Trump quer um novo acordo mas Irão aposta no seu isolamento

Presidente dos EUA rasga pacto sobre o nuclear e anuncia sanções "mais pesadas" contra Teerão. A decisão unilateral isola-o em relação aos europeus. E abre período de incerteza. Teerão reage com cautela, mas não quer deixar “Trump ganhar”.

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MICHAEL REYNOLDS/Reuters

Era uma decisão esperada, mas o tom com que Donald Trump anunciou a retirada dos Estados Unidos do acordo nuclear assinado com o Irão em 2015 surpreendeu alguns e confirmou as expectativas mais pessimistas. “Se o regime iraniano continuar as suas aspirações nucleares vai ter mais problemas do que alguma vez teve”, disse, garantindo que tem provas de que Teerão não respeitou o pacto. Washington vai começar a aplicar todas as sanções anteriormente congeladas e promete outras, ainda "mais pesadas".

Na resposta a Trump, o Presidente iraniano, Hassan Rouhani, garantiu que vai continuar no acordo se os compromissos com os outros signatários se mantiverem. Rouhani avisou, no entanto, que o Irão está preparado para recomeçar as suas actividades nucleares se isso não acontecer. Falando numa “guerra psicológica”, o líder iraniano assegurou que não vai deixar “Trump ganhar”.

Na base da decisão de Trump está o facto de assentar "numa mentira", disse. "O acordo assenta numa gigantesca ficção: que um regime assassino só desejava ter um programa nuclear para fins pacíficos. Se não agirmos, o maior patrocinador mundial do terrorismo vai mesmo obter, e em pouco tempo, a mais perigosa das armas".

O acordo, disse, "nunca, mas nunca", devia ter sido feito. "Não trouxe a paz nem nunca a trará".

O Presidente norte-americano referiu, para sustentar o que disse, uma apresentação realizada pelo primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, onde este mostrou documentos que, disse, provam a existência de um programa nuclear iraniano secreto.

Porém, monitores da Agência Internacional de Energia Atómica, que passaram a poder fazer inspecções não anunciadas às instalações nucleares do Irão, afirmaram não terem encontrado provas de que o acordo tenha sido desrespeitado por Teerão.

Teerão "cumpre"

O que serviu de mote para que Rouhani afirmasse que são os EUA quem não está a cumprir o acordado: "O Irão é um país que cumpre os seus compromissos e os EUA são um país que nunca o faz".

Trump disse estar na disposição de procurar uma solução “real e duradoura” para enfrentar as ambições nucleares iranianas. “Os líderes iranianos vão naturalmente dizer que se recusam a negociar um novo acordo. Eles recusam, tudo bem. Provavelmente eu diria o mesmo se estivesse na posição deles. Mas o facto é que eles vão querer um acordo novo e duradouro, um que beneficie o Irão e o povo iraniano”.

Porém, o facto de Teerão considerar que foram os EUA a desrespeitar o acordo, torna pouco provável que se voltem a sentar à mesa.

Os aliados europeus dos EUA, e signatários do acordo (França, Alemanha e Reino Unido), tentaram nos últimos dias convencer Trump a manter-se no acordo. Apesar do fracasso dos apelos, foi deixada a garantia por estes países de que vão continuar a respeitar os termos negociados. Espera-se o mesmo de Rússia e China.

Antes da assinatura do acordo, as sanções impostas por União Europeia, Nações Unidas e EUA tiveram consequências profundas na economia iraniana e não deram outra hipótese a Teerão a não ser sentar-se à mesa das negociações. Contudo, se os outros signatários continuarem a cumprir com o pacto, os efeitos económicos sobre os iranianos da retirada unilateral americana e das sanções dos EUA serão muito menores, o que poderá salvar o acordo.

“Os líderes europeus vão procurar nas palavras de Donald Trump qualquer sinal para argumentarem que o acordo continua vivo e que pode ser salvo nos próximos meses”, diz Patrick Wintor, editor de diplomacia do jornal The Guardian.

Na manhã desta terça-feira, Rouhani abordou isso mesmo e desvalorizou os impactos das sanções norte-americanas. “Poderemos sentir alguns problemas durante dois ou três meses mas saberemos ultrapassá-los” garantiu perante uma plateia constituída por executivos do sector do petróleo e energia. “A nossa política é trabalhar e ter um relacionamento construtivo com o resto do mundo”, afirmou.

Os contornos da reaplicação das sanções por parte dos EUA não são ainda conhecidos. O processo ficará agora a cargo do Departamento do Tesouro, que informou que as sanções vão centrar-se no sector petrolífero e nas transacções com o banco central iraniano. Estas medidas vão começar a ter efeitos depois de um período de 90 a 180 dias, tempo durante o qual as empresas terão de começar a reduzir de forma faseada os negócios com as instituições iranianas.

Nas últimas semanas, alguns responsáveis políticos iranianos tinham ameaçado Washington, garantindo que, sem a presença norte-americana, não faria sentido Teerão continuar a cumprir o pacto. Foi isso que disse, por exemplo, Mohammad Javad Zarif, ministro dos Negócios Estrangeiros, no final do mês de Abril.

Porém, as declarações de Rouhani, antes e depois do anúncio de Trump, contrariaram essas posições.

Uma eventual resposta iraniana à decisão de Washington deverá ficar guardada para mais tarde. Primeiro, Teerão pretende ouvir os restantes países envolvidos na negociação e esperar para avaliar que consequências terá o regresso das sanções norte-americanas, cujos efeitos só se deverão começar a fazer sentir dentro de meses.

Mas o Presidente iraniano tem também que fazer gestão interna. Numa carta dirigida ao Ayatollah Ali Khamenei na manhã desta terça-feira, os deputados iranianos garantiram que não vão deixar os EUA imporem “exigências ilegítimas” ao Irão e disseram que o Parlamento vai obrigar o Governo a responder “ferozmente” a Washington.

Apesar do alívio económico que o levantamento das sanções gerou, persistem problemas que têm deixado insatisfeita a sociedade iraniana. Sinal disso foram as manifestações de Dezembro do ano passado contra o Governo, as maiores desde 2009.

Além disso, qualquer atitude que se assemelhe a passividade relativamente a Washington nunca será bem vista em Teerão, que tem nos EUA um dos seus principais inimigos.

Porquê rasgar o pacto?

Alguns analistas destacam o facto de não existir qualquer "plano B" em Washington e que o acordo era a melhor opção para lidar com as ambições nucleares, ainda que não seja perfeito.

Por isso, sem alternativa conhecida ao acordo nuclear, dando legitimidade ao Irão para que possa dizer que os EUA não respeitaram o que acordaram, e isolando o país dos seus mais próximos aliados europeus, o que explica a decisão do Presidente dos EUA?

Foi sempre conhecida a aversão de Trump em relação ao acordo alcançado pelo seu antecessor, Barack Obama. Retirar os EUA foi uma das suas principais promessas eleitorais.

O Presidente norte-americano critica principalmente o facto de o acordo ser ineficaz no que toca à actuação do Irão na região, argumentando que abre caminho para que Teerão espalhe a sua influência e actue em guerras como a do Iémen e da Síria; de prever a limitação das actividades nucleares apenas até 2025; e de não englobar o programa de mísseis balísticos iraniano.

Mas, acima de tudo, Trump abre caminho ao cumprimento da sua principal promessa eleitoral: destruir o legado deixado por Obama.

“A decisão de hoje envia uma mensagem fulcral: os Estados Unidos já não fazem ameaças vazias. Quando eu faço promessas, cumpro-as”.