União Europeia suspende ajuda financeira à Etiópia devido ao conflito em Tigré

Bruxelas exige que organizações humanitárias e jornalistas tenham acesso a Tigré e que a violência étnica chegue ao fim.

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Milhares de etíopes têm rumado ao Sudão para fugirem à violência em Tigré Reuters/MOHAMED NURELDIN ABDALLAH

A União Europeia vai suspender um apoio financeiro de cerca de 90 milhões de euros à Etiópia devido ao conflito na região de Tigré, que opõe as tropas federais à Frente de Libertação do Povo Tigré (FLPT).

“Precisamos de ver certas condições cumpridas pelo Governo da Etiópia para que o apoio orçamental da UE seja retomado”, disse fonte europeia à emissora alemã Deutsche Welle. Entre essas condições estará a garantia de acesso humanitário às organizações de defesa dos direitos humanos, o fim da violência étnica e o acesso dos jornalistas à região de Tigré, onde as comunicações com o exterior estão cortadas há várias semanas.

A suspensão da ajuda financeira, no entanto, não vai afectar os programas europeus que já estão em curso na Etiópia. Segundo a Reuters, a UE ajuda Adis Adeba, em média, com 214 milhões de euros anuais.

A Etiópia é vista como um aliado importante da Europa na região, particularmente na contenção de grupos jihadistas como a Al-Shabab na vizinha Somália.

No entanto, a ofensiva iniciada no início de Novembro pelo Governo de Abiy Ahmed, e a relutância do primeiro-ministro em negociar com a FLPT ou aceitar mediação internacional, aumentou as preocupações em Bruxelas, sobretudo devido aos relatos de massacres de ambos os lados do conflito.

Desde o início dos confrontos, estima-se que milhares de pessoas já tenham morrido – as comunicações em Tigré estão cortadas, o que dificulta a verificação da situação no terreno – e pelo menos 950 mil pessoas, de acordo com as Nações Unidas, tiveram de fugir das suas casas.

Entre os deslocados, contabilizam-se mais de 50 mil etíopes de Tigré que fugiram para o Sudão, onde a situação humanitária também é complexa. O conflito agravou ainda a frágil capacidade dos campos de refugiados no Norte da Etiópia, onde vivem mais de cem mil eritreus.

Acresce que, mesmo antes do conflito entre o Governo federal e a FLPT, cerca de 600 mil etíopes já dependiam de ajuda humanitária para sobreviver em Tigré. Agora, as organizações humanitárias estimam que esse número possa aumentar em mais de um milhão de pessoas.

Na terça-feira, a UNICEF alertou também para o facto de mais de dois milhões de crianças em Tigré estarem em risco, uma vez que viram a ajuda humanitária de que necessitam, sobretudo ao nível de comida e medicamentos, ter sido cortada devido ao conflito.

No passado fim-de-semana, os primeiros camiões de organizações não-governamentais entraram em Mek'ele, capital da região de Tigré, na sequência de um acordo estabelecido entre a ONU e o Governo de Abiy Ahmed no início do mês.

Contudo, as organizações que estão no terreno queixam-se dos bloqueios por parte do Governo federal, que tem dificultado a entrada dos agentes humanitários na região, tendo, inclusive, quatro funcionários das Nações Unidas sido baleados por tropas federais, alegadamente por terem passado um checkpoint sem autorização.

“Precisamos de um acesso seguro, incondicional e livre à região para garantirmos ajuda às pessoas que lá vivem”, disse Saviano Abreu, porta-voz do Gabinete das Nações Unidas para a Coordenação dos Assuntos Humanitários (OCHA, na sigla em inglês).

No final de Novembro, o Governo federal etíope declarou vitória sobre a FLPT, cujos líderes estão em fuga, ao que tudo indica escondidos nas montanhas. No entanto, os rebeldes garantem que os combates continuam, apesar de estarem incontactáveis há vários dias, escreve a Reuters.