P

Alimentação na Cidade

Menu

Como se alimenta uma cidade de forma sustentável?

  • O poder do consumidor

    Comprar é um voto. Sabemos usá-lo?

    Alimentação e cidade

    Comprar é um voto. Sabemos usá-lo?

    “Temos de questionar muito os nossos alimentos”, diz um jovem pai de família. “Precisamos recuperar o domínio da alimentação”, defende o director-geral da FAO. E como é que isso se faz? Sazonal, local, bio, barato, sem plástico, sem glúten, sustentável — o que é que procuramos, afinal? Hoje, Dia Mundial da Terra, iniciamos uma série de cinco reportagens à procura de respostas sobre a alimentação nas cidades.

    Em 2050, seremos 9,5 mil milhões, a maior parte a viver em cidades (66%, segundo previsões das Nações Unidas, contra 54% actualmente e 30% em 1950) e, em muitos casos, em megacidades, com 10 ou 20 milhões de pessoas. Como vamos alimentar uma população mundial em crescimento? Os cálculos da ONU indicam que será preciso aumentar a produção em 60%.

    Mas como iremos produzir alimentos suficientes se a área agrícola tende a diminuir, engolida pelo avanço urbano, e se muitos dos solos produtivos correm o risco de ficar esgotados por uma agricultura intensiva?

    A China é um dos países mais atentos ao problema. Para alimentar uma população de 1,4 mil milhões, com uma dieta que tem vindo a aproximar-se da ocidental, com um aumento do consumo de proteínas animais (as vendas de carne de vaca aumentaram 19.000% numa década, indica um artigo da Bloomberg), o Governo chinês está a comprar terras agrícolas noutras zonas do mundo, nomeadamente em África.

    Até porque, ainda de acordo com a FAO, entre 1997 e 2008, a China perdeu 6,2% da sua terra cultivável para a construção (uma evolução que tentou, entretanto, travar) e cerca de 20% da que lhe resta está altamente contaminada pelo uso excessivo de químicos.

    Grande parte da produção de cereais e grãos no planeta destina-se à alimentação animal, sendo a pecuária uma das principais causas de emissão de gases com efeito de estufa. Além disso, a produção de 1kg de carne de vaca consome de 1500 litros de água — e dos 263 milhões de toneladas de carne produzidas por ano no mundo, cerca de 20% é desperdiçada.

    A estes números soma-se outro alerta, deixado pelo World Wildlife Fund (WWF): 70% da água doce do planeta é usada para a irrigação de campos agrícolas e a agricultura é a maior causa de desflorestação. Ou seja, o sistema alimentar que temos hoje é “responsável por 60% da perda global de biodiversidade”.

    O mesmo alerta chegou recentemente a Portugal pela voz do director-geral da FAO (Food and Agriculture Organization, das Nações Unidas), o brasileiro José Graziano da Silva, que veio dizer que um dos grandes problemas do sistema alimentar que criámos nas últimas décadas é “a concentração da produção em quatro ou cinco produtos: arroz, milho, soja, batata são 80% do que comemos no mundo”. Não pode ser assim, diz. “Temos 36 mil plantas e animais que fornecem alimentação. Não podemos estar concentrados em cinco.” E conclui: “Hoje quem alimenta o mundo não são os agricultores, são as cadeias da agro-indústria. Temos de mudar isso.”

    PÚBLICO -
    Foto
    Vera Moutinho

    E conseguiremos fazê-lo? Todos somos consumidores. Teoricamente, isso dá-nos algum poder. Mas sabemos usá-lo?

    Quisemos perceber como é que nos alimentamos hoje numa cidade. Essa comida que todos os dias entra, por diversas vias, e se espalha, por mercados, mercearias, super e híper mercados, restaurantes e que, por fim, chega a cada uma das nossas casas, sabemos de onde vem, quem a produz? Que relação temos com o que comemos?

    “Nós, consumidores, temos cada vez menos controlo sobre o sistema alimentar e os produtos que estão na nossa mesa. É isso que queremos?”, pergunta Cecília Delgado, urbanista e investigadora da Universidade Nova de Lisboa. Conversamos com Cecília em frente a uma mesa cheia de frutas e legumes que comprámos num supermercado local — decidimos começar por aí, uma cesta de compras básica semelhante à que cada um de nós leva para casa.

    Temos sobre a mesa um pouco de tudo, vindo de muitos sítios diferentes do mundo: cebolas da Holanda e do Peru, abóbora portuguesa, aipo espanhol, batata francesa, beringela espanhola, cenoura portuguesa (havia a opção de comprar a espanhola, ligeiramente mais barata), morangos espanhóis, melão do Brasil, maçã de três variedades, uma portuguesa, uma italiana, outra francesa, abacate espanhol, uvas da África do Sul e do Chile, tomates de Marrocos e de Espanha, limões também espanhóis, feijão-verde vindo de Marrocos, courgette de Espanha.

    Tivemos alguma preocupação em olhar para os rótulos do que comprámos, em perceber se era nacional ou não, em identificar o que era biológico. O processo dá algum trabalho, claro, tudo demora mais tempo quando temos de ler com atenção rótulos em letras pequenas (embora a origem dos produtos esteja mais visível nas caixas onde eles se encontram). Mas, muitas vezes, não tínhamos alternativas — não estava disponível nenhuma batata ou cebola de produção portuguesa, por exemplo.

    Há muitos consumidores a ter este tipo de preocupações e a fazer escolhas mais conscientes? Tudo indica que são cada vez em maior número, mas o que é que isso implica, exactamente? Como é que podemos saber mais?

    Foram muitas as perguntas com que partimos para esta série de cinco reportagens, inspirada pelo trabalho que está a ser feito pelo Colégio F3 (Food, Farming, Forestry) da Universidade de Lisboa para perceber como se alimenta uma cidade — e que tem sido apresentado num ciclo de seminários mensais sobre Planeamento Alimentar Urbano, no Centro de Informação Urbana de Lisboa. Uma das questões que têm surgido é se o sistema alimentar que temos hoje poderia ser mais racional. Fomos à procura dessa resposta também.

    PÚBLICO -
    Foto
    Cecília Delgado: “Nós, consumidores, temos cada vez menos controlo sobre o sistema alimentar e os produtos que estão na nossa mesa. É isso que queremos?” Vera Moutinho

    “Estamos a viver num cenário de produção em quantidade, que não é feita no sentido de aumentar a resiliência do sistema, mas no sentido de aumentar a sua eficácia”, prossegue Cecília Delgado. “Estamos a comer coisas do mundo global, alimentos com grande pegada ambiental. Supostamente pagamos um contributo para reduzir a pegada quando compramos um bilhete de avião, mas depois, no dia-a-dia, não temos consciência do que estamos a fazer. E se o fizermos correctamente, será que nos conseguiremos alimentar? Tenho algumas dúvidas.”

    Contornar o plástico

    Ricardo e Catarina Medeiros Rodrigues têm dois filhos, a Leonor, de quatro anos, e o Artur, que acabou de nascer, e são um casal de Lisboa que tenta precisamente fazer o que acredita que é o mais correcto. Tem sido um caminho, que começou por razões de saúde e que têm vindo a construir, mas, garante Ricardo, não é tão complicado como pode parecer.

    “Quando a Catarina ficou grávida da Leonor, logo no primeiro mês foram-lhe diagnosticados diabetes gestacional”, conta Ricardo. “Tínhamos dois caminhos: ou tomávamos insulina ou melhorávamos a dieta. Decidimos seguir o plano alimentar da dietista, que era rigoroso e correu muito bem.”

    Catarina fica em casa a tomar conta do bebé e nós vamos com Ricardo e Leonor até à mercearia do bairro, um dos lugares onde se abastecem, a par dos supermercados que vendem a granel e do cabaz da Fruta Feia que recebem.

    “Normalmente não faço compras a correr, venho aqui com tempo, sobretudo para comprar fruta e legumes, que são a base da nossa alimentação”, diz Ricardo, enquanto vai mostrando a Leonor que há uma lata de milho que veio da Alemanha e por isso “andou mais de carro”. “Vamos levar esta que é de Portugal?”

    Neste momento, uma das preocupações essenciais de Ricardo e Catarina é a de evitar tanto quando possível comprar coisas que venham em plástico. “Quando descobri o projecto da Bea Johnson e do movimento Zero Waste, foi muito motivador”, conta Catarina. “Comecei devagarinho, em algumas coisas minhas, pequenas mudanças, substituí o champô, as escovas de dentes. O Ricardo também quis experimentar e lancei o desafio de tentarmos reduzir o plástico noutras coisas da nossa vida.”

    (Segundo dados do Inquérito Alimentar Nacional e de Actividade Física, de 2017 — citados no documento Alimentar o Futuro, da Associação Portuguesa de Nutrição-, 71,2% do material de embalagem usado pelos portugueses é de plástico e apenas 9,4% é de vidro.)

    PÚBLICO -
    Foto
    Cenouras na Quinta do Poial, Sesimbra Vera Moutinho

    Nem sempre as opções são evidentes. “No nosso grupo de amigos, costumamos dizer que cada um de nós escolheu uma luta. Alguns são vegetarianos, ou vegan, há outros que não comem produtos processados, nós somos da luta contra o plástico. Há produtos que podem ser bons, que são bio e que podiam ser uma alternativa, mas para nós deixam de o ser porque têm uma embalagem.”

    É uma atitude que exige planeamento, admite Ricardo. “Não se pode deixar os produtos irem até ao fim, é preciso planear para ter as coisas em casa.” Na mercearia, tenta informar-se olhando para as fichas dos produtos. “Vale o que vale, porque se pode pôr isto noutra caixa, mas normalmente percebo de onde vêm. Comecei a notar que nestas pequenas mercearias, muitas vezes de chineses ou paquistaneses, há mais produtos portugueses do que nos grandes supermercados.”

    O sazonal é bom

    Outra preocupação da família Medeiros Rodrigues é a da sazonalidade. “Damos sempre prioridade ao que é da estação.” E como é que sabem isso? “Não sabemos de cor”, responde Ricardo, com um sorriso. “Não tivemos essa relação com a terra para sabermos, mas a informação está disponível e temos uma tabela na porta do frigorífico.”

    “Nos produtos da época é tido em conta o tempo de produção de cada alimento”, sublinha, por seu lado, Cecília Delgado. “Se comermos produtos da época, estamos a reduzir a pegada ecológica e a garantir que comemos alimentos nutricionalmente mais interessantes.” A investigadora acredita que o debate sobre a alimentação nas cidades está cada vez mais na ordem do dia. Mas, lembra, “há um papel pedagógico do Estado que deve ser feito e as crianças são, no núcleo familiar, o detonador dessa mudança”.

    Na casa dos Medeiros Rodrigues, Leonor vai com o pai à mercearia e ouve-o fazer perguntas sobre o que está a comprar. Mas será assim com todas as crianças? Cecília Delgado sublinha: “Se eu não souber que não é altura de tomate, vou querer comer tomate. Temos de introduzir a temática do que é sazonal, isso pode ser trabalhado nas cantinas escolares. Mas estarão as nossas crianças preparadas para comer feijão-verde só na época do feijão-verde?”

    A Câmara Municipal de Lisboa tem um programa chamado Vamos ao Mercado, através do qual alunos do ensino básico das escolas da capital visitam o Mercado de Alvalade acompanhados por duas nutricionistas, que os levam a conhecer as bancas do peixe, dos legumes, das frutas e, no final, brincam de vendedores e compradores.

    Marline, uma das nutricionistas, aponta para uma banca com frutas exóticas, chamando a atenção das crianças. “As mangas e as papaias vieram de avião ou de barco. Foi assim que chegaram cá. Agora vamos ver frutos portugueses, está bem? No nosso país temos as estações todas certinhas, não é? Consoante a época em que estamos, vamos ter frutos diferentes. Ainda não estamos na estação dos morangos, por isso é que os senhores ainda não têm muitos. Se vierem cá na Primavera, o mercado vai estar cheio de morangos e cerejas.”

    Algumas crianças já chegam aqui com um conhecimento razoável, mas outras não. “Muitos dizem que já comeram peixe e carne, mas quando lhes mostro uma pescada não fazem ideia de que dali vêm os filetes ou as postas”, diz Goretti Lopes, outra das nutricionistas que organizam as visitas. “Quando mostram conhecimento, é bom sinal, significa que têm contacto com os alimentos na cozinha. Não é muito frequente verem o processo de cozinhar, provavelmente porque estão muito ocupados com outras tarefas.” Mas, acrescenta, “não podemos mudar se não tivermos conhecimento, se eu sei que devo ter determinado comportamento, vou fazer uma escolha”.

    Antes de deixarmos o mercado, passamos pela banca de legumes e frutas de Maria de Fátima Soares. Os clientes perguntam-lhe de onde são os produtos? “Sim, sim, é quase tudo nacional na minha mercadoria. Até porque tenho clientes que se eu não tiver as coisas nacionais não levam. Se disser que é espanhol, preferem não levar. Não é que seja mau, também há coisinhas boas, mas pronto, enquanto houver o nosso, os meus clientes preferem o nacional.”

    Também os chefs de cozinha se mostram cada vez mais atentos a estas questões e tentam sensibilizar os seus clientes para temas como a sazonalidade ou a importância de comer produtos de proximidade. Mas, tal como acontece com o Ricardo e a Catarina, também num restaurante isso exige um esforço suplementar.

    PÚBLICO -
    Foto

    Tudo, todos os dias, sempre

    António Galapito, chef do Prado, em Lisboa, explica como faz. “Tudo o que usamos é da estação, a não ser umas cebolas de vez em quando.” E é complicado gerir isso? “Não é tão fácil, mas é mais divertido, pelo menos. Estás fechado naquele círculo do que queres usar. Queres fazer coisas com tomates, mas não podes, o que é que os teus clientes diriam? E para quê usá-los, se não estão bons? É melhor usar brócolos, couves.”

    Muitas vezes não sabe como vai usar o que recebe. Mas é precisamente isso que lhe estimula a criatividade. Nas carnes, por exemplo, tenta comprar animais inteiros. “É mais divertido para a malta aprender coisas. Descobres imensas coisas ao trabalhar assim, e é mais rentável. Por exemplo, hoje vamos ter picanha mas é a única picanha num carregamento de 100 quilos de carne e vamos usá-la esta noite e esta noite apenas.” Amanhã, haverá outros pratos, feitos com outras peças, menos nobres (mas não menos boas), do mesmo animal.

    Mesmo assim tem dificuldades quando quer trabalhar com certas raças autóctones ou com produtos diferentes. Um exemplo: “Batatas. Somos provavelmente a nação que pior trata as batatas. Vais ao supermercado e é batata para cozer, assar ou fritar. Nenhuma batata tem nome ali, apesar de as variedades terem um nome. Não faz sentido.”

    Porque é que não se limita a encomendar os produtos de que precisa a um grande fornecedor? “Um, pela qualidade, que é imbatível. E depois estás a ajudar as pessoas, a mostrar o trabalho delas através do teu.”

    Sazonal, local, biológico. Cada pessoa pode ter uma prioridade diferente. António Galapito coloca o sazonal à frente do local, Ricardo e Catarina preocupam-se com o plástico. “O que muitos estudos indicam é que esta ligação entre as questões do ambiente e as da saúde é a que funciona melhor”, diz Susana Fonseca, da Associação ambientalista Zero. “Quando, em restaurantes da Finlândia, se fez um cálculo sobre a pegada de carbono por refeição, as pessoas escolhiam a que tinha menos carbono por acharem que era também a mais saudável.”

    Uma das propostas feitas pela Associação Zero para que os consumidores possam comprar de forma mais informada foi, por exemplo, a de que estivesse disponível informação mais fidedigna sobre a forma como os animais são criados, para saber se foi num regime intensivo ou não intensivo.

    PÚBLICO -
    Foto

    E o que dizem sobre isto os produtores, os que estão no início desta cadeia que termina no consumidor e nas escolhas que este é, ou não, capaz de fazer? “Há maneiras de se funcionar melhor dentro do que está instituído”, defende Joana Macedo, da Quinta do Poial, um projecto de agricultura biológica em Azeitão, iniciado pela sua mãe, Maria José Macedo. “Acredito que tem de haver mudanças e que o consumidor tem um poder. Acho que falamos do poder de compra de maneira errada. O poder de compra não é o poder que temos para comprar. O comprar é uma escolha. É dar o dinheiro a esta pessoa ou àquela. O problema é que agora queremos tudo, todos os dias e sempre.”

    Uma das pessoas mais envolvidas no debate sobre estas questões é Alfredo Cunhal Sendim, da Herdade do Freixo do Meio, em Montemor-o-Novo. Fomos encontrá-lo na herdade, num dia em que recebia aqueles a que chama co-produtores — trata-se, na realidade, de clientes, compradores, que, neste caso, têm uma relação diferente com o produtor, no âmbito do programa CSA Partilhar as Colheitas.

    Andamos pela herdade, a conhecer o novo galinheiro (Alfredo pede às crianças mais pequenas que ajudem a tirar alguns ovos, o que as deixa encantadas), a apanhar bolotas (“somos dos únicos povos do mundo que temos bolotas doces e somos dos únicos que não comemos as bolotas”, lamenta o produtor, que tem feito um grande trabalho em torno da recuperação da bolota para a alimentação).

    O grupo é composto por algumas pessoas que já conhecem o Freixo do Meio e outras que vêm pela primeira vez. São compradores dos cabazes de produtos biológicos da herdade, mas Alfredo acredita que é preciso ir mais longe. “Com os co-produtores, isto funciona através de um compromisso de parte a parte”, explica. “Os produtores comprometem-se a fazer as coisas de determinada forma e os co-produtores a usar os produtos durante seis meses. Há aqui uma aliança. E o consumidor deixa de estar apenas focado em fazer a melhor escolha na compra, passa a estar também preocupado com a seca no Alentejo.”

    Há um almoço, com hambúrgueres feitos de bolota, uma tarde de convívio e troca de ideias. “Aqui as pessoas podem vir perguntar quanto é que eu ganho, porque é que os alimentos são tão caros, porque é que se faz de uma maneira e não se distribui de outra, quem é que cá trabalha”, continua Alfredo. “A palavra mais importante é ‘responsabilização’.”

    Reconhece que, apesar de termos cada vez mais consciência dos impactos sociais e ambientais da agricultura, “um consumidor em Lisboa tem muita dificuldade em poder actuar consentaneamente com a sua consciência. Pensa: ‘Eu sei disto tudo, mas o que é que posso fazer?’ O que o Freixo do Meio propõe é um caminho”.

    PÚBLICO -
    Foto
    Apanha da bolota na Herdade do Freixo do Meio, Montemor-o-Novo Vera Moutinho

    “O Agostinho da Silva dizia: nós só comemos como sabemos e como podemos. É fundamental não apenas sabermos, mas criarmos plataformas que permitam às pessoas actuar consentaneamente com o que sabem.” Alfredo acredita que o consumidor precisa disso, dessas plataformas de participação. “E o agricultor também precisa dessa aliança, de outra forma não sobrevivemos.”

    “Comprar é um voto”

    A ideia aqui é oferecer uma alternativa a um sistema alimentar industrial, de grande escala e sem rosto, permitindo que se conheça a pessoa que cultiva os legumes com que vamos fazer a sopa. Jaime Ferreira, da associação de agricultura biológica Agrobio, explica porque é que considera isso importante: “Um consumidor mais informado vai consumir alimentos mais seguros para ele, mais saudáveis e que respeitem o ambiente. Nós temos um poder enorme, o de decidir aquilo que de facto consumimos. O agricultor também não sabe quem é o destinatário, aqui na cadeia perdeu-se alguma coisa, é a tal agricultura sem rosto. O consumidor consciente destes problemas deve perceber a origem dos produtos. Não é só dizer que vem da Alemanha, é ter um código e nós vamos à Internet e, se quisermos, vamos até à quinta de onde veio o produto.”

    A consciência da importância dos pequenos agricultores e da agricultura familiar chegou já à FAO. Diz José Graziano da Silva: “Precisamos de recuperar o domínio da alimentação. Saber o que comemos é um problema de educação alimentar, mas também um esforço por comer de forma saudável, comida saudável — mais frutas, mais verduras, mais produtos frescos.”

    Ricardo e Catarina Medeiros Rodrigues estão empenhados nesse esforço: “Se uma empresa me informa que está a mudar as suas práticas, eu também posso mudar os meus hábitos de consumo e voltar a deixar lá o meu dinheiro. É muito questionável comprarmos uma lasanha que custa um euro e meio. Para custar isso, quanto é que a empresa pagou aos trabalhadores? Não sei se tenho coragem de dar uma lasanha que custou um euro e meio aos meus filhos. Temos de questionar muito os nossos alimentos.”

    PÚBLICO -
    Foto
    Ricardo Rodrigues às compras numa mercearia de bairro, com a filha Leonor Vera Moutinho

    E concluem: “Comprar é um voto. Quando compramos um produto a uma empresa, estamos a concordar com as políticas dela, ambientais, sociais, estamos a dizer que queremos mais disto, que queremos que essa empresa continue a fazer o que está a fazer.” Do outro lado da cadeia, em Montemor, Alfredo Sendim acredita no mesmo. Será este um caminho?

  • A lógica dos circuitos curtos

    A distribuição alimentar perdida no seu labirinto

    Alimentação na Cidade II

    A distribuição alimentar perdida no seu labirinto

    Quem produz alimentos em pequena escala tem dificuldade em escoá-los. A solução passa por criar circuitos mais curtos – e, em alguns casos, mais lógicos. Há frescos que vêm do Sul para Lisboa para voltar ao Sul e há camiões que regressam vazios. Mas também já há escolas a fazer compras públicas não só locais como biológicas.

    Mercado Abastecedor da Região de Lisboa (MARL) — é para aqui que, todos os dias, a partir das 18h, se dirigem compradores vindos dos mercados municipais, das mercearias e restaurantes da região de Lisboa, em busca de frutas e legumes.

    Quando passamos pela mercearia ou pelo mercado do nosso bairro para comprar alfaces, tomates, cenouras, agriões, pêras, maçãs, laranjas, o mais provável é que elas tenham vindo do MARL. É este o destino tanto dos pequenos produtores de legumes das zonas em redor de Lisboa como das grandes empresas que trazem hortofrutícolas de outros pontos do país ou até de Espanha (o mercado do peixe funciona separadamente e abre à 01h00). Por isso, começámos por aqui para tentar traçar os circuitos que, hoje, os alimentos percorrem para chegarem até nós — e para perceber se eles são os mais lógicos.

    “No pavilhão A3 temos os pequenos produtores, que são cerca de 340, 350, vindos de toda a zona saloia, que pode ir até às Caldas da Rainha, Peniche, Setúbal”, explica Maria José Tropa, da área de cooperação institucional do MARL. “Depois, aqui onde nos encontramos, temos grandes grossistas, empresas como esta [pára junto a um dos espaços concessionados] que são importadoras e redistribuidoras, compram de muitas origens e abastecem muitos mercados do país.”

    Nas “pedras” — um nome que vem dos tempos em que o mercado central era na Ribeira e o espaço destinado a cada vendedor, um quadrado no chão, era assim chamado — de cada produtor mais pequeno encontram-se, em princípio, frutas e legumes da estação. Já os maiores, que ocupam vários espaços, têm de tudo. “Os consumidores estão habituados a ter uma oferta plena, a ter tudo ao estalar do dedo”, diz Maria José Tropa. “Temos aqui empresas que fornecem os aviões, os barcos, temos produtos gourmet, frutas baby, flores comestíveis, tudo o que é exótico.”

    O grande desafio em Portugal, sublinha a responsável, “é perceber como se podem criar rotas logísticas que sejam eficientes no abastecimento às cidades e que dêem respostas sem aumentar muito a pegada de carbono”. O problema é que nem sempre os circuitos que existem para trazer os produtos até ao MARL ou aos outros mercados abastecedores do país (Algarve, Alentejo e Minho) são os mais lógicos.

    PÚBLICO -
    Foto

    “O melão que vem do Alentejo para aqui é capaz de voltar depois para ser consumido no Alentejo”, explica Maria José Tropa. “As laranjas do Algarve, que são vendidas no Mercado de Évora, vêm do Algarve para o MARL para depois voltarem para Évora. Esse circuito passa sempre por aqui. Claro que fica muito mais caro a um produtor do Algarve mandar um carro para Évora que volta vazio para baixo. Mas se os fluxos forem percebidos, se a informação estiver organizada e centralizada, facilmente depois se podem articular as coisas no terreno.”

    Os consumidores preocupados com a pegada de carbono tentam comprar produtos de proximidade e evitar, por exemplo, levar para casa frutas exóticas que tenham vindo da América do Sul ou da Ásia. Mas é muito mais difícil sabermos exactamente a pegada de produtos que, tendo sido produzidos às portas da nossa cidade, andaram depois a fazer quilómetros pelo país, de cima para baixo, por questões de logística da distribuição.

     

    Um tomate é um tomate?

    Para perceber o quadro global, não podemos limitar-nos ao MARL. Grande parte dos produtos que consumimos, todos os que compramos em supermercado e hipermercados, passam pelos centros de logística da grande distribuição. A Sonae (Continente) tem centros de distribuição na Maia e na Azambuja, o grupo Jerónimo Martins (Pingo Doce) tem três centros no Norte (Vila do Conde e Alfena), no centro (Azambuja e Alcochete) e no Sul (Algoz), para os quais confluem os produtos de mais de 1500 fornecedores (para termos uma ideia da dimensão, em 2017 foram movimentadas mais de 290 milhões de caixas). O Intermarché tem centros em Alcanena e Paços de Ferreira.

    Passemos agora para uma escala mais pequena. Joana Macedo, agricultora biológica da Quinta do Poial, em Azeitão, faz as suas entregas a restaurantes na zona de Lisboa, mas tem pensado bastante no impacto ambiental dessas deslocações. “Em Portugal não temos falta de produção, temos falta de distribuição. Eu tenho a minha própria distribuição, porque é assustador ficar nas mãos de outros. Mas o problema é que não existe uma coisa pensada de modo a que os produtores beneficiem todos. Há carrinhas que vão para o Norte fazer entregas e vêm vazias. Se houvesse um sistema de distribuição bem pensado a ir para as zonas rurais...”

    PÚBLICO -
    Foto
    Pavilhão dos hortofrutícolas no MARL

    Foi precisamente nisso que pensou Daniel Lind, sueco a viver em Portugal e criador do projecto Lettuce Grow. “Viajei por todo o país, fui aos Açores, ao Gerês, ao Algarve e a comida que lá se come é indiscritível. É muito boa. O tomate é totalmente diferente. O que se come directamente do agricultor é um tomate. O que há na loja não sei o que é, mas não lhe chamaria um tomate. E então pensei: porque é que como isto no campo e não em Lisboa?”

    A plataforma que criou ainda não está activa, mas Daniel já pode mostrar como vai funcionar. A ideia é ter uma rede de fornecedores espalhada por todo o país que, usando a Lettuce Grow, possam dizer o que têm disponível, ao mesmo tempo que os compradores (mercearias e lojas locais) sabem onde podem procurar essa informação e fazer as suas encomendas.

    No fundo, trata-se de centralizar muita informação que anda dispersa por inúmeras listas de contactos individuais. A médio prazo, o objectivo é que o Lettuce Grow se torne também uma plataforma de logística, organizando o transporte de produtos de uma forma lógica, criando circuitos que façam sentido e evitem que carrinhas voltem vazias ao ponto de partida.

    “Falei com produtores que me disseram: ‘Os nossos produtos não chegam a Lisboa’”, conta Lind. “E, quando vendem aos supermercados, não são pagos de forma justa. O Governo e as grandes marcas estão focados na exportação. Mas o que temos de fazer é fortalecer o mercado local. A grande maioria dos agricultores em Portugal são de pequena escala, familiares, e não estão a ter lucro como a agro-indústria. Muitos vivem de subsídios europeus e pagam--lhes para não trabalhar.”

    Até agora o trabalho que têm tido é o de ganhar a confiança dos agricultores, que estranham ver um estrangeiro interessado no problema. “Temos capacidade, temos pequenos agricultores. Podíamos estar a comer maravilhosamente em Lisboa. Temos os produtos, mas não estão a chegar às nossas mesas.”

     

    Os pequenos esmagados pelos grandes

    Há, no entanto, quem tente ter esses produtos disponíveis para os seus clientes. É o caso de André Magalhães, que na sua Taberna da Rua das Flores se abastece com vários produtores da região de Lisboa. Mas não foi fácil. “Às vezes as dificuldades são também oportunidades. E foi uma oportunidade para eu descobrir, aprender, explorar e encontrar ainda os últimos focos de produção alimentar no entorno da cidade. Foi muito enriquecedor.”

    Mas, no caminho, encontrou gente desanimada. “A maioria não tem sequer iniciativa para falar do problema que estão a viver e resigna-se. Os pequenos produtores foram ficando encurralados perante uma realidade de distribuição maciça de produtos pelos grandes agentes económicos e pelas grandes superfícies. O que tentamos fazer é estimulá-los para que possam pensar de maneira diferente e acreditarem que pode ser viável fazerem algumas coisas.”

    Há relações que funcionam e outras não, admite André. “Alguns produtores têm um factor de sazonalidade, conseguem ter um retorno económico naquela época, mas depois passam por um vazio sazonal até que possam produzir de novo.” A Taberna respeita essa sazonalidade, mas André gostava de poder “pagar às pessoas de modo a que elas pudessem produzir o ano inteiro”. Não há soluções fáceis. “Uma pessoa que tem couves, rabanetes, alfaces pode não ter massa crítica para ter produtos suficientes ao longo das estações todas, para que o negócio seja viável. Há muitas pessoas que estão em modo de sobrevivência.”

    PÚBLICO -
    Foto
    André Magalhães na Taberna da Rua das Flores

    A nossa conversa é interrompida pela entrada de um fornecedor. “A boa gestão de um restaurante diz que devemos ter o mínimo de fornecedores, mas isso é antinatural relativamente ao que queremos fazer, que é ter o melhor de cada coisa”, explica. “Às vezes dá jeito comprar azeitonas à mesma pessoa que fornece os vegetais, mas não são as melhores azeitonas. Temos de comprar a melhor azeitona aqui, a melhor cenoura acolá, mas é o preço a pagar para termos coisas que se distinguem.”

    Rita Santos, que abriu recentemente em Lisboa a mercearia Comida Independente, sabe bem o trabalho que dá percorrer o país à procura de produtos diferentes. “Fui à procura”, conta. “Lia, pesquisava, metia-me no carro e ia até lá. Foi uma lógica muito orgânica, fazem-se perguntas e as pessoas são generosas e vão passando informação. Alguns destes produtores vendem localmente e têm produções tão pequenas que nós é que perdemos por não conseguirmos lá chegar. A minha preocupação é ver se um bocadinho disso consegue chegar a outras pessoas.”

    Encontrou quem se dedicava a determinada produção há muitos anos, mas também recém-chegados. “O que notas em comum entre elas é que fazem as coisas numa lógica de muita proximidade ao produto, são elas que põem a mão, é natural que exista um cuidado e uma profundidade que depois se nota no produto final, que é muito mais rico e expressivo.”

    Esta relação de proximidade “deixa de existir quando as pessoas passam a consumir em grandes superfícies e num comércio mais organizado”. Mas, garante, há cada vez mais gente interessada em conhecer a origem dos produtos e isso deve-se também ao trabalho de pessoas como André Magalhães. “Hoje há muitos cozinheiros em Lisboa a ter esse discurso e eles ajudam a criar espaço para que estes produtores possam vingar.”

     

    Encurtar distâncias

    Ao comprar directamente aos produtores, que enviam ou vão entregar à loja, Rita está a criar um circuito mais curto (uma aposta que algumas grandes superfícies estão também já a fazer). Outros projectos começaram há muito mais tempo a preocupar-se com esta questão e a tentar aproximar produtores e consumidores. Um dos exemplos mais conhecidos é o do Prove.

    Maria da Visitação Encarnação foi a primeira agricultora a aderir ao Prove no núcleo de Sesimbra. Com o filho produz legumes biológicos na sua propriedade em Aiana de Cima e, quando chegamos, a meio da manhã, o difícil é fazê-la parar para conversar connosco. Tem muito que fazer, percorre a estufa, apanhando uma coisa aqui, outra ali, tem os cabazes para preparar e tem energia para dar e vender.

    PÚBLICO -
    Foto
    Maria da Visitação na quinta em Aiana de Cima, Sesimbra

    A conversa acaba por se centrar na questão da agricultura biológica em Portugal. “Os nossos principais clientes em Lisboa têm todos menos de 30 anos, os da geração da minha mãe acham que isto é uma farsa”, lamenta José, o filho. “Mas há muita gente que tem preocupações com a saúde e que, a partir daí, começa a ter preocupações ambientais. Nós aqui estamos a recuperar sementes que estavam quase extintas e que são autóctones, como as favas-de-água-doce do Algarve. Não produzem muito, mas estão mais adaptadas ao clima — e as alterações climáticas são uma realidade.”

    Mas o que nos traz aqui não é tanto a questão do biológico, é a ideia de se criar circuitos mais curtos — definidos como aqueles que têm nenhum ou, no máximo, um intermediário — e, neste âmbito, a experiência do Prove. Natália Henriques, da Associação de Desenvolvimento Regional da Península de Setúbal (Adrepes), a associação que lançou o programa, explica como tudo começou: “Fizemos um levantamento e percebemos que a agricultura familiar existia e que os agricultores tinham problemas sérios em escoar a produção, ou eram obrigados a vender muito baratinho. Sabiam produzir, mas não comercializar, e o Prove foi uma forma de darmos um balão de oxigénio à agricultura familiar.” Visitação confirma: “Nem pensar, eu não conseguia escoar nada, os supermercados davam muito pouco.”

    Na Fazenda Concórdio, na Moita, Ana Marques enfrentava um problema semelhante. “Em 2008 estávamos com muita dificuldade em escoar os produtos através dos mercados abastecedores”, explica. E não tentaram as grandes superfícies? “Eles querem grandes produções e nós não tínhamos área para isso. Produzíamos demasiado para o mercado do Barreiro e muito pouco para os supermercados. Experimentei com uma cooperativa, mas não resultou e por fim encontrei a Adrepes, que sugeriu que nos juntássemos a outros produtores.”

    Começaram em Setembro de 2009, aproveitando uma festa anual local para apresentar os cabazes. “Ali angariei 20 clientes e na primeira entrega fiz 25 cabazes”, recorda Ana. O Prove levou esta exploração familiar a adaptar-se ao que os clientes procuram. Se anteriormente estava mais centrada em poucos produtos, sobretudo o morango, hoje tem uma variedade muito maior que permite colocar nos cabazes legumes vários para sopa, outros para saladas e frutas, tudo da estação, num total de sete ou oito quilos, a dez euros o cabaz.

    “Se conseguirmos ter a nossa produção e vender directamente ao consumidor, é vantajoso para quem consome e para quem produz”, sublinha Ana. “Quanto mais intermediários existirem, mais encarece o produto.”

    Natália Henriques dá alguns números que mostram o impacto do Prove: “Em 2007 começámos com cinco produtores e chegámos ao final com 60 consumidores. Tínhamos dois núcleos e comercializámos um total de 2600 cabazes, num valor de 23.400 euros. Dez anos depois, em 2017, tínhamos 136 produtores, 3800 consumidores, 96 números em 12 distritos, 152 locais de entrega, 187.200 cabazes entregues e cerca de dois milhões de volume de negócio.”

     

    Seduzir o Estado

    Se esta é uma forma de viabilizar o escoamento de produção de qualidade e de proximidade, vinda de pequenos produtores, outra são as compras públicas, uma política que tem vindo a ser aplicada em vários países — em Portugal, a Estratégia Integrada para a Promoção da Alimentação Saudável já prevê o incentivo de “compras públicas de produtos alimentares a usar cadeias curtas, modos de produção integrada ou biológica” e a elaboração de um guia com “indicações claras” que se destinam a “aproximar o produtor do consumidor, nomeadamente nos serviços alimentares tutelados (...) pelo Estado”.

    Na prática, o Estado, responsável pela alimentação em cantinas escolares, de hospitais e outras instituições públicas, pode substituir o sistema de centrais de compras, nas quais a principal preocupação é o preço — comprando em grandes quantidades consegue-se, naturalmente, preços mais baixos —, por compras a produtores da área da escola ou do hospital, passando assim a ter produtos de época e de proximidade, ao mesmo tempo que se ajuda os pequenos agricultores, desenvolvendo a economia local.

    Em Lisboa há já pelo menos uma experiência desse tipo: sete escolas dos Olivais estão a usar produtos biológicos, de agricultores locais, nas sopas que fazem para as crianças. “Em primeiro lugar temos de garantir a confecção local”, diz Ricardo Robles, vereador do pelouro da Educação e Direitos Sociais da Câmara Municipal de Lisboa. “Os serviços de catering são de menor qualidade e nem sempre vantajosos do ponto de vista financeiro. A primeira constatação é essa: na cantina, a comida nem sempre é de qualidade, nem em quantidade suficiente. Sobretudo na qualidade, a confecção local é imbatível.”

    As experiências que estão a ser feitas pretendem precisamente “criar dinâmica na economia local”. Explica: “É possível comprar pão nos limites da freguesia, do município, assim como os frescos, dinamizar mercados que estão sob pressão das grandes superfícies, ajudar os fornecedores de circuitos curtos, reduzir a pegada ecológica.” E sublinha: “Estamos a perceber que é possível garantir qualidade com este abastecimento local e preços tão competitivos como os das grandes indústrias de catering.”

    PÚBLICO -
    Foto
    Hora do almoço na Escola Básica Sarah Afonso, nos Olivais

    A iniciativa partiu do diálogo entre a CML e a Associação Portuguesa de Agricultura Biológica (Agrobio) e Rute de Jesus, presidente da Junta de Freguesia dos Olivais, aderiu com entusiasmo. “Fomos desafiados pela Agrobio para sermos a entidade-piloto para implementar a agricultura biológica nas nossas escolas. Estivemos durante alguns meses numa negociação não só a nível dos produtos, mas dos custos efectivos do processo. Depois foi agilizar a logística.”

    Antes da entrada em cena da agricultura biológica, a junta já tinha tomado a decisão de prescindir da empresa de catering e assumir a gestão dos refeitórios, em que um dos almoços da semana é totalmente vegetariano. Neste momento, a fase de introdução dos biológicos já começou, com a abóbora e as cebolas para a sopa. “Gradualmente vamos introduzindo outros legumes e o objectivo é que daqui a seis meses consigamos ter 50% de alimentos biológicos”, explica Rute de Jesus.

    Os custos são “ligeiramente superiores”, porque ainda são poucas as escolas envolvidas. Mas se, como se pretende, o projecto for alargado, a escala cresce e isso irá reflectir-se no preço. “Havendo outro tipo de condições para armazenar e fazer o transporte, o que está negociado com a Agrobio é que os preços sejam os mesmos que a junta teria de suportar com outro tipo de fornecimento.”

    Mas este é um investimento que a presidente da junta acredita ser justificado. “É um dispêndio consciente que para nós fica por conta da responsabilidade social.” O que queremos”, prossegue Rute de Jesus, “é servir bem as nossas crianças e passar uma mensagem clara de que é possível consumirmos produtos de produção nacional e ter uma alimentação saudável preservando o ambiente.”

    Jaime Ferreira, da Agrobio, acredita que este é o primeiro passo de um projecto que poderá alargar-se. “O interesse é crescente, mas queremos avançar passo a passo.” E há capacidade de resposta da parte dos agricultores? “Neste momento ainda não, mas no futuro haverá.” A Agrobio está envolvida na organização da entrega dos produtos e no trabalho de sensibilização. “Não basta passarmos a consumir biológico, é preciso perceber porquê. Toda a introdução de produtos sazonais, mas também de alimentos novos exige uma adaptação de quem consome, bem como de quem confecciona.”

    Aspectos houve que foram novidade até para as cozinheiras. Mas existiu, da parte da escola, um enquadramento sobre toda a questão da alimentação que passa também, por exemplo, pela existência de uma horta onde os alunos podem habituar-se a mexer na terra, vêem como crescem os legumes, percebem o que se passa entre esse momento e a sopa que vão comer na cantina.

    Falamos com três destes alunos, Gonçalo Santos, Inês Antunes e Dinis Machado. O que é que fazem na horta? “Há uns dias em que tiramos as ervas, às vezes tiramos a comida.” Sabem como é uma cenoura quando ainda está na terra? “Sim, só se vê, tipo, relva.” E porque é que acham que é importante ter uma alimentação saudável? “Para não ficarmos gordos.” “Para conseguir crescer.” E quais são as coisas mais saudáveis? “Legumes.” “Legumes.” “Legumes.”

    Pelo menos a mensagem parece ter passado — mesmo que depois confessem que o prato favorito é esparguete à bolonhesa e contem que, das comidas do mundo que também se fazem aqui na cantina nos dias temáticos, a que mais sucesso teve foi a feijoada à brasileira.

  • O abastecimento das cidades

    Antes dos comboios e aviões, a comida vinha de burro

    Alimentação na Cidade III

    Os saloios que alimentavam Lisboa

    Há cem anos, os alimentos chegavam à cidade às costas dos burros ou das pessoas. A carne vinha mesmo pelas próprias patas até ao matadouro. Lisboa tinha hortas e cursos de água. Que lições podemos tirar das antigas formas de alimentar uma cidade?

    Tinham alcunhas como Zefa Caroca, Gregório Nabiço, Manel Bombante, Joaquim Pataruca ou Dionísio Batata. Eram os saloios que viviam na periferia de Lisboa, em Loures, Sintra, Mafra, Torres Vedras, trabalhando os terrenos férteis que alimentavam a cidade – e que ainda hoje são zonas de grande produção sobretudo de frutas e legumes.

    De madrugada, entravam na cidade, em carroças, montados em burros ou a pé, carregados de alimentos que vinham vender nas ruas e mercados. Percorriam estradas e ruas até às zonas centrais onde expunham as hortaliças e outros produtos fresquinhos para os compradores de Lisboa.

    Eram tempos em que se via a comida a chegar à cidade. Sabia-se onde tinha sido produzida, por que vias entrara, que caminhos percorrera, quem era o agricultor que, algumas horas antes, a tinha colhido no seu campo. Os animais que se iam transformar em alimento, esses vinham pelas suas próprias patas até ao matadouro. Mas este cenário castiço e meio bucólico já só existe em desenhos ou em fotografias antigas.

    Mariana Sanchez Salvador, investigadora do Dinâmia’CET-IUL, do ISCTE (Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa), e autora de Arquitectura e Comensalidade — uma história da casa através das práticas culinárias, está a trabalhar numa tese de doutoramento precisamente sobre o abastecimento alimentar de Lisboa. Vamos com ela até ao Arquivo Fotográfico Municipal, na Rua da Palma, para olharmos para essas imagens dos finais do século XIX, inícios do século XX.

    PÚBLICO -
    Foto
    Se o grosso dos frescos vinha da periferia, no interior de Lisboa existia também alguma actividade agrícola Vera Moutinho

    É aí que ela nos mostra um número da Ilustração Portuguesa com um texto sobre os saloios: “A Tia Zefa Caroca que lava a nossa roupa na Ribeira do Jamor, o Gregório Nabiço que nos traz o pipo do vinho branco de Colares, o Manuel Bombante que nos vende o pão da Porcalhota, de farinha trigueira, a Maria Rebola que nunca nos falta com os queijinhos frescos, a Elisa Madruga que é certa com o cesto dos ovos de Idanha, o Joaquim Pataruca que não chega para as encomendas com a sua manteiga de Sintra, o Dionísio Batata que nos acarreta a bilha de água de Caneças, são todos netos dos moiros.”

    “‘Saloio’ é uma palavra de origem árabe”, explica Mariana. “Na altura da reconquista da cidade, D. Afonso Henriques permitiu que os mouros continuassem a viver na periferia e a partir da palavra árabe surgiu o termo ‘saloio’ para estes camponeses.” Arquitecta de formação, Mariana interessa-se por perceber como os circuitos de abastecimento marcavam a cidade — e como, em alguns casos, continuam presentes na toponímia.

    Vamos, por isso, até ao Rossio. “Aqui era o epicentro de todo o abastecimento alimentar antes do terramoto. Todas as terças-feiras havia uma feira de produtos agrícolas e não só.” Os saloios e os seus produtos chegavam por quatro vias principais: a chamada Estrada de Andaluzes, hoje Rua das Portas de Santo Antão, a de Arroios, actual Av. Almirante Reis, a de Enxobregas (Xabregas) e a de Alcântara, ao longo do rio.

    “A zona em frente a Santa Apolónia, por exemplo, era conhecida como a Praia dos Algarves porque era aí que chegavam os produtos do Algarve”, continua a investigadora. “E temos na toponímia uma série de pistas deliciosas como Campo das Cebolas ou Terreiro do Trigo.” Quando hoje se fala em encurtar distâncias de abastecimento para produtos frescos, a referência são geralmente os 50 ou os 30 quilómetros, “a distância que uma pessoa ou um animal conseguia percorrer num dia”.

    A cidade foi crescendo e evoluindo e novos mercados foram surgindo. Depois do terramoto de 1755, com o desaparecimento do Hospital de Todos os Santos, o mercado do Rossio passou para a Praça da Figueira — inicialmente a céu aberto e depois, a partir de 1885, com um majestoso edifício em ferro, com quatro cúpulas, três naves e 8000 metros, que ocupava todo o centro da praça, e que foi demolido em 1949.

    Entretanto, na frente ribeirinha também havia alterações, com o mercado da Ribeira Velha, localizado junto à Casa dos Bicos, a transferir-se gradualmente, nos finais do século XIX, para a Ribeira Nova, onde ainda hoje está o Mercado da Ribeira. “Primeiro transferiu-se o peixe, a lota manteve-se muito tempo junto ao rio e o peixe vendia-se depois no mercado.”

    PÚBLICO -
    Foto

    No Arquivo Municipal encontramos muitas imagens das varinas com as canastras de peixe à cabeça e dos vendedores ambulantes de muitos produtos, dos figos secos ao leite (alguns acompanhados pelos animais, que iam ordenhando conforme as necessidades), bolos, etc. Mais tarde, também as frutas e hortaliças se instalaram na Ribeira Nova.

    Quatro pneus vazios

    André Magalhães, um dos sócios da lisboeta Taberna da Rua das Flores, também conhece bem esta história. “Temos de pensar que na cidade, até inícios do século XX, não havia meios de transporte motorizados. As aves, a criação, podiam vir nas carroças, mas os borregos, os cabritos, as vacas, chegavam vivos à cidade e eram dirigidos por pastores.” Tem 51 anos mas ainda se lembra de, quando era criança, ver os saloios entrar na cidade. “Vinham pela Calçada de Carriche com carroças carregadas de vegetais das hortas.”

    Venceslau Rupeta, agricultor de Loures que vende os seus legumes no MARL (Mercado Abastecedor da Região de Lisboa), ainda viveu algo de semelhante. “Antigamente, os produtos iam daqui em carroças”, recorda. Foi com o seu pai que as coisas começaram a mudar. “O meu pai comprou um carro grande e levava os produtos dos vizinhos. Foram logo uns 20 ou 30 que deixaram de ir de carroças. Antes disso, os animais escorregavam muitas vezes ali à entrada da Calçada de Carriche e [se se magoavam] era como ficar com um carro com os quatro pneus vazios. Mas eu disso já não me lembro, só de quando o meu pai já tinha o camião, e às 5h30 da manhã estávamos na Av. 24 de Junho, no célebre Cacau da Ribeira.”

    Mas se o grosso dos frescos vinha da periferia, no interior da cidade existia também alguma actividade agrícola. Diz Mariana: “Hoje falamos muito de agricultura urbana como sendo um fenómeno novo, uma prática contemporânea, mas sempre existiu nas cidades. Basta ver a quantidade de campos que temos, Campo Pequeno, Campo Grande, Campo de Ourique, Campolide, era zonas muito férteis. Os Olivais chamam-se assim porque havia uma grande mancha de olival, em torno de Santos-o-Velho produzia-se azeite.”

    E havia muitas hortas que, para além de serem produtivas, eram também populares espaços de lazer. O Arquivo guarda imagens, por exemplo, da zona em redor do Aqueduto das Águas Livres, a Quinta da Rabicha, que Raimundo de Bulhão Pato descreve assim num dos seus textos: “Na Rabicha, o sumptuoso ‘hotel’, ao ar livre, debaixo de um parreiral, ao pé do tanque, sempre transbordando de água, fornecia as pescadinhas de rabo na boca, ovos duros, queijo saloio, pão de Belas, alface repolhuda, a verdadeira alface lisboeta, que nem a de Roma lhe dá de rosto. Era um banquete. […] Fruta de graça e que fruta! A pera-do-conde, a marquesa, a correia, a de sete-cotovelos, a virgulosa, a colmar. Tudo isso desapareceu, quase completamente.”

    O campo, cada vez mais longe

    A nostalgia de um mundo que insiste em desaparecer — em transformar-se — é uma constante ao longo do tempo. O passado é sempre, de alguma forma, idealizado. Mas o progresso, na forma de carros, comboios e, mais tarde, aviões, trouxe coisas positivas, reduziu distâncias.

    PÚBLICO -
    Foto
    Até inícios do século XX, não havia meios de transporte motorizados para abastecer as cidades Ilustração de Alfredo Roque Gameiro

    Não se pode dizer que produtos vindos de partes longínquas do mundo começaram então a chegar a Lisboa porque, muito antes disso, já chegavam. Os Descobrimentos tornaram a capital um local por onde circulavam as mais exóticas especiarias. Já no século XX, as lojas chiques enchiam-se de produtos sofisticados vindos de Paris. Numa descrição do que eram as montras lisboetas nas semanas que antecediam o Natal, Ramalho Ortigão enumerava: “Caixas de figos do Algarve, bordadas a pita, barrilinhos de azeitonas de Sevilha e latas esmaltadas de sardinhas de Nantes, de corned beef americano, de atum de Marselha e de foie gras de Estrasburgo preenchem o quadro no primeiro plano das montras.”

    Depois do comboio, o avião. Nos anos 40 do século XX já é possível trazer até à cidade, em pouco tempo, produtos de todo o mundo. Já não são os barcos o meio de transporte privilegiado e já não se vê, como no passado, a comida a entrar e a atravessar ruas e avenidas. O abastecimento foi-se tornando menos visível, o campo foi ficando mais distante.

    A arquitecta britânica Carolyn Steel, autora do livro The Hungry City — How Food Shapes Our Lives estuda este fenómeno, que aconteceu em todas as grandes cidades. Quando passou por Lisboa, em 2013, explicou, numa entrevista ao PÚBLICO, que o abastecimento alimentar foi sempre determinante na vida urbana — e, em alguns casos, revelou-se mesmo fatal.

    “Roma literalmente comeu até morrer. A necessidade constante de expandir o império, nomeadamente a conquista do Egipto, tinha como objectivo o abastecimento em cereais. E, de repente, Roma tinha de manter militarmente este país enorme e que ficava longíssimo. O império tornou-se grande de mais.”

    As transformações nas cidades conduziram a uma “quebra da nossa relação com a comida” e a uma desvalorização da agricultura, diz Carolyn nessa entrevista. “Antes dos comboios, as pessoas compreendiam o verdadeiro valor da comida.” Houve um afastamento em relação à Natureza, a terra fértil foi desprezada, as linhas de água foram ignoradas.

    E o que aconteceu em Lisboa? Qual é hoje o cenário da bacia alimentar da cidade? Esse é o trabalho que o Colégio F3 (Food, Farming, Forestry), da Universidade de Lisboa, está a desenvolver. Para que se possam pensar políticas, racionalizar a produção e o transporte dos alimentos, para que se possa garantir a segurança alimentar, é fundamental começar por traçar o retrato. E, para isso, faltam ainda muitos dados.

    Samuel Niza, investigador do Instituto Superior Técnico, é um dos membros do Colégio F3 e tem trabalhado precisamente sobre o conceito de bacia alimentar. Conversámos com ele junto das hortas de Venceslau Rupeta, em Loures, e ouvimos a explicação: “A bacia alimentar é a área que abastece uma cidade em alimentos e é importante conhecê-la para se promover estratégias para o planeamento alimentar urbano.”

    Situação-limite é aquela em que o núcleo urbano está totalmente dependente do exterior, sem produção em redor. Não é, obviamente, o caso de Lisboa, mas isso não significa que não haja vulnerabilidades. “Tivemos esse exemplo há uns anos, com a greve dos camionistas e a falta de abastecimento de leite. Em caso de catástrofe, e tal como os circuitos estão montados hoje, muito dependentes das vias de comunicação, haveria impactos grandes porque dificilmente conseguiríamos fazer chegar os alimentos às cidades.”

    PÚBLICO -
    Foto
    Vendedoras saloias em Lisboa José Artur Leitão Bárcia (1873-1945)

    Aliás, nota Samuel Niza, “tem-se dado recentemente um fenómeno, as lojas que vendem alimentos têm vindo a diminuir muito a sua capacidade de armazenamento”. Isto deve-se ao facto de o espaço custar dinheiro, mas também às pessoas terem voltado a procurar mais alimentos frescos, que se vendem no dia. “As lojas são abastecidas quase diariamente, o que até tem impacto no trânsito da cidade.”

    O cimento em cima da terra

    O estudo do Colégio F3 está ainda no início, mas os investigadores já se aperceberam da dificuldade em obter números concretos relativos à forma como os alimentos circulam. “Não sabemos exactamente como isso se passa. O MARL, por exemplo, recebe alimentos que não são consumidos aqui porque abastece uma região que vai para além da área metropolitana de Lisboa”, explica. “Era importante conhecermos esses percursos para se planear numa lógica de segurança alimentar, garantindo maior auto-suficiência da região, mais eficiência energética, tornando os circuitos mais curtos e potenciando mais o emprego nesta área.”

    Para já, o que se conhece são os grandes números: são produzidas na área metropolitana de Lisboa perto de 700 mil toneladas de alimentos, importam-se 2,6 milhões de toneladas do resto do país e 4,4 milhões do resto do mundo; exportam-se 2,8 milhões de toneladas para o resto do país e 1,4 para o resto do mundo.

    “Lisboa-cidade é muito dependente do exterior”, diz Niza. “Há concelhos profundamente rurais e outros quase totalmente urbanizados e esses são 100% dependentes de abastecimento. E os circuitos não estão a ser geridos, estão a acontecer.” Para além de mais informação poder ajudar a gerir as coisas de forma mais racional, ajudaria também a traçar políticas para aumentar a resiliência também em termos de produção. “Não podemos esquecer que a área metropolitana de Lisboa representa um terço da população do país. Obviamente que não poderíamos produzir tudo aqui mas poderíamos ser mais auto-suficientes se esse sector fosse mais planeado.”

    Fomos com Leonel Fadigas, arquitecto paisagista e também investigador ligado ao projecto do Colégio F3, até ao vale de Negrais, na zona de Sintra, a uma área rural, com a terra dividida em pequenas parcelas, algumas trabalhadas, outras não. “Temos aqui uma zona historicamente muito fértil. Lisboa é o resultado disto. Há solos parecidos com estes, os chamados ‘barros de Lisboa’, que vão de Benfica até Oeiras e que eram as melhores zonas produtoras de trigo do país. Ainda hoje se vê muitos restos de moinhos.”

    PÚBLICO -
    Foto
    Leonel Fadigas: As cidades, que nasceram em sítios com solos férteis, começam a estender-se sobre as zonas agrícolas. Crescem matando o solo que as alimentava.” Vera Moutinho

    É importante ter uma perspectiva histórica. “A ocupação romana aqui é muito antiga e sempre a partir deste potencial de solos muito ricos.” Aponta para o horizonte. “Vemos muitas manchas de terrenos que estão abandonados, que não têm condições para sobreviver. Antigamente, a agricultura de auto-subsistência aguentava isto. Foram sempre zonas de parcelas pequenas, que alimentavam uma família. No Inverno, quando alagava, usavam as parcelas na meia encosta.”

    Em meados do século XX, o mundo rural começa a sofrer grandes transformações. “Em 1960, ainda tínhamos cerca de 40% da população activa na agricultura, em 71 era 27%, neste momento, se calhar, temos 4 ou 5%”, prossegue Fadigas. “Se essa mão-de-obra não ocupa a totalidade dos solos férteis, vemos ter muitos solos abandonados.” Muitas vezes, os terrenos passaram para as mãos de vários herdeiros que não os trabalham, mas também não os vendem. “O problema é que o solo agrícola, em termos de mercado, não vale quase nada”, sobretudo se forem pequenas parcelas, sem possibilidade de juntar a outras.

    A isto soma-se outro factor: “As cidades, que nasceram em sítios com solos férteis, começam a estender-se sobre as zonas agrícolas. Crescem matando o solo que as alimentava.” Leonel Fadigas tem estudado o caso de Sintra e a evolução da construção entre 1981 e 2011. “Admitindo que toda a população de Sintra que cresceu se instalou em casas novas e que se executaram 80% dos alvarás aprovados, chegamos a 2011 com 12 mil fogos a mais do que o crescimento da população.”

    “Ou seja”, conclui o investigador, “temos o território cheio de construção que não vai ter utilidade. O conjunto dos PDM aprovados na primeira geração previam áreas de construção urbana para alojar 34 milhões de pessoas se todos se concretizassem. Nós somos 10 milhões”. O que aconteceu foi que “em muitos casos o único rendimento possível dos solos era a urbanização”.

    E houve ainda outro factor: as políticas agrícolas. “Incentivou-se a não produção. Em Portugal, houve uma fase em que os apoios eram sobretudo para as grandes produções e os cereais. Só há uns 15 anos é que se passou a apoiar mais os hortícolas e os frutícolas.”

    Há, contudo, problemas de organização da produção e comercialização. “Existem picos de produção que o mercado interno não consegue absorver. Quando isso acontece, tem de se armazenar. Mas, à medida que o tempo passa, o espaço no frigorífico vai ficando mais vazio e está-se a pagar para arrefecer ar. Nesse ponto, compensa mais importar frutas ou legumes de outras zonas do mundo, que estão a produzir nessa altura.”

    E o que fazer, então, para aproveitar melhor solos férteis que não estão a ser usados? “Nas áreas de periferia urbana podem ser usados de forma mais próxima, para mercados de bairro, uma oferta de nicho que pode ajudar a criar alguns empregos e a recuperar espaços abandonados. A agricultura tem de se fazer em diferentes escalas. Estamos num caminho novo para encarar o que é a agricultura.”

    As “águas invisíveis”

    Tal como, em muitos casos, nos esquecemos da terra, esquecemo-nos também das águas que a alimentam. Luís Ribeiro, professor do Instituto Superior Técnico e especialista em recursos hídricos, fala das “águas invisíveis” que continuam a existir em Lisboa, apesar de todas as impermeabilizações dos solos e dos encanamentos subterrâneos das antigas ribeiras.

    Leva-nos até ao Parque Botânico do Monteiro-Mor, no Museu do Traje, Lumiar, e mostra a água das minas, que corre no interior das pedras e que, aqui e ali, surge também no exterior. “Há pessoas que pensam que as águas subterrâneas vêm do centro da Terra, mas não há mistério nenhum, são simplesmente águas da chuva. Há uma parte da chuva que escoa superficialmente para os rios, a outra infiltra-se nos solos, sendo que algumas formações são mais ou menos permeáveis e têm maior ou menor capacidade para armazenar água.”

    É por isso que, diz Luís Ribeiro, não faz sentido que todo o debate sobre a água se centre na construção de barragens. “As pessoas ainda não perceberam que nós, no subterrâneo, temos vários Alquevas.” E dá o exemplo da Margem Sul, onde a água que se consome vem do sistema aquífero do distrito de Setúbal. “É tudo água subterrânea, com captações que podem atingir os 200 metros de profundidade, e é uma água óptima para a saúde porque é mais mineralizada por estar em contacto com a rocha.” É “uma loucura”, repete, estar a pensar-se “construir barragens esquecendo as origens naturais”.

    E em Lisboa qual é a situação? “Como qualquer cidade, tem uma enorme pressão urbanística. No passado impermeabilizaram-se áreas que não se deviam ter impermeabilizado e isso vê-se com as cheias. As cidades crescem e não há uma leitura da Natureza.” No caso de Lisboa, “a Av. Almirante Reis e a Av. da República eram duas linhas de água; antes de a cidade existir, essas duas linhas descarregavam para o Tejo, tanto de forma superficial como subterrânea”.

    Depois “começou a impermeabilizar-se, a construir parques de estacionamento, centros comerciais com caves…”. Isso faz com que hoje “a captação de águas subterrâneas esteja a ser mal aproveitada” e estes são recursos que, se não forem utilizados, vão parar ao rio e “perdem-se”.

    PÚBLICO -
    Foto
    "As cidades crescem e não há uma leitura da Natureza.” Vera Moutinho

    Espreitamos por uma abertura na rocha e vemos a água que corre. Trata-se dos mesmos sistemas que ao longo de séculos garantiram que Lisboa era uma zona fértil, onde era fácil produzir alimentos — as muitas hortas que existiam, e ainda sobrevivem nalguns pontos da cidade, são prova disso.

    E porque é que é importante conhecer tudo isto? É Mariana Sanchez Salvador que, no nosso passeio pelo Rossio, responde: “Decidi fazer o meu doutoramento nesta área por causa de um conjunto de preocupações: temos a consciência de que estamos a ocupar o planeta de forma completamente insustentável e estamos a atingir pontos de viragem em termos de poluição, oceanos, redução da biodiversidade. A espécie humana está a ter um impacto inaceitável sobre o planeta. As cidades têm não só que estudar e perceber como é que isso se passou em termos históricos, mas liderar o processo de criar novas estratégias para lidar com isso.”

    O facto de ser arquitecta leva-a a ter um olhar particular sobre estes temas. “Na arquitectura e no urbanismo, as soluções que propomos pretendem durar décadas ou séculos. Muitas vezes não é possível recuperar certas coisas, mas perceber que havia zonas onde não se construía porque tinham um potencial produtivo e isso tinha vantagens em termos ecológicos, de escoamento de águas, de clima e qualidade de vida, pode ajudar-nos a projectar melhor o futuro.”

    Quando se fala em abastecimento alimentar, conclui a investigadora, “não faz sentido pensar para daqui a três anos, é preciso pensar para daqui a 300”. Porque, como dizia o antigo primeiro-ministro britânico Winston Churchill, “quanto mais para trás olharmos, mais para a frente conseguimos ver”.

    PÚBLICO -
    Foto
  • O custo da sustentabilidade

    O que comemos
    tem um custo “escondido”.
    Mas estamos a pagá-lo

    O que comemos tem um custo “escondido”. Mas nós estamos a pagá-lo

    Estamos num mundo em que “as marcas têm mais poder do que os Estados”, diz Pedro Graça, o responsável pela promoção da alimentação saudável em Portugal. A comida é vendida barata (170% abaixo do seu custo real, indicam alguns estudos), mas os consumidores pagam-na por outras vias. Quais são elas?

    De que falamos quando falamos do custo real de um alimento? Se há, por um lado, os custos de produção, há, por outro, os custos ambientais e sociais que lhe estão associados — mas nem uns nem os outros se reflectem no preço que pagamos por ele.

    Comecemos pela saúde. “A má alimentação é a principal responsável por termos anos de vida com doença e esses anos têm um custo”, diz Pedro Graça, responsável pelo Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável, da Direcção-Geral da Saúde. “Podemos perguntar: os custos são assim tão elevados? São. São enormíssimos. Só para termos uma ideia: temos um milhão de diabéticos, perto de três milhões de pessoas com problemas de pressão arterial elevada, mais de metade da população (5,9 milhões) com excesso de peso. Se começarmos a somar, vai quase nos dez milhões.”

    Uma população doente, portanto. E consegue-se calcular quanto custa tratá-la? É muito difícil, reconhece Pedro Graça, porque, apesar de se saber que a alimentação contribui muito para estas doenças, elas devem-se a múltiplos factores, no meio dos quais “é complicado perceber onde reside o custo da obesidade ou da inactividade física”.

    Sabe-se, contudo, que os portugueses comem em média oito gramas de sal por dia quando o recomendado é cinco. “Os três milhões de hipertensos consomem hipertensores. Calcula-se que os custos rondem os 180 milhões de euros. Se somarmos os antidiabéticos, os reguladores de glicemia e uma série de produtos que temos para estas patologias, conclui-se que mais de 70% dos recursos do Serviço Nacional de Saúde (SNS) são alocados a estas doenças.”

    PÚBLICO -
    Foto
    A nível europeu, existe um projecto de cálculo da pegada dos produtos, baseado no ciclo de vida de cada um, mas não é fácil transformá-lo, por enquanto, num sistema de leitura simples para quem vai a um supermercado Vera Moutinho

    Faria, então, sentido que esse custo se reflectisse no preço dos alimentos? Mais uma vez, a questão é complexa. “É difícil o cálculo porque não podemos associar o alimento A à doença B”, explica Pedro Graça.

    O mesmo acontece com os custos ambientais e o cálculo da pegada ecológica de um alimento — que, medindo solos, água e outros recursos utilizados, a absorção dos resíduos provocados e ainda a capacidade da Terra de regenerar os recursos naturais, é bastante mais complexo que o da pegada hídrica, relativa à quantidade de água doce utilizada para a produção dos alimentos, e à pegada de carbono, que mede as emissões de gases com efeito de estufa durante o ciclo de vida de um alimento.

    “Não é, de facto, um processo simples”, concorda Susana Fonseca, da associação Zero, empenhada no desenvolvimento sustentável em Portugal. “Na produção de um alimento, estamos a falar da utilização de muitos recursos, o solo, a água, a energia, os fertilizantes, a maquinaria, as sementes.”

    Existe já, a nível europeu, um projecto de cálculo da pegada dos produtos, baseado no ciclo de vida de cada um, mas não é fácil transformá-lo, por enquanto, num sistema de leitura simples para quem vai a um supermercado comprar um alimento.

    É preciso, para começar, separar o preço da produção do dos custos ambientais. Joana Macedo, agricultora biológica da Quinta do Poial, em Azeitão, é alguém que tem as mãos na terra e sabe detalhar o que lhe custa cultivar cada cenoura ou cada rabanete. Mostra-nos uma minicenoura roxa que acaba de arrancar da terra. “Esta, por exemplo, tem uma semente muito cara. Já está semeada desde Novembro, já levou três mondas, com pessoas que estão aqui nos canteiros a apanhar ervas daninhas. Um canteiro deste tamanho ronda os 25/35 euros só de estrume para cada linha.”

    PÚBLICO -
    Foto
    Joana Macedo, agricultora na Quinta do Poial, em Azeitão Vera Moutinho

    O que a indigna é o facto de “as pessoas não terem a noção real do preço das coisas”. No Poial, trabalham três pessoas a tempo inteiro, a que são pagos os ordenados e a segurança social. “Tudo isto requer mão-de-obra, semear, esperar que cresça, regar, eu aqui gasto no Verão entre 800 e 1000 euros por mês só em electricidade. O preço tem de ir para o produto. Somos capazes de dar dinheiro por um telemóvel com funções que nem vamos usar, ou por roupa de marca, mas, naquilo que vamos comer, achamos que devemos pagar o mais barato.”

    A embalagem e o produto

    Se alguns produtos biológicos são mais caros, isso acontece, segundo Joana Macedo, “porque integram os custos reais”. Jaime Ferreira, presidente da Associação Portuguesa de Agricultura Biológica (Agrobio), sublinha que o biológico nem sempre é mais caro, sobretudo quando compramos produtos nas épocas próprias. “Não é necessariamente mais caro. Falta é conhecimento, informação, faltam técnicos que saibam aconselhar. A formação é deficitária. Os custos mais elevados são na fase inicial, quando se está a aprender e os terrenos também estão a aprender.” O processo pode demorar uns quatro ou cinco anos porque primeiro é preciso “promover a fertilidade do solo, é preciso juntar adubos orgânicos e isso tem custos”, mas ao fim de algum tempo esses custos vão-se tornando menores.

    Susana Fonseca, da Zero, soma ainda à produção agrícola os custos ambientais, que, sublinha, são maiores na agricultura convencional: “Da panóplia de produtos que temos à nossa disposição, o sector agrícola é aquele em que é maior a diferença entre o que pagamos quando compramos um produto e o preço real da produção, com o impacto nos vários ecossistemas. Estudos internacionais indicam que pagamos 170% abaixo daquele que seria o custo real se integrássemos o impacto da agricultura.”

    “O alimento tem um preço”, sublinha Pedro Graça. “O que aconteceu nos últimos 30, 40 anos foi que nos habituámos a pagar pouco pela comida que consumimos. Dados do Instituto Nacional de Estatística indicam que, proporcionalmente, gastamos cada vez menos do nosso orçamento em comida.”

    PÚBLICO -
    Foto
    Pedro Graça: “O que aconteceu nos últimos 30, 40 anos foi que nos habituámos a pagar pouco pela comida que consumimos." Vera Moutinho

    Um dos problemas, argumenta Susana Fonseca, é que “a agricultura é dos sectores mais subsidiados da economia e é por essa via que conseguimos ter produtos baratos, há os que lucram e o país fica contente porque aumentou as exportações, mas de produtos que estão muitas vezes a prejudicar o solo e a água com os químicos e fertilizantes utilizados”.

    A activista defende que era importante “o Ministério da Agricultura ter outra postura, maior proximidade com os agricultores, mais formação no sentido de capacitar quem está no terreno, quem vai produzir os alimentos que consumimos, para ter as ferramentas que lhe permitam usar cada vez menos fitofármacos, menos água, respeitar o solo”. (O P2 pediu para este trabalho uma entrevista com o ministro da Agricultura, mas tal não foi possível.)

    Vivemos “com a falsa percepção de que a comida é barata”, prossegue Pedro Graça. Uma percepção que é reforçada pelos preços que encontramos em muitos produtos nas prateleiras das mercearias ou dos supermercados. Isso explica-se porque muitos alimentos, sobretudo os que são produzidos em escala industrial, conseguem ter efectivamente um custo de produção mais baixo.

    Há um fenómeno perverso neste sistema. Pedro Graça, novamente: “Com a industrialização, é possível adicionar propriedades organolépticas ao produto. Como? Com três ingredientes: açúcar, sal e gordura. E são ingredientes que conseguem também ser conservantes, permitem ter o produto mais tempo na prateleira, estraga-se menos e pode ser mais barato.”

    Entra depois em cena um outro elemento essencial: a publicidade. “Adicionámos coisas nutricionalmente pouco interessantes, estragámos produtos, mas eles valorizaram-se, ganharam margem de lucro para poderem ser publicitados. Então temos produtos que são água com açúcar e que têm uma capacidade de publicidade enorme comparada com uma fruta com açúcar natural. Temos água com açúcar com marca versus maçã sem marca.” Conclusão? “A maioria do que estamos a pagar é publicidade. Às vezes, tenho quase a certeza de que o custo da embalagem é maior do que o do produto que está lá dentro. É muito difícil fugir disto.”

    PÚBLICO -
    Foto
    Para Pedro Graça, “a má alimentação é a principal responsável por termos anos de vida com doença" Vera Moutinho

    Até porque a publicidade surge em todo o lado. “Uma criança está em casa a fazer um jogo didáctico de matemática que tem os botões da mesma cor da marca que patrocinou o jogo e eles vão comprar essa marca sem se aperceber que foram manipulados enquanto estudavam matemática.” Perante isto, deixa uma pergunta: “O que é que podemos fazer num mundo global em que as marcas têm mais poder que o Estado?”

    O “preço escondido”

    Susana Fonseca também identifica claramente alguns dos maiores obstáculos. “A nível europeu, o lobby da agricultura é fortíssimo, não só na cadeia de produção mas na de transformação e na dos produtos usados na agricultura, os fitofarmacêuticos.”

    Um relatório do Sustainable Food Trust (disponível no site desta ONG britânica) sobre o “custo escondido dos alimentos no Reino Unido” conclui que cada consumidor está a pagar duas vezes o que come, tendo o “preço escondido” o mesmo valor que o preço pago.

    Como é que é calculado esse preço invisível? Somando os custos ligados à poluição e perda de biodiversidade, aos serviços de saúde, aos apoios à agricultura e aos bens importados. E como é que os pagamos? Segundo o relatório, através dos seguros de saúde privados, dos impostos ambientais, das taxas sobre a água e dos custos de medidas para mitigar a poluição e o aquecimento global.

    Começam também a surgir, em alguns países, outras formas de pagar, ou compensar, esses custos indirectos. Pedro Graça refere o peso que as doenças ligadas à alimentação têm para o SNS, mas lembra também que os seguros individuais de saúde já incorporam essa lógica dos custos. “Se eu fumo e tenho um risco maior, ou se tenho peso a mais e um risco quantificável no futuro, e se estes são factores que posso evitar”, isso pode reflectir-se no custo do seguro.

    O tema é polémico (até porque há factores genéticos que não podem ser imputados ao estilo de vida), tal como é polémico o da taxação — como se viu recentemente em Portugal com o debate em torno do imposto sobre bebidas açucaradas (aprovado) ou do imposto sobre o sal (que o Governo deixou “cair”).

    Pedro Graça não tem dúvidas sobre as vantagens deste tipo de impostos. “Há uma visão de que o Estado procura aí dividendos económicos.” O facto, diz, é que esse dinheiro que é arrecadado tenderá a ser cada vez menos por um bom motivo: “As empresas que vendem estes produtos não têm interesse em vê-los penalizados e vão criar uma oferta com cada vez com menos açúcar para continuarem a fazer negócio. Daqui a quatro ou cinco anos essas taxas deixam de ter interesse para o Estado mas, entretanto, milhares de toneladas de açúcar desapareceram e provavelmente mudaram-se hábitos alimentares.”

    Esta desejável mudança de hábitos alimentares é algo que se tenta conseguir também através de campanhas de sensibilização, mas esse é um processo lento. “Durante muitos anos, as políticas alimentares para mudar comportamentos basearam-se na ideia de que bastava colocar a responsabilidade nos ombros dos consumidores, informando-os.”

    PÚBLICO -
    Foto
    “Na produção de um alimento estamos a falar da utilização de muitos recursos, o solo, a água, a energia, os fertilizantes, a maquinaria, as sementes”, lembra Susana Fonseca, da associação ambientalista Zero Vera Moutinho

    O que aconteceu foi que a população mais informada absorveu a mensagem e a que tinha menos capacidade económica e menos conhecimento “tornou-se a mais doente”. Hoje, diz Pedro Graça, em Portugal, “os mais pobres são os mais doentes”. Foi a constatação desta realidade, “que não devia acontecer no século XXI”, que levou “a maior parte dos países europeus a introduzir legislação no sentido de modificar os hábitos alimentares.”

    Muita gente continua a irritar-se com isso, considerando que o Estado está a envolver-se em assuntos do foro privado. “Eu creio que a esse nível tem de haver alguma intervenção do Estado.” E defende, como exemplo a esse nível, a obrigatoriedade de haver pontos de água numa universidade ou numa praia — antes tinha-se indignado com o preço que se paga por uma garrafa de água na praia e da “quantidade enormíssima de plástico que fica nos oceanos” — ou de retirar as máquinas de venda de bolos dos hospitais. “Os tais milhões de portugueses estão a ouvir no consultório que não devem comer uma coisa e, mal saem da consulta, o mesmo Estado que paga ao profissional de saúde para lhes dizer aquilo oferece ao cidadão a outra.”

    Acredita, contudo, que “o nicho das pessoas preocupadas” com estas questões está a aumentar. “Acho que o cidadão é um ser político quando come e a indústria alimentar ainda não se apercebeu de que está a reagir muito lentamente a esta noção de que o cidadão começa a protestar através dos alimentos.”

    Ao mesmo tempo, as superfícies comerciais apostam em promoções e preços baixos, lembra Susana Fonseca. “Passam a mensagem de que um quilo de batatas custa menos do que custava há três anos. Esta ideia de termos preços mais baixos do que no ano anterior não se adequa a uma sociedade em que a vida deve melhorar.”

    E o problema não é apenas para quem vive hoje — é para as gerações futuras. “Temos o dever ético de deixar as condições para que as gerações futuras possam viver com qualidade. E é isso que estamos a pôr em causa. Não temos capacidade para destruir o planeta, mas temos a capacidade para destruir as características que este planeta tem para albergar vida. A nossa e a de outras espécies. Isso temos.”

  • As ideias em marcha

Fechar

Como se alimenta uma cidade é uma das grandes questões do nosso tempo.

Em 2050 vamos ser 9 mil milhões de pessoas com quase 70% da população a viver em áreas urbanas. Sabemos quantos alimentos são produzidos à volta das nossas cidades? E como é que as cidades se tornaram não produtivas? Quando custa mudar de paradigma? O que é que as cidades e os seus habitantes estão a fazer para tornar o sistema alimentar mais sustentável? Numa série de cinco reportagens fomos à procura de respostas.

Fechar

Créditos

Reportagem
Alexandra Prado Coelho
Vera Moutinho

Animação Stop Motion
Vera Moutinho
Rui Gaudêncio

Web Design
Miguel Cabral

Música
Noiserv