ONU: sem um esforço global, vamos ver muitas “crianças a morrer na televisão”

Nações Unidas avisam que o dinheiro prometido para combater a fome não é suficiente, num ano em que a crise climática e a pandemia se aliaram a conflitos para criar várias “crises agudas”.

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Um iemenita segura a mão do seu irmão malnutrido num hospital de Sana YAHYA ARHAB/EPA

As Nações Unidas acabam de destinar 100 milhões de dólares (84 milhões de euros) em financiamento de emergência para sete países à beira de uma fome extrema. Mas avisam que este valor, assim como o dinheiro prometido este ano para combater a fome, “não é suficiente”. Sem uma resposta imediata, diz a organização, o mundo poderá assistir a “um enorme número de crianças a morrer nos ecrãs de televisão”.

Afeganistão, Burquina Faso, Etiópia, República Democrática do Congo (RDC), Nigéria, Sudão do Sul e Iémen são os países onde a crise climática e a pandemia de covid-19 se aliaram a conflitos e crises económicas para criar “crises agudas e perigosas”, diz o coordenador dos Assuntos Humanitários da ONU, Mark Lowcock, ouvido pelo jornal The Guardian.

Lowcock anunciou que o dinheiro alocado a estas crises será distribuído pelo Fundo Central de Resposta de Emergência da ONU (CERF, na sigla inglesa) através de dinheiro e de um programa de vouchers destinado aos mais vulneráveis, especialmente mulheres, meninas e pessoas com deficiências.

O Iémen, arrasado por cinco anos de conflito, vai receber 30 milhões; ao Afeganistão, com 3,3 milhões de pessoas com fome, chegarão 15 milhões; o mesmo valor que vai receber o Noroeste da Nigéria; na RDC, onde até ao fim do ano haverá quase 22 milhões de pessoas a precisar de assistência alimentar, serão distribuídos sete milhões; a mesma quantia destinada para o Sudão do Sul, enquanto o Burquina Faso será apoiado com 6 milhões.

Os restantes 20 milhões de dólares foram atribuídos à Etiópia, onde uma seca extrema está agora a ser exacerbada pelo conflito entre o Governo central e a liderança da região Tigré.

“Este dinheiro não é de todo suficiente para lidar com a situação actual. O que estamos a fazer é enviar um sinal, se não tomarmos cuidado, daqui a um ano vamos perguntar-nos por que é que não impedimos uma série de fomes extremas em todo o mundo”, diz Lowcock.

Este responsável espera agora que “os principais financiadores humanitários – os EUA, a Alemanha, a Comissão Europeia e o Reino Unido – intervenham” e lembra que dos 20 mil milhões de dólares necessários para acção humanitária em 2020, só 3 mil milhões tinham chegado em Julho às Nações Unidas.

Foi já em Abril que o Programa Alimentar Mundial aviou que as crises provocadas pelo novo coronavírus podem fazer duplicar o número de pessoas a passar fome no mundo, de 130 milhões, em 2019, para 265 milhões de pessoas.

“A perspectiva de um regresso a um mundo onde as fomes extremas são comuns seria repugnante e obscena, num mundo onde há comida para todos”, disse Lowcock no anúncio do fundo de emergência, citado pela Voz da América. “A fome provoca mortes agonizantes e humilhantes”.

O anúncio e os avisos do principal responsável da ONU no combate à fome coincidiram com a divulgação de um relatório da organização não-governamental Care onde se diz que, pela primeira vez, há quatro países que estão em simultâneo à beira da catástrofe alimentar: a DRC, a Nigéria, o Sudão do Sul e o Iémen.

Nas contas da ONG, os doadores só disponibilizaram até agora 39% dos fundos necessários (em 2019, estavam disponíveis na mesma altura 63%). “Este problema não pode ser resolvido por um só país. Requere um esforço concertado de cada doador, de cada país”, diz ao Guardian Sarah Fuhrman, autora do relatório.

Pergunta Fuhrman: “Queremos olhar para 2020 como aquela altura em que deixámos a pandemia e os seus efeitos chegar a um ponto onde as pessoas enfrentavam risco extremo de fome ou queremos olhar para trás e dizer, ‘Unimos esforços e salvámos literalmente a vida das pessoas’?”.