O poder do intestino na nossa saúde

A flora intestinal difere muito de pessoa para pessoa, sendo resultante de factores como a dieta e uso de antibióticos, entre outros.

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"Uma dieta rica em fibras e pobre em gorduras de origem animal e açúcar, pode ser benéfica no perfil da microbiota intestinal" Rachael Gorjestani/Unsplash

Borboletas, um nó, um pontapé no estômago. São expressões comuns usadas para descrever sintomas gastrintestinais espoletados por várias emoções como alegria, ansiedade, medo ou tristeza. É fácil imaginar essa associação, tendo em conta que o nosso sistema digestivo inclui cerca de 500 milhões de neurónios, o que já lhe valeu a designação de segundo cérebro. Estes neurónios encontram-se ligados ao sistema nervoso central, formando uma vasta rede bilateral de comunicação conhecida como o eixo cérebro-intestino. Ambos influenciam-se, trocando sinais que controlam vários aspectos da sua actividade, incluindo a sensibilidade e motilidade intestinal. Apesar de ser alvo de intensa investigação científica, muito permanece ainda por elucidar sobre o eixo cérebro-intestino.

Uma das áreas mais estudadas é a microbiota intestinal, também conhecida como flora intestinal. Consiste num conjunto de microrganismos, sobretudo bactérias, que vivem no sistema digestivo, e em particular no cólon. Estima-se que sejam tantos quanto o número total de células do nosso organismo. A flora intestinal difere muito de pessoa para pessoa, sendo resultante de factores como a dieta e uso de antibióticos, entre outros. Desempenha um papel importante não só na função do sistema gastrintestinal, ajudando na digestão e beneficiando o sistema imunitário, como também noutros aspectos da nossa saúde em geral. Uma flora intestinal desequilibrada pode contribuir para uma variedade de sintomas gastrintestinais, alterações do apetite e peso, níveis de açúcar e colesterol no sangue mais elevados, entre outros, através de mecanismos que ainda não são completamente conhecidos. Uma dieta rica em fibras e pobre em gorduras de origem animal e açúcar, pode ser benéfica no perfil da microbiota intestinal. O uso de probióticos parece ter efeito semelhante, mas permanece por elucidar quais as estirpes e doses mais eficientes.

De entre as várias doenças gastrintestinais, um grupo que se destaca no contexto das alterações do eixo cérebro-intestino e da flora intestinal, são as doenças funcionais, sendo a mais comum a síndrome do intestino irritável. É responsável por uma fatia significativa da prática clínica gastrenterológica nos países desenvolvidos, estimando-se que cerca de 10-20% da população sofra da doença, com maior incidência nas mulheres. Caracteriza-se por sintomas crónicos ou recorrentes, nomeadamente dor abdominal, obstipação ou diarreia, alteração da consistência ou aspecto das fezes, distensão abdominal ou sensação de inchaço, entre outros, na ausência de uma lesão orgânica, ou estrutural, do intestino. Isto significa que os exames complementares de diagnóstico, como análises ou a colonoscopia, são essencialmente normais. A forte relação com as emoções foi responsável pela designação, entretanto caída em desuso, de “colite nervosa”.

Uma significativa proporção dos sintomas gastrintestinais, acima mencionados, enquadra-se nestas doenças funcionais, benignas e sem potencial relevante para complicações. No entanto, existem algumas situações ou sintomas de alarme que justificam avaliação médica e consequente investigação dirigida, que pode ou não incluir a realização de colonoscopia: presença de sangue nas fezes, perda de peso não intencional, novos sintomas acima dos 50 anos, alteração do padrão prévio de sintomas crónicos, sintomas nocturnos que despertam o doente, e história familiar de doenças gastrintestinais (cancro, doença inflamatória do intestino, doença celíaca, entre outras).

A actual pandemia de covid-19 tem tido um impacto significativo nos cuidados de saúde em geral, incluindo na área da Gastrenterologia. Ansiedade, stress e medo são factores que podem contribuir para agravamento de sintomas, ao mesmo tempo que impedem alguns doentes de recorrer aos serviços de saúde, temendo o risco de contágio. A segurança de todos, doentes e profissionais de saúde, é prioritária. Ao serem adoptadas várias medidas preventivas, actos médicos como consultas e realização de exames complementares de diagnóstico podem ser realizados com segurança, minimizando os riscos.

É importante não adiar indefinidamente questões de saúde, incluindo problemas gastrenterológicos. Na presença dos sintomas de alarme, acima referidos, é fundamental uma avaliação médica atempada.