Editorial

Mais do que um quadro, Rui Rio avançou com uma ideia

Se é verdade que o país precisa de manter uma atenção continuada sobre o défice e a dívida, se deve procurar respostas para os problemas que se agravam na esfera pública, o próximo ciclo político pode conceder um pouco mais de cuidado, empenho e atenção à economia privada.

O Quadro Macroeconómico ontem apresentado por Rui Rio para o próximo ciclo político é na aparência parecido com a invenção da roda: baixam-se os impostos e aumenta-se o investimento público, depois a economia cresce, a dívida baixa e lá para 2023 o país estará pronto para rodar a toda a velocidade. Não é, porém, pela profecia que combina desejo e realidade, ambição e credulidade que o plano do PSD deve ser analisado. Mesmo que neste particular o plano Rui Rio de 2019 seja parecido com o António Costa e o Mário Centeno de 2015, há na leitura das medidas anunciadas pelo líder do PSD uma pontinha de novidade. Ou, por outras palavras, uma ligeira correcção de trajectória que recoloca o PSD no prospecto das ideias liberais.

Depois de António Costa ter dito que na próxima legislatura não haverá baixa de impostos é bom que haja no espectro político um partido que a defenda. Não está em causa qualquer juízo de valor sobre quem tem, ou não tem razão – matéria que a simpatia política ou as ideias dos cidadãos tratarão de escolher. O que está em causa é o resgate do debate político à quase exclusividade dos assuntos e interesses do Estado e do sector público. O que conta é o enriquecimento do leque de escolhas concedidas aos eleitores.

Ao propor, ainda que de forma preliminar e incompleta, cortes na despesa primária do Estado ou a redução do IRC para as empresas, a promoção das exportações em detrimento do consumo privado e pretender encontrar nestes eixos um novo racional económico, Rui Rio recentra o PSD na sua tradicional matriz liberal. A tal matriz que Pedro Passos Coelho levou mais longe do que ninguém e que até agora pairava sobre o partido como um fantasma que ninguém queria encarar.

Se é verdade que o país precisa de manter uma atenção continuada sobre o défice e a dívida, se deve procurar respostas para os problemas que se agravam na esfera pública, o próximo ciclo político pode conceder um pouco mais de cuidado, empenho e atenção à economia privada, a que alimenta a receita fiscal e gera empregos.

Se não faz sentido uma lógica de oposição entre o sector público e os privados, é importante para todos que haja um maior equilíbrio na atenção concedida a um e outros – o que nem sempre aconteceu nos últimos quatro anos.

A proposta do PSD vai nesse sentido e vale a pena discuti-la com seriedade.