A arquitecta que olha para as cidades e vê comida

Foto
"A comida é apenas uma porta de entrada para pensarmos numa coisa mais essencial: a vida" Rui Gaudêncio

Se pensarmos como é que uma cidade alimenta todos os dias milhões de pessoas, de onde vem toda aquela comida, a nossa perspectiva da arquitectura (e do mundo) muda, garante Carolyn Steel, a autora do livro Hungry City, que esteve recentemente em Lisboa. Esta forma de olhar o mundo (e as cidades) levou-a a uma pergunta: é mesmo isto que queremos fazer com as nossas vidas?

Quando olha para uma cidade, a arquitecta britânica Carolyn Steel vê comida. Vê como é que a comida entra, como é distribuída, onde é vendida, como é consumida. É capaz de o fazer com Roma antiga, ou com a Lisboa do século XV - ou dos dias de hoje. A autora de Hungry City - How Food Shapes Our Lifes (A Cidade com Fome - Como a Comida Molda as Nossas Vidas) esteve em Lisboa a convite do Teatro Maria Matos para uma conferência integrada no ciclo Transição. Veio falar do "poder transformador da comida". Ou melhor, veio ensinar-nos a olhar para o mundo "através das lentes da comida".

"O que faço quando vou a uma cidade é olhar para o Google Maps e tentar perceber a geografia. A de Lisboa é extraordinária porque tem um porto totalmente protegido e um acesso ao oceano Atlântico. É um caso interessante porque a maioria das cidades não tem um acesso tão favorável ao mar. É claro que desde muito cedo teria de ser um entreposto comercial para a comida", diz, entusiasmada.

Os produtos chegavam nos barcos e eram despejados ao longo da frente ribeirinha, onde existiam os grandes mercados - o do peixe, o dos legumes. "Lisboa organizou-se ao longo da costa e faz sentido que todos os espaços-chave, dos armazéns de grão ao Terreiro do Paço, sejam aí." Mas claro que isto era no passado, quando o abastecimento das cidades era feito por mar, e tudo se organizava em torno desse objectivo.

Nesses tempos, a comida era uma coisa muito visível - todos viam como ela entrava na cidade, sendo que, no caso dos animais, estes chegavam pelos próprios pés. Já nessa altura se discutia se uma cidade deveria ser auto-suficiente, vivendo apenas do que produzia em seu redor, ou se devia depender de comida que vinha, por vezes, de enormes distâncias - um debate que continua na ordem do dia. O que é que aprendemos com tudo isso? "Aprendemos muitas coisas, mas claro que nunca as aprendemos realmente", diz Carolyn Steel, com uma sonora gargalhada. "Roma literalmente comeu até morrer. A necessidade constante de expandir o império, nomeadamente a conquista do Egipto, tinha como objectivo o abastecimento em cereais. E, de repente, Roma tinha de manter militarmente este país enorme e que ficava longíssimo. O império tornou-se grande de mais."

Paris tinha outros problemas. "Cidades como Paris, que não estavam num rio navegável, tinham crescentes dificuldades em alimentar-se. Temos de compreender a Revolução Francesa nesse contexto. Quando as colheitas falhavam, não havia forma de trazer comida para a cidade."

Hoje podemos estar a cometer erros semelhantes com as nossas cidades. "Não há nenhum reconhecimento aparente de que existe um tamanho a partir do qual uma cidade não pode continuar a crescer." No fundo, resume, a comida é apenas uma porta de entrada para pensarmos uma coisa mais essencial: a vida.

Como é que queremos viver? Esta tornou-se a pergunta fundamental para Carolyn Steel. Arquitecta de formação, sempre soube que o que lhe interessava "não era necessariamente os edifícios". Mas, conta entre gargalhadas bem-dispostas, foram precisos 20 anos para perceber o que era. "Foi uma agonia." A certa altura, estava a ensinar na London School of Economics e conheceu um colega com o qual pensou escrever um livro sobre cidades. E foi subitamente, como se tivesse sido atingida por um raio, que, durante uma conversa com esse colega, percebeu o que depois lhe pareceu óbvio. "Lembro-me de estar sentada e pensar "ó meu deus, e se tentássemos descrever uma cidade através da comida?" Foi uma revelação total, e quase lhe disse "bem, tenho de me ir embora agora". Corri para a biblioteca e procurei "comida" no índex de assuntos. Isso para mim mudou tudo."

Ao longo do tempo, à medida que ia investigando e escrevendo Hungry City, foi-se apercebendo de que estas lentes para ver o mundo através da comida a estavam a levar para a tal pergunta: como é que queremos viver? "Não se pode falar de comida sem se falar praticamente de tudo o resto na vida. Por isso, o mais fácil é dizer que estamos a falar da vida. A partir do momento em que percebemos isso, a questão deixa de ser como é que nos alimentamos e passa a ser como é que queremos viver, quais são os nossos valores, para que serve a sociedade, como é que nos organizamos? Hoje olho para a sociedade e penso: ninguém questiona o sentido da vida. As pessoas não estão conscientes de que o que estamos a fazer é uma experiência sobre como viver."

Vamos então à questão: o que é uma boa vida? "Mudarmo-nos todos para um sítio chamado Xangai ou Lagos à procura de "oportunidades" e de "empregos" é uma coisa estranha. Achamos que uma vida boa é ser um vendedor de electrodomésticos, sentado um escritório horrível a telefonar às pessoas durante todo o dia para lhes perguntar se querem comprar um novo aspirador e para que elas lhe desliguem o telefone na cara 20 vezes por dia." Por que é que valorizamos esse estilo de vida e desvalorizamos o trabalho na agricultura?, questiona-se a arquitecta.

"Sou totalmente a favor de as pessoas escolherem o tipo de vida que querem ter", diz. "Mas o que está a acontecer na China é que o Governo está a acabar com as comunidades rurais e a dizer às pessoas que têm de passar a viver no mundo moderno. Isso parece-me completamente errado."

Esta desvalorização da agricultura acontece em parte porque, a certa altura da História, quebrámos a nossa relação com a comida - e, portanto, com a Natureza. Nas cidades, explica Carolyn Steel, isso torna-se visível com o aparecimento dos comboios. "Perdemos o controlo com a industrialização. Antes dos comboios, as pessoas compreendiam o verdadeiro valor da comida. Em média cada uma gastava 50% do seu rendimento em comida - e isso correspondia, possivelmente, ao real valor desta. Com os comboios, as cidades, que eram limitadas pela geografia, deixaram de o ser."

Passou a ser possível transportar cereais a longuíssimas distâncias, a industrialização da agricultura fez com que se pudessem produzir cereais em enormes quantidades, e os homens, "não sabendo o que fazer com eles, começaram a dá-los aos animais". Surgiu um "desejo de carne barata" e os novos meios de produção permitiram dar-lhe resposta. Mas há algo de perverso nisto: é muito mais caro alimentar a humanidade a carne criada a cereais do que alimentá-la parcialmente a cereais e a carne criada em pastagens.

Carolyn Steel explica: "A carne tem um papel muito importante na cadeia alimentar, mas uma vaca deve ser alimentada a erva. Nós não podemos comer erva e uma vaca pode, por isso é uma linda relação para nós - e para a vaca, até perto do fim. A verdade é que as vacas não existiriam se não as comêssemos. O que não resulta é alimentá-las com comida que nós poderíamos comer porque é preciso dez vezes mais cereais para nos alimentarmos dessa forma."

É por isso que, perante os alertas de que vai ser necessário muito mais comida do que a que produzimos actualmente para alimentar o mundo em 2050, Steel reage: "Em vez de dizer que precisamos de produzir mais comida, não deveríamos olhar para a forma como estamos a comer?" Alimentamo-nos, continua, de acordo com o "paradigma industrial, enchendo o solo com fertilizantes, arrancando as florestas, entrando com as máquinas, e todos os gráficos de produtividade vão assim [faz um sinal de descida, com a mão]".

A forma como se tem usado a terra fértil é totalmente errada. "É o equivalente a construirmos uma cidade e, quando ela começa a ficar gasta, abandoná-la e construirmos outra ao lado. É isso que estamos a fazer com a agricultura. Em 20 anos reduz-se o solo a uma espécie de pó seco, sem nutrientes. O nosso problema é não compreendermos o solo. Esse é que é o grande horizonte por explorar. São milhões de micróbios a trabalhar no solo, criando os nossos nutrientes. E nós não fazemos ideia do que se passa ali, e não conseguimos replicá-lo."

Devíamos estar a fazer outro tipo de perguntas a quem fala em aumentar a produção de alimentos. "Não pensam qual será a colheita que tiraremos dos campos quando o petróleo tiver um preço incalculável? Não pensam que talvez fosse boa ideia não destruir o solo? Que seria melhor trabalhar para o conservar? É exactamente o tipo de pensamento que havia na Ilha da Páscoa antes de se ter cortado a última árvore."

A origem desta forma de pensar - na verdade, de pensar o mundo - está, segundo Steel, no Iluminismo. "Tudo começou aí, com a ideia de que podíamos controlar a Natureza. Antes trabalhávamos com ela e, embora sempre tivesse existido um desejo de a controlar, as pessoas acreditavam num deus, havia algo que estava fora do controlo delas. Depois, tornámo-nos deuses e acreditámos que poderíamos libertar-nos de tudo desenhando novas tecnologias."

Conseguimos a carne barata com que sonhámos. Mas a que custo? "A comida industrial não incorpora os seus reais custos, os da diabetes, da obesidade, da destruição da floresta. Se o fizesse, há quem tenha calculado que um hambúrguer custaria 200 dólares e não dois. Mas estamos tão desesperados por comer alimentos que o planeta inteiro não consegue produzir que já estamos a avançar pelo caminho da carne artificial. O que é isso? Quando há tanta comida fantástica que se consegue apenas deitando uma semente à terra e esperando que cresça. Não é estranho? É como um filme de ficção científica."

E no meio de tudo isto desperdiçamos grande percentagem dos nossos alimentos e ingerimos calorias a mais. "A indústria está a tentar alimentar-nos à força. Estão disponíveis por dia 3600 calorias por cada português. Se comêssemos isso, não caberíamos nas portas. Mas quem faz essa comida quer que a comamos, porque senão perde dinheiro. Por isso dizem-nos: "Sim, pode comer a quantidade que quiser, sim, açúcar, gorduras e álcool, claro que sim." Vim para aqui de avião, e tinha três opções de bebidas à escolha: água, sumo ou Coca-Cola. Esta é uma necessidade humana natural? É como se fosse um direito humano básico ter sempre uma Coca-Cola à disposição."

Qual é, então, a alternativa? "Para que a escolha de uma vida rural, dedicada à agricultura, seja vista como válida, temos de valorizar a comida, devolver infra-estruturas aos campos, abrir os mercados locais, os matadouros e dizer que valorizamos o facto de aquelas pessoas estarem a fazer comida para nós e que gostávamos que continuassem."

Vamos fazer o exercício de olhar com as lentes da comida para o que temos à volta. Para se aproximar da cultura alimentar de cada país, a McDonald"s começou a servir comida local - bifanas em Portugal, por exemplo. "Mas, se compararmos uma bifana num café local e uma na McDonald"s e virmos o que representam, percebemos que uma é feita por uma família local, que dirige o seu negócio há muitos anos, que conhece as pessoas que ali moram, cujos filhos vão à escola local, conhecem o produtor. É o equivalente social a um solo rico. A McDonald"s é uma empresa que está a atacar agressivamente todas as culturas alimentares do mundo."

Muito do que é a nossa relação com a comida hoje vem da América. Mas muito do que se está a fazer para resistir a isso vem também de lá, sublinha Steel. E se queremos bons exemplos de recuperação de mercados locais, de produtores biológicos, de aproximação entre a cidade e o campo, então temos de olhar com atenção para o que se está a passar na América.

Voltando à necessidade de alimentar um mundo em crescimento: não podemos esperar que o futuro passe por continuarmos a comer mais do que precisamos, a desperdiçar muito do que temos e a pagar ridiculamente pouco por tudo isso. "Não me venham dizer que o sistema de produção alimentar tem de descer ao ponto de ser tudo muito barato porque as pessoas não têm dinheiro. Devia ser ao contrário: se há um problema social, temos de o resolver, usando os impostos, para conseguirmos que as pessoas tenham dinheiro para comer sem ser necessário que a comida seja tão extraordinariamente barata."

O problema, concluiu Steel, é que "continuamos a ver as coisas ao contrário e a pensar que a questão é a comida; a questão não é a comida, é a vida" e o que queremos fazer dela. E para isso seria bom recordarmos "as lições de Roma, Paris e de muitas outras cidades e civilizações famosas, que se tornaram muito poderosas e no fim colapsaram". Olhem para o mundo através da comida, desafia Carolyn Steel, e perceberão como esta molda as nossas vidas muito mais do que imaginamos.