Rivera garante que haverá governo de esquerda, Iglesias está “optimista”

Líder do Podemos assume vontade de entrar para o Governo, mas diz que da reunião com Sánchez resultou apenas “um acordo para chegarem a acordo”. Cidadãos promete oposição “firme”.

Josep Borrell
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Pedro Sánchez e Pablo Iglesias Reuters/JUAN MEDINA

Concluída esta terça-feira a primeira ronda de contactos entre Pedro Sánchez e os líderes dos principais partidos de Espanha, com a visita de Albert Rivera e de Pablo Iglesias à sede do Governo – Pablo Casado, do PP, passara na véspera pela Moncloa –, adensam-se as dúvidas sobre a composição e a investidura do próximo executivo espanhol. O líder do Cidadãos rejeitou viabilizar uma investidura socialista e prometeu “vigiar o Governo do PSOE e do Podemos”, ao passo que o dirigente podemita se mostrou “optimista”, mas “prudente”, sobre a possibilidade de entrar numa coligação com o PSOE.

“Chegámos a um acordo sobre a necessidade de chegarmos a um acordo”, afirmou um cauteloso Iglesias no final de uma reunião que durou mais de duas horas com o ainda presidente do Governo de Espanha, ele que na véspera tinha prometido dialogar com Sánchez “sem linhas vermelhas, sem ultimatos e sem arrogância”.

Sem abrir muito o jogo sobre o desejo, já assumido, de integrar o próximo Governo, o líder do Podemos pediu “prudência”, “discrição” e “boa vontade”, para se poder chegar a um “entendimento entre as forças progressistas e encarar o futuro de Espanha”, destacando ainda a “relação de confiança, franqueza e empatia” que partilha com o Sánchez.

“As nossas posições são conhecidas. Estes processos são longos e é preciso tranquilidade e vontade, mas estou optimista sobre como as coisas se irão passar. Esta reunião é um ponto de partida, a disposição de ambos é a de se chegar a um acordo”, insistiu Pablo Iglesias.

Na mesma linha comedida, um porta-voz do Governo explicou que o encontro “serviu para reconhecer o trabalho dos últimos dez meses e os avanços conjuntos que se alcançaram, em benefício de uma maioria social ampla”. 

O Partido Socialista espanhol venceu as eleições legislativas de 28 de Abril, mas sem maioria no Parlamento – elegeu 123 deputados e a maioria no Congresso é igual ou superior a 176. Por isso, precisa de pactos partidários para governar em coligação ou obter os apoios necessários para a investidura de um novo executivo, liderado por Sánchez. O Podemos é a força mais bem colocada para se juntar aos socialistas, mas os seus 42 lugares não são suficientes para ultrapassar a barreira dos 176 deputados.

A solução definitiva só deverá ser conhecida depois das eleições regionais e europeias, que se realizam no dia 26 deste mês, pelo que o PSOE aproveitou os últimos dias para tomar o pulso aos seus três maiores adversários – PP, PSOE e Podemos – e explorar as possibilidades de governar em minoria. Na lista de partidos a que o PSOE poderá acenar com acordos sobre temas concretos não consta o Vox – Sánchez rejeita conversar com o partido de extrema-direita, que é a quinta força no Congresso –, mas podem entrar os independentistas bascos e catalães.

A crise catalã

Uma aliança com o Cidadãos (57 deputados) seria suficiente para atingir a maioria, mas Rivera não está para aí virado. No seguimento da posição assumida ainda antes das eleições, o líder dos liberais assegurou esta terça-feira a Sánchez que não está disponível para apoiar a sua investidura. Deu como garantida uma coligação governamental de esquerda e procurou vestir o papel de líder da oposição “perante um PP que se desmorona” – os populares perderam mais de 70 deputados e tiveram apenas 0,8% dos votos de vantagem para o Cidadãos.

“[A nossa intenção é] liderar uma oposição firme para controlar e vigiar o Governo do PSOE e do Podemos”, explicou Rivera aos jornalistas, no final de um encontro que os media espanhóis descrevem como “curto” e “com poucos sorrisos” e que também serviu para o dirigente apresentar quatro propostas, tendo em vista a quatro “acordos de Estado” – sobre educação, imigração, luta contra o terrorismo e êxodo rural.

Albert Rivera esclareceu ainda que o Cidadãos apenas aceita dar a mão ao PSOE na gestão da crise independentista catalã, mas na óptica da “restauração da Constituição” e da intervenção do Governo na região, por força do artigo 155: “Ofereci [a Sánchez] os 57 deputados e oito senadores do Cidadãos para se aplicar o 155 na Catalunha, se for necessário. E nós defendemos que sim, que é preciso fazê-lo (...) e perguntar a [Quim] Torra [presidente do governo catalão] se pretende acatar e fazer cumprir a Constituição”.