Trump admitiu atacar o Irão depois das eleições, mas conselheiros dissuadiram-no

Presidente cessante tinha como alvo reservas de urânio de Teerão, mas foi aconselhado a não avançar, devido à possibilidade de um conflito de larga escala nas suas últimas semanas na Casa Branca. Donald Trump prepara-se para anunciar retirada de mais tropas norte-americanas do Iraque, Afeganistão e Somália.

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Donald Trump rasgou unilateralmente o acordo nuclear com o Irão em 2018 EPA/CHRIS KLEPONIS

Mais de uma semana depois das eleições presidenciais norte-americanas, que deram a vitória a Joe Biden, Donald Trump manifestou intenção de atacar o Irão por causa do programa de enriquecimento de urânio, tendo os seus conselheiros convencido o Presidente cessante a recuar, escreve o The New York Times, citando quatro fontes sob anonimato.

Segundo o mesmo jornal norte-americano, Donald Trump esteve reunido, na passada quinta-feira, com vários dos seus conselheiros, um dia depois de a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) ter revelado que as reservas de urânio enriquecido no Irão eram 12 vezes superiores ao permitido no acordo nuclear que os Estados Unidos abandonaram em 2018. Na reunião, estiveram o vice-presidente, Mike Pence; o secretário de Estado, Mike Pompeo; o secretário de Defesa interino, Christopher Miller; e o chefe do Estado-Maior Interarmas Mark A. Milley.

Em cima da mesa, o Presidente cessante pôs a hipótese de um ataque militar ou cibernético contra o Irão, que teria como alvo principal as instalações em Natanz, onde existem 2.442,9 quilos acumulados de urânio enriquecido. A AIEA disse ainda que o Teerão não deu acesso a outros locais em que se suspeita que possa existir urânio.

Durante a reunião, os conselheiros de Donald Trump dissuadiram o Presidente de avançar com um ataque contra o Irão, uma vez que as consequências, nas últimas semanas do mandato presidencial, seriam imprevisíveis e poderiam levar à escalada para um conflito mais amplo na região.

No entanto, segundo o The New York Times, Trump poderá estar a ponderar outras ofensivas contra Teerão, numa altura em que fez várias alterações no Pentágono, despedindo o secretário da Defesa Mark Esper, entre outros funcionários, substituindo-os por figuras leais.

Estas movimentações no Pentágono aumentam a especulação sobre as intenções de Trump para as suas últimas semanas na presidência, sinal de que, apesar da derrota das presidenciais, Trump ainda poderá causar muitos estragos em termos de Segurança Nacional, conforme escreveu o The Washington Post em editorial.

Um ataque contra o Irão condicionaria o mandato de Joe Biden, dificultando a aproximação entre Washington e Teerão, uma das intenções do Presidente eleito, que já demonstrou vontade de retomar as negociações com o Irão sobre o acordo nuclear, assinado pelo grupo 5+1 (EUA, Reino Unido, França, China e Rússia, mais Alemanha) em 2015 e abandonado unilateralmente pela Administração Trump três anos depois.

Retirada de tropas

Nas suas últimas semanas na Casa Branca, o Presidente cessante prepara-se ainda para reduzir o número de tropas norte-americanas no Afeganistão e no Iraque, uma das promessas de Donald Trump durante a sua campanha.

De acordo com um memorando citado pela imprensa norte-americana, a Casa Branca prepara-se para anunciar que o contingente no Afeganistão será reduzido de 4500 soldados para 2500, uma intenção que Trump já tinha demonstrado antes das eleições, quando prometeu que as tropas norte-americanas voltariam a casa antes do Natal.

Os seus conselheiros, no entanto, alertaram para os riscos de uma retirada precipitada de Cabul, numa altura em que as negociações de paz entre os Taliban e o Governo afegão são cada vez mais frágeis – os dois lados iniciaram conversações em Doha, no Qatar, em Setembro, no entanto a violência continua -, temendo-se que uma retirada norte-americana permita aos islamistas regressarem ao poder.

No Iraque, depois de ter retirado mais de dois mil soldados no final de Setembro, o Pentágono pretende que mais 500 soldados regressem aos Estados Unidos, deixando um contingente de 2500 tropas em solo iraquiano.

Washington pretende manter a sua presença em Bagdad, que continua a precisar das tropas norte-americanas para prevenir o ressurgimento do Daesh, receando que uma saída repentina do contingente norte-americano crie as condições para grupos islamistas se reagruparem.

Uma saída abrupta do Iraque, como Mike Pompeo chegou a sugerir, ao ameaçar encerrar a embaixada em Bagdad, faz ainda temer uma possível escalada de tensão com o Irão, com os iraquianos a recearem que o seu país se possa transformar num cenário de guerra.

Fontes oficiais ouvidas pela Reuters, sob anonimato, adiantam que os Estados Unidos podem também estar a preparar a retirada da Somália, onde estão mais de 700 soldados norte-americanos, que ajudam o Exército no combate aos jihadistas da Al-Shabab.

O anúncio de Donald Trump sobre a retirada de tropas do Afeganistão, Iraque e Somália, segundo a imprensa norte-americana, deverá acontecer até ao final desta semana, e os soldados deverão regressar aos Estados Unidos poucos dias antes de Joe Biden tomar posse como Presidente, a 20 de Janeiro.