Reunião “cordial” entre May e Corbyn não muda posição da UE sobre o “Brexit”

No dia em que a primeira-ministra britânica e o líder da oposição tiveram uma reunião “útil” e “empenhada” sobre o divórcio com Bruxelas, a Irlanda e os líderes europeus continuam irredutíveis: no acordo de saída não se muda nem uma vírgula.

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May e Corbyn debateram no Parlamento antes de um encontro "cordial" Reuters/HANDOUT
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Juncker e Barnier, no Parlamento Europeu Francois Lenoir/REUTERS
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Simon Coveney, ministro dos Negócios Estrangeiros da República da Irlanda Clodagh Kilcoyne/REUTERS

Jeremy Corbyn e Theresa May começaram o dia com reiterados ataques à estratégia de um e de outro para o “Brexit”, mas acabaram por ter uma reunião mais frutífera do que o esperado. O líder da oposição e a primeira-ministra britânica protagonizaram esta quarta-feira “uma útil troca de ideias” sobre os seus planos para a saída do Reino Unido da União Europeia e combinaram voltar a encontrar-se brevemente.

Em Bruxelas, no entanto, pouco ou nada mudou, no que toca à indisponibilidade dos 27 Estados-membros para reabrir o acordo do divórcio e riscar o mecanismo de salvaguarda para evitar uma fronteira na ilha irlandesa, como pretende agora o Governo britânico.

As expectativas para o encontro entre May e Corbyn não eram elevadas, dadas as posições defendidas por ambos ao longo dos últimos meses. Mas quem previu que terminasse com um dos dois a fechar a porta com estrondo atrás de si, enganou-se. 

O líder do Partido Trabalhista garantiu que a primeira-ministra “ouviu” e “percebeu” os seus argumentos sobre as vantagens de manter o Reino Unido numa união aduaneira e disse que discutiram “várias questões relacionadas com o backstop”. Sobre o qual até convergiram em alguns pontos. “Disse-lhe que seria a primeira vez que o Reino Unido entraria num acordo sem direito a abandoná-lo e no qual essa decisão caberia apenas ao outro lado”, explicou à BBC. “Tenho problemas com um acordo desequilibrado, quero um acordo que seja mútuo”.

Antes de abandonar a reunião, que durou cerca de 45 minutos, Corbyn deixou um aviso sobre a sua principal “linha vermelha”: “Disse à primeira-ministra que não apresentasse um no deal no Parlamento, porque não seria aceitável”.

Já a primeira-ministra revelou, através do Twitter, que esclareceu Corbyn sobre a “importância de o Reino Unido ter capacidade para negociar os seus próprios acordos de comércio” e que lhe fez saber que “a única forma de evitar um no deal é votar um acordo”.

A reunião aconteceu duas semanas depois de May ter endereçado um convite ao líder do Labour, na ressaca do chumbo histórico do acordo do “Brexit” no Parlamento. Mas o trabalhista recusou debater com o Governo enquanto este não excluísse um cenário de saída sem acordo.

A mudança de rumo de Corbyn acabou por ser uma das surpresas da maratona de votações de terça-feira na Câmara dos Comuns, já que as emendas apoiadas pelo Partido Trabalhista para impedir o executivo de avançar para um no deal foram todas rejeitadas pelos deputados – incluindo a proposta do próprio Corbyn. 

Foi, no entanto, aprovada uma emenda da deputada conservadora Caroline Spelman cujo conteúdo apontava nesse sentido, mas com a diferença (fundamental) de não vincular juridicamente o Governo. Para o Corbyn foi suficiente para se reunir com May, numa altura em que faltam menos de dois meses para a data do divórcio (29 de Março).

Mudanças só em Londres

Defendido com unhas e dentes e tratado como inegociável por May, contra a contestação no Parlamento, o backstop prevê que, caso Londres e Bruxelas não alcancem um acordo de livre comércio que impeça a reposição dos controlos alfandegários entre República da Irlanda e Irlanda do Norte, Reino Unido e UE mantêm-se integrados na mesma união aduaneira. Um cenário duramente criticado pela facção eurocéptica do Partido Conservador e pelos unionistas norte-irlandeses que apoiam o Governo tory.

Mas a aprovação de uma emenda na Câmara dos Comuns, destinada a riscar o mecanismo do acordo, levou a primeira-ministra a mudar de ideias e a defender agora a necessidade de o renegociar

Esta quarta-feira, no Parlamento Europeu, Michel Barnier e Jean-Claude Juncker reforçaram que o acordo não é para alterar e alertaram para os “riscos cada vez maiores” de uma saída desordeira. O presidente da Comissão Europeia disse que as votações na Câmara dos Comuns “não alteraram” a premissa de que “o acordo de saída continua a ser o melhor e único acordo possível” e o negociador do “Brexit” deixou críticas aos britânicos: “Custa-me aceitar que alguns deputados se empenhem agora num jogo de atribuição de culpas”.

Mais incisivo foi Simon Coveney. Numa intervenção em Dublin, o ministro dos Negócios Estrangeiros e vice-primeiro-ministro da República da Irlanda defendeu que alguém que abra caminho ao regresso “das fronteiras e divisões do passado” será “duramente e justamente julgado pela História” – numa referência ao violento conflito entre republicanos e unionistas na Irlanda do Norte, cujos acordos de paz podem ser ameaçados pelo “Brexit”. E rematou: “Há coisas mais importantes do que relações económicas”.