António Pedro Um experimentador compulsivo

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É um exemplo quase único de polivalência criativa na cultura portuguesa do século XX. Foi encenador, poeta, ficcionista, cronista, crítico de arte, pintor, escultor, ceramista... Uma dispersão que ajuda a explicar a escassez de abordagens globais da sua obra.

Se escolhermos a publicação do livro de poemas "Os Meus 7 Pecados Capitais", em 1926, como o momento que marca o início da actividade criativa de António Pedro (1909-1966), ela estende-se por umas escassas quatro décadas. Nesses 40 anos tiveram de caber o encenador teorizador e divulgador do teatro, cujo trabalho, só por si, bastaria para preencher uma vida, mas também o poeta de "Máquina de Vidro" (1931) e "Protopoema da Serra d'Arga" (1948), que cultivou sucessivos estilos, desde o lirismo tradicionalista, passando por experiências pioneiras de poesia visual, até àquilo a que Jorge de Sena chamou "um surrealismo regionalista", o prosador de "Apenas Uma Narrativa", porventura o primeiro romance surrealista da literatura portuguesa, o pintor vanguardista dos anos 30, que assinou manifestos ao lado de Picabia, Kandinsky e Duchamp, ou ainda o efémero escultor de inspiração dadaísta. E seria preciso acrescentar-lhes o dramaturgo, o tradutor, o ceramista, o crítico de arte, o galerista, o jornalista, o cronista da BBC e, cruzando-se com todos eles, o cosmopolita que passou largos períodos no estrangeiro, vivendo em três continentes.

Esta deambulação vertiginosa pelas mais diversas disciplinas artísticas ajuda a explicar a falta de abordagens globais da sua obra, ainda que se verifique hoje um renovado interesse pela sua dimensão de encenador e teatrólogo. Fernando Matos de Oliveira compilou em 2001 os seus escritos sobre teatro e Teresa André publicou já este ano o livro "António Pedro e o Teatro em Portugal", no qual destaca o "Pequeno Tratado de Encenação" (1962), ainda hoje uma obra de referência.

O tempo das vanguardas

António Pedro nasceu a 9 de Dezembro de 1909 em Cabo Verde, numa família com ascendência minhota e irlandesa. Num texto autobiográfico de 1955, afirma: "Esta metade galaico-minhota e irlando-galesa do meu sangue fez-me gostar de gaitas de foles, de instrumentos de percussão e da conquista do impossível. Como meus tetravós celtas, se eu pudesse, atiraria setas ao sol. Minha família, no entanto, é de gente burguesa e bem-pensante". À infância em África seguem-se estudos liceais na Galiza, num colégio jesuíta. Em 1926 vai para Coimbra, completar o liceu, e ali publica o seu primeiro livro de poemas. Inscreve-se depois na Faculdade de Direito de Lisboa, que abandona em 1928, regressando a Cabo Verde. Os seus dois metros de altura altura tinham-no livrado do serviço militar.

Editara, entretanto, "Ledo Encanto" e "Distância", que mais tarde atribuirá à "adolescência dum poeta que encontrava na musicalidade das palavras a correspondência exterior da sua paz dolente". Mas esse ser satisfeito com as belezas simples da vida está prestes a dar lugar ao experimentador compulsivo de todas as vanguardas, incluindo a vanguarda política que fascinou muitos intelectuais na época: o fascismo. Em 1931 dirige com Dutra Faria, um dos fundadores do nacional-sindicalismo português, o semanário "Acção Nacional". Chefia depois a redacção do vespertino "Revolução", enquanto cria, em Lisboa, a UP, possivelmente a primeira galeria de arte moderna do país. Militante do Movimento Nacional Socialista de Rolão Preto, entra em colisão com o recém-criado Estado Novo e parte, no Outono de 1934, para Paris, onde mergulha nos fervilhantes meios intelectuais daquele que era, então, o incontestado centro da vanguarda artística europeia. Nesse seu ano parisiense, aventura-se na escultura com "Aparelho Físico de Meditação", associa-se ao Manifesto Dimensionista e publica os poemas visuais de "15 Poèmes au Hasard". De regresso a Lisboa, em 1935, organiza na UP a primeira exposição de Vieira da Silva.

O homem do teatro

Nesses últimos anos antes da guerra, começa a interessar-se mais intensamente pelo teatro, projectando mesmo a criação, em Lisboa, de uma Companhia de Teatro Diferente, que não chega a avançar. Em 1942, regressado do Brasil, desdobra-se: publica "Apenas Uma Narrativa", expõe, funda a revista "Variante" e assume a chefia de redacção do "Diário Popular". Mas não tarda a partir de novo, desta vez para Londres, onde se relaciona com os surrealistas ingleses e trabalha para a BBC. Já então rendido às virtudes da democracia britânica, as suas célebres crónicas de segunda-feira irritam o regime salazarista e custam-lhe uma passagem pela prisão quando regressa a Portugal, em 1945.

É um dos fundadores, em 1947, do Grupo Surrealista de Lisboa, que em breve se dividirá com a saída de Mário Cesariny. Embora continue a publicar poesia - o "Protopoema da Serra d'Arga" sai em 1948 - e a escrever crítica de arte, a sua principal ocupação, a partir do final dos anos 40, será o teatro. Gaspar Simões chamou-lhe "o mais completo homem de teatro" da época em Portugal.

Após ter dirigido várias companhias em Lisboa, desilude-se com os múltiplos entraves aos seus esforços para construir um projecto teatral consistente e retira-se para Moledo, onde se dedica à cerâmica, a última das suas vocações. Mas esta "reforma antecipada" não durará muito. Alexandre Babo e Eugénio de Andrade convencem-no a assumir a direcção artística do recém-criado Círculo de Cultura Teatral - Teatro Experimental do Porto. Nos oito anos que permanecerá à frente do TEP, de 1953 a 1961, irá transformá-lo numa experiência sem precedentes no teatro português. É esse o António Pedro de quem ainda muitos se lembram: o homem do teatro. Um encenador revolucionário, mas dotado de uma sólida preparação teórica e animado por preocupações pedagógicas. Afinal, de todas as personagens que encarnou, a menos compatível com a figura do artista "bigger than life", inspirado mas diletante, à qual sempre foi associado.