas ou três acções – simples e fáceis de pôr em prática – que possam ajudar a melhorar a sua saúde?

Cuidar da nossa saúde de forma holística implica fazer estas ligações e actuar sobre as causas dos problemas ou sintomas. Não se trata de nos armarmos em médicos ou especialistas – estes existem e devem ser procurados regularmente e sempre que necessário. Trata-se de aprendermos a escutar o nosso corpo, a identificar os seus sinais de alarme e a fazermos as mudanças que sabemos ser necessárias para ficarmos melhor. Na maioria das vezes, nós sabemos bem quais são.


A autora é health coach e criadora do projecto About Real Food