Corbyn não abdica das suas “linhas vermelhas” para discutir o “Brexit”. E May também não

Líder trabalhista continua a recusar falar com o Governo enquanto este não excluir saída sem acordo e em Downing Street rejeita-se negociar união aduaneira ou segundo referendo. Votação do “plano B” prevista para o dia 29.

Jeremy Corbyn, líder do Partido Trabalhista
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Jeremy Corbyn, líder do Partido Trabalhista Reuters/PETER NICHOLLS

Depois de dois dias de votações electrizantes na Câmara dos Comuns de Westminster, o palco do “Brexit” mudou-se para Downing Street. Chumbado o acordo do Governo para a saída do Reino Unido da União Europeia pelos deputados, de forma esmagadora, Theresa May convidou líderes e representantes de todos os partidos para tentar encontrar uma solução passível de ser aprovada no Parlamento. Mas nem a primeira-ministra, nem o líder da oposição parecem dispostos a abdicar das sua “linhas vermelhas”. Jeremy Corbyn recusa mesmo iniciar conversas sem ter garantias de que um divórcio sem acordo não consta nos planos do executivo.

A posição irredutível do líder do Partido Trabalhista já tinha sido apresentada, pelo próprio, na quarta-feira à noite, na Câmara dos Comuns, no seguimento da rejeição da moção de censura que apresentou ao Governo. Não só a reforçou, esta quinta-feira, num discurso em Hastings, como suplicou aos deputados do Labour que a respeitem, através de uma carta.

“O convite [de May] para conversas com os líderes partidários não passa de uma encenação, não é um esforço sério para encarar a nova realidade”, defendeu Corbyn. “Por isso repito o que já tinha dito à primeira-ministra: gostaria muito de falar com ela – mas o ponto de partida para qualquer conversa sobre o ‘Brexit’ tem de passar pela exclusão da ameaça de uma desastrosa saída sem acordo”, insistiu.

Na carta enviada aos deputados trabalhistas, Corbyn apresentou justificações semelhantes e lançou o repto: “Peço aos colegas que respeitem esta condição e que se abstenham de conversar com o Governo enquanto um no deal não for retirado de cima da mesa”.

Quando esta missiva foi revelada pelos media britânicos já os deputados trabalhistas Hilary Benn e Yvette Cooper – ambos remainers – se encontravam reunidos com o ministro conservador David Lidington. À saída da reunião, condenaram a “teimosia” de Corbyn, mesmo não tendo desafinado com as suas exigências. 

“[Corbyn] apenas está a demonstrar que a primeira-ministra não é a única pessoa a ser teimosa”, disse Benn, que, para além de deputado, é presidente da comissão parlamentar do “Brexit”.  “O Governo tem de excluir o no deal. Esse é o primeiro passo. O segundo é a primeira-ministra mudar as suas linhas vermelhas”, acrescentou.

Porque do lado do Governo também há uma forte resistência à negociação de alguns dos pontos-chave da sua estratégia, como o comprovaram os representantes dos Liberais-Democratas, do Partido Nacional Escocês, do Partido Verde ou do Plaid Cymru galês, após a primeira ronda de contactos, e o próprio porta-voz de May, ao final da manhã.

“A primeira-ministra foi totalmente clara sobre a importância de o Reino Unido ter uma política comercial independente (...) e acredita que é fundamental honrar o resultado do referendo. E mantém-se firme na defesa desses princípios”, afirmou o representante do Governo, confirmando a indisponibilidade de May para reconsiderar a sua posição sobre um segundo referendo e sobre a manutenção do Reino Unido numa união aduaneira com a UE.

O Governo revelou mesmo um relatório no qual argumenta ser impossível organizar um novo referendo em menos de um ano.

Hammond sossegou empresas

Entre a classe política e empresarial britânica ninguém tem dúvidas de que um divórcio sem acordo é o mais prejudicial para a economia e para a segurança do Reino Unido. Mas o Governo não o exclui e tem dado sinais de que se está a preparar para ele. A oposição acredita, no entanto, que May não pretende seguir por essa via, pelo que vê nesta postura uma tentativa de chantagem aos deputados, para os pressionar a apoiar a sua estratégia.

Numa carta enviada a Corbyn esta quinta-feira, desafiando-o a encetar negociações com o Governo, a primeira-ministra explicou que a competência para travar um não-acordo não é exclusiva executivo britânico e que depende de um alinhamento de vontades e decisões, que também envolvem o Parlamento e os líderes europeus. E por isso rejeitou afastar esse cenário, numa altura em que faltam pouco mais de dois meses para a data agendada para a saída (29 de Março).

O argumento de May não coincide, no entanto, com o que o ministro das Finanças Philip Hammond terá dito a um grupo de dirigentes empresariais. O Daily Telegraph teve acesso a uma gravação de uma chamada telefónica, ocorrida uma hora depois de o acordo de May ter sido chumbado por 230 votos na Câmara dos Comuns, na qual Hammond garantiu a representantes de 330 empresas do país que o artigo 50.º do Tratado da UE – através do qual Londres efectivou o pedido de saída – podia ser revogado.

Certo é que o relógio do “Brexit” não pára. Na segunda-feira o Governo vai apresentar uma moção sobre os próximos passos da sua estratégia e oferecer aos restantes partidos a possibilidade de apresentarem emendas à sua proposta, ao longo da semana. O executivo prevê votar novamente o seu acordo, na Câmara dos Comuns, na terça-feira, dia 29 de Janeiro.