Estrela Novais (1953-2024): actriz no palco e no ecrã, lutadora nos bastidores

Co-fundadora da companhia de teatro Seiva Trupe, viria a trocar os palcos pelas telenovelas, de que se tornou um dos rostos mais assíduos. Completaria 71 anos no próximo dia 13.

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Estrela Novais formou-se nos palcos antes de se fixar no pequeno ecrã DR
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A sua morte foi anunciada esta manhã no Facebook pela Companhia de Teatro Seiva Trupe, aventura de que foi co-fundadora juntamente com António Reis e Júlio Cardoso. Estrela Novais, que se construiu como actriz no teatro, ainda antes do 25 de Abril, e depois se tornou presença familiar nas telenovelas portuguesas, faleceu durante a madrugada, a poucos dias de celebrar 71 anos, que completaria na próxima quarta-feira.

A notícia sobressaltou colegas e amigos da actriz. Júlio Gago, ex-director do Teatro Experimental do Porto (TEP), a companhia onde Estrela Novais se estreou como profissional, foi surpreendido pelo telefonema do PÚBLICO. Sabia que a actriz estava doente mas sem mais detalhes.

“Não sei bem o que dizer, fui apanhado de surpresa”, diz Júlio Gago, antes de recordar a passagem de Estrela Novais pelo TEP, na peça Bodas de Sangue, de Federico García Lorca, em 1970, tinha a actriz apenas 17 anos. “Era uma profissional impecável e tinha uma relação bastante próxima com o TEP”, acrescenta, sublinhando a sua presença, como professora, em várias oficinas e aulas de teatro da companhia, no início dos anos 2000. “Digo com toda a franqueza que estava para lhe ligar”, lamenta.

O ex-director da histórica companhia fundada por António Pedro conta que a actriz se afastou para criar o seu próprio projecto, a Seiva Trupe, a 11 de Setembro de 1973, que viria a constituir um marco do teatro feito no Porto. Era a única “sociedade artística” profissional da altura, juntamente com o TEP, com actividade contínua, de terça a domingo, e salas cheias.

O actor Mário Moutinho, outro veterano do teatro portuense, também recebeu a notícia da morte de Estrela Novais com pesar. Acompanhou-a quando a actriz ainda fazia teatro amador, com o Grupo dos Modestos. A sua prestação em peças como Histórias Para Serem Contadas e A Casa de Bernarda Alba convenceram-no do seu talento e veio a fazer amizade com a actriz na altura da fundação da Seiva Trupe. Depois, a vida de Estrela Novais dividiu-se entre Porto e Lisboa, onde acabava por passar mais tempo devido aos trabalhos que começou a fazer com regularidade em televisão.

Mário Moutinho nunca conseguiu contracenar com a actriz em palco, mas trabalharam lado a lado na direcção do FITEI – Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica e numa telenovela da TVI. A sua força de vontade é das características que recorda com maior carinho: “Era uma grande lutadora. Procurava sempre conseguir que as actividades em que se envolvia tivessem sucesso. Ela foi muito importante, nomeadamente nos primeiros anos da Seiva Trupe; foi muito dinâmica, uma excelente embaixadora da missão que tinha com a companhia e com a cidade. Era também uma pessoa de grande franqueza, de trato muito agradável, muito cordial. Perdeu-se um grande nome do teatro e da ficção nacional, sem dúvida.”

O actor também realça que Estrela Novais era “uma grande lutadora” e uma mulher de causas. Defendeu os direitos dos profissionais das artes “numa altura em que não era nada fácil”. Numa entrevista recente à revista Viva!, sublinhou a necessidade de um maior apoio à Cultura: “A Cultura está muito pouco apoiada no nosso país. Somos nós, os actores, pintores, escultores, bailarinos, etc., os agentes culturais, que lutamos. No Orçamento do Estado a Cultura nem 1% tem. Mesmo depois do 25 de Abril houve uma grande agitação cultural e nós não tínhamos teatros, mas lutámos e persistimos”, dizia.

Nascida a 13 de Março de 1953, no Porto, Estrela Novais soube que queria ser actriz aos 14 anos e não demoraria muito até que o seu caminho se cruzasse com o do TEP. Já depois de fundar a Seiva Trupe, foi bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian, entre 1979 e 1982, tendo estudado encenação em Roma, na Academia Silvio d’Amico. Recebeu vários prémios, destacando-se o de Melhor Actriz de Teatro, em 1984, e o de Melhor Actriz de Cinema, em 1986, pela revista Nova Gente. Foi também professora de Expressão Dramática na Escola D. Pedro V., em Lisboa.

Para além do teatro, a actriz foi presença assídua em telenovelas de diferentes canais televisivos, entre as quais Doce Fugitiva, Belmonte e Para Sempre, da TVI. Teve o seu derradeiro papel na novela Queridos Papás, do mesmo canal, cujo último episódio foi para o ar a 2 de Março, assim cumprindo o desejo de ser "actriz até morrer": "Há 'sempre uma bruxa para fazer', já dizia Elizabeth Taylor", comentava na referida entrevista à Viva!

Ainda não foram divulgados quaisquer detalhes sobre as suas cerimónias fúnebres.

Texto editado por Inês Nadais

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