May descarta proposta de Corbyn para manter Reino Unido numa união aduaneira com a UE

Primeira-ministra britânica rejeita exigência do trabalhista para apoiar um acordo de saída da UE e regressa terça-feira ao Parlamento para apresentar e discutir próximos passos do divórcio.

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Theresa May, primeira-ministra do Reino Unido EPA/STEPHANIE LECOCQ

Theresa May sossegou a ala brexiteer do Partido Conservador e, através do seu porta-voz, negou que a proposta de Jeremy Corbyn para a manutenção do Reino Unido numa união aduaneira com o bloco europeu, depois do divórcio com a União Europeia, esteja a ser considerada pelo Governo.

Apesar de disponível para fazer algumas concessões, a primeira-ministra britânica não ficou convencida com o principal ponto da lista de exigências apresentada pelo líder do Partido Trabalhista para apoiar um acordo de saída. E vai explicar porquê, na terça-feira, no Parlamento, na primeira de nova série de sessões plenárias, agendadas para definir os próximos capítulos da novela do “Brexit”.

“Somos totalmente claros nesta matéria: não estamos a considerar as propostas de Jeremy Corbyn sobre a união aduaneira, nem quaisquer outras propostas de permanência [do Reino Unido] na união aduaneira. Queremos a nossa própria política comercial, independente”, afiançou esta segunda-feira um porta-voz de Downing Street.

Mais incisivo, o ministro do Comércio Liam Fox, um assumido eurocéptico, catalogou a proposta de Corbyn como um “delírio perigoso”.

A rejeição da “união aduaneira permanente e abrangente” exigida pelo trabalhista tinha sido confirmada, no domingo, pela primeira-ministra, em resposta a uma carta, enviada na semana passada pelo líder da oposição, com as suas cinco condições fundamentais para considerar apoiar o executivo nos próximos passos para o “Brexit”, agendado para o dia 29 de Março.

May argumentou que os seus planos permitem que o Reino Unido venha a beneficiar “das vantagens de uma união aduaneira”, ao mesmo tempo que possibilitam o “desenvolvimento de uma política comercial independente”, que possa “ir além da parceria económica com a UE”.

O tom conciliador, a linguagem moderada, os desejos de um novo encontro bilateral “o mais brevemente possível” e a sugestão de potenciais concessões em matéria de protecção dos direitos dos trabalhadores e ambientais, presentes na missiva, levaram, no entanto, vários meios de comunicação britânicos a noticiar que May estaria disponível para um “Brexit” “mais suave” – se isso lhe garantisse os votos necessários na Câmara dos Comuns para aprovar o tratado jurídico do divórcio.

Em declarações à BBC, Rory Stewart, secretário de Estado para as Prisões, negou que o Governo estivesse interessado em discutir com Corbyn a permanência britânica numa união aduaneira mas defendeu a existência “vários pontos em comum” entre os dois partidos mais representados na Câmara dos Comuns. “Tal como eu, [May] sente que, na verdade, não há assim tanta coisa a separar-nos do Partido Trabalhista, como muita gente anda a sugerir”.

May e Corbyn reuniram-se no final do mês passado para trocar pontos de vista sobre o “Brexit”, na sequência da aprovação, no Parlamento, de duas emendas a uma moção do Governo: a primeira – não vinculativa – recomendava ao executivo que colocasse um travão num cenário de saída sem acordo e a segunda substituía por “disposições alternativas” a solução encontrada para evitar uma fronteira na ilha irlandesa.

A primeira-ministra e os membros do seu Governo têm-se desdobrado, nas últimas semanas, em reuniões com representantes europeus, irlandeses e britânicos, para tentar renegociar o backstop – que poderá manter o Reino Unido numa união aduaneira com a UE caso não se encontre uma solução alternativa num acordo de parceria económica a negociar –, mas contam com a irredutibilidade dos 27 para reabrir o documento fechado em Novembro – amplamente chumbado na Câmara dos Comuns em Janeiro.

May regressa esta terça-feira ao Parlamento para esclarecer os partidos sobre o estado do processo de saída e na quinta-feira será dada mais uma oportunidade aos deputados de apresentarem emendas aos seus planos para o “Brexit”. A nova votação ao acordo de saída, porém, ainda não tem data marcada.