Para a União Europeia, não há nada mais a negociar sobre o "Brexit"

O Governo de Theresa May está a preparar-se para atirar as culpas do fracasso das negociações para Bruxelas, diz eurodeputada da Irlanda do Norte.

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A fronteira da Irlanda regressará se o Reino Unido sair da União Europeia sem acordo CLODAGH KILCOYNE/reuters

Na Irlanda uma questão semântica dominou os últimos dias: estaria a pressão causada por um cenário de saída do Reino Unido da União Europeia sem acordo a provocar tremores ou cisões na unidade do país – ou até da UE – face à exigência europeia de uma garantia que não haverá regresso a uma fronteira entre a Irlanda e a Irlanda do Norte?

A possibilidade de o acordo de saída ser renegociado, embora só no caso de haver uma garantia que o Reino Unido se manteria na união aduaneira, criou alguma desestabilização, mas no dia em que se discutiam na Câmara dos Comuns emendas com vista a uma renegociação do "Brexit" com Bruxelas, o uníssono da Irlanda e da UE voltou: não há renegociação possível.

Pouco depois da votação, o Governo irlandês voltou a declarar que o que está acordado não está sujeito a renegociação. E o porta-voz do presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, divulgou um comunicado dizendo que "o Acordo de Saída é a melhor e única maneira de garantir uma saída ordeira do Reino Unido da União Europeia".

Um jornalista britânico, Nick Gutteridge do The Sun, contava no Twitter a resposta que recebeu de um diplomata europeu a um pedido de comentários: “Não sei por que nos continuam a pedir declarações. Podem usar o que dissemos da última vez, ou da vez antes dessa, ou ainda antes dessa, ou…”. Ou seja: que a União Europeia não aceitará renegociar.

“Não há qualquer negociação em curso entre a União Europeia e o Reino Unido, essa negociação terminou”, disse a vice-negociadora para o "Brexit" Sabine Weyand.

A responsável acrescentou que a cláusula do backstop que tanto incomoda os britânicos “foi resultado de uma grande contribuição do lado do Reino Unido, muito mais do que lhe é atribuído”.

Incluído no acordo de saída, o backstop visa impedir que haja uma fronteira a dividir a República da Irlanda (UE) e a Irlanda do Norte (Reino Unido) na falta de um acordo de cooperação económica entre os 27 e o Reino Unido, que será negociado após a saída.

Weyand acrescentou que várias “ideias que parecem novas que estão a aparecer já foram extensivamente discutidas”. Deu como exemplo “um limite de tempo ao backstop, algo que foi rejeitado por unanimidade, já que a sua existência tiraria o propósito do próprio backstop”.

Visto de Dublin e de Belfast

Na Irlanda a tensão vem a subir com a perspectiva de que o Reino Unido possa mesmo sair sem acordo, o que implicaria o regresso da fronteira.

O diário francês Le Monde ouviu vários irlandeses explicar que se sentem “perante a contagem decrescente de uma bomba, mas sem saber se vai mesmo explodir”, como disse a farmacêutica Annie O’Shea, de 54 anos.

“Temos a sensação de que o nosso vizinho enlouqueceu, mas quem vai sofrer somos nós”, dizia por outro lado Mary Murphy, professora reformada de 65 anos.

Numa situação muito particular está a Irlanda do Norte, onde o Sinn Féin defendeu logo após o "Brexit" um referendo – para decidir se se mantinha parte do Reino Unido ou se se juntava à República da Irlanda.

Em declarações ao PÚBLICO, a eurodeputada do Sinn Féin da Irlanda do Norte Martina Anderson dispara farpas contra o Governo e o Parlamento britânico, que trata como House of Chaos (casa do caos), em vez de House of Commons (Câmara dos Comuns).

O que poderá passar-se? “Só poderia saber se tivesse uma bola de cristal”, declara Anderson. Mas, acrescenta, com a insistência europeia em não ter um acordo sem backstop e a recusa do Parlamento britânico em aprovar o acordo tal como está, incluindo com o backstop, parece que se está a aproximar uma saída sem acordo.

Anderson culpa o Partido Conservador pela situação e acusa o partido de Theresa May de não ter como primeiro objectivo "conseguir uma retirada ordenada da UE". Para a eurodeputada do Sinn Féin, o Governo está a preparar-se para culpar a União Europeia.

“Avisámos a União Europeia, ninguém conhece melhor os britânicos que nós, os irlandeses, que negociamos com eles há mais tempo do que nos queremos lembrar”, dispara Anderson. “Os britânicos nunca deixaram nada sem ser num estado de confusão, ninguém se deveria espantar se deixarem a União Europeia do mesmo modo.”