7 dias, 7 fugas: entre cinzas e renascer, há música, voltam museus e esplanadas

Depois dos Judas queimados, sai música da Torre dos Clérigos, faz-se a festa em museus, desenha-se Portugal por etapas e Estarreja põe a natureza à conversa. Pelo meio, há petiscos de Seia e uma caneca cheia de Ávinho.

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Pormenor do cartaz da ObservaRia 2021 Ricardo Lourenço
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Queima do Judas em Vila do Conde (arquivo), este ano realizada online DR
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Do órgão de tubos da Torre dos Clérigos sai música para a Páscoa MANUEL ROBERTO
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O Mosteiro de Santa Clara-a-Velha reabre com actividades ADRIANO MIRANDA
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O queijo da serra é estrela na feira online de Seia Rui Gaudêncio
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Ávinho - Festa do Vinho e das Adegas está, este ano, nas plataformas digitais Câmara Municipal da Azambuja
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Sábado, 3: Traidor às fogueiras, à distância

Na véspera da Páscoa, um ritual costuma arder entre dois fogos, o religioso e o pagão, um pouco por todo o país: a queima da imagem de Judas Iscariotes para purificação das almas e das terras. Este ano, o calor das chamas não se sente presencialmente, mas a tradição cumpre-se, com adaptações. Vila do Conde emite neste sábado, à meia-noite, nas plataformas digitais (Youtube, Facebook e Instagram), a Queima e Leitura do Testemunho de Judas, performance da Nuvem Voadora cujo texto contou com a participação da população. Durante o dia, também nas redes, é apresentada uma radionovela satírica resultante da colaboração entre colectividades e artistas do concelho – uma novidade desta 16.ª edição. A comunidade foi ainda chamada a criar (e partilhar) a sua visão do ritual e a colocá-la no quintal, na varanda ou no terraço, e desafiada a colocar à janela flores-cataventos feitas em família, para enfeitar o momento e reforçar a esperança de renovação que ele representa. Tondela, onde desde 1996 a tradição se eleva ao patamar de um grande espectáculo de teatro de rua, aposta no simbolismo da apresentação em streaming de uma Queima e Rebentamento do Não Judas, em que o julgamento desse “símbolo de todos os males” tem o contributo de todos os que responderam ao desafio da Acert! de dizer “de que foi culpado o Judas este ano”. Edição digital tem também a versão de Vila Nova de Cerveira, mas na forma de um filme original, transmitido às 23h30 no Facebook da autarquia e das Comédias do Minho, que costumam produzir o evento. Descrito como “um poema visual e sonoro” que “explora uma relação intensa com a paisagem de Cerveira, onde o território surge como o elo entre artistas, comunidades e público”, Judas, Judas, Judas resulta da união de esforços de grupos de teatro e música da zona. Já Palmela projecta para 2022 o regresso ao convívio no centro histórico e põe em marcha três iniciativas para o substituir: os testamentos que, num ano normal, seriam lidos pelas ruas, chegam à população através de um jornal de grupos de teatro e associações locais; é distribuído um kit de ilustrações temático para montar em casa; e, das redes sociais da autarquia (YouTube e Facebook), vem o convite a assistir a vídeos que recordam edições anteriores.

Domingo, 4: Páscoa num órgão de tubos

De um ex-líbris do Porto chegam ecos de uma celebração da Páscoa com música ao vivo, para escutar online, como manda a cartilha actual. Às 16h, Rui Soares abeira-se do órgão de tubos setecentista da Torre dos Clérigos para tocar peças de quatro compositores do barroco: o francês Marc-Antoine Charpentier, o alemão George Frideric Handel, o italiano Tomaso Albinoni e o inglês Jeremiah Clark. O saxofonista Henk van Twillert junta-se-lhe numa participação especial. É A Ressurreição, o culminar de um ciclo de três concertos gratuitos, iniciado na quinta-feira com Paixão e Crucificação e continuado na Sexta-feira Santa com Túmulo e Silêncio (estes, às 21h30). Mais informações aqui.

Segunda, 5: O regresso à esplanada e festa com arte e de mãos na massa

É dia de festa para museus, monumentos e galerias, que a partir desta segunda-feira podem reabrir ao público. E é festa que a Direcção Regional de Cultura do Centro anuncia para o regresso ao Museu José Malhoa e ao Museu da Cerâmica, nas Caldas da Rainha, e ao Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, em Coimbra – de tal forma que os visitantes, além de não pagarem entrada, recebem todos uma prenda. Os equipamentos sugerem exposições, visitas, oficinas e outras actividades, com todas as normas de segurança em prática e com horário alargado até às 19h. O Centro Interpretativo do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha serve Gastronomia e Religião de Rosário Pinheiro numa exposição alimentada por “passagens bíblicas, crenças e rituais, quadras e ditados, tudo aquilo que nos veio parar ao prato, sem origem certa, mas que comemos sem pestanejar”, põe em marcha uma visita comentada que é Remédio Santo e ainda dá lições de Botica Monástica. O Museu José Malhoa convida a percorrer o espaço à descoberta de curiosidades sobre as obras e abre a exposição temporária  Promenade au Désert , de Pedro Valdez Cardoso. O renovado Museu da Cerâmica exibe peças de Maria Luísa Fragoso e convoca o público a olhar mais de perto A Flora na Cerâmica do Museu numa visita-oficina que termina com as mãos na massa (ou melhor, em barro ou gesso). O programa completo está disponível aqui.

Junte aos museus, o regresso à sua esplanada: a partir de segunda, reabrem as áreas ao ar livre de cafés, pastelarias, restaurantes... Há restrições, mas, contida, já poderemos voltar à arte de relaxar na esplanada. Também na segunda terminam as limitações de circulação entre concelhos. Veja o resumo do que muda na segunda-feira aqui.

Terça, 6: Estrela à mesa

Para os entusiastas do queijo da Serra da Estrela, fica o alerta: está a entrar nos últimos dias a Feira do Queijo de Seia. A 44.ª edição foi montada online a 13 de Fevereiro, na plataforma DOTT, e tinha fecho previsto para o final desse mês, mas acabou por ser prolongada até ao próximo dia 13 de Abril. O cardápio está alinhado para manter viva a iniciativa, apoiar os produtores locais e, de caminho, levar os sabores da serra às mesas de todo o país – com a vantagem do envio gratuito para qualquer ponto do continente e das ilhas. Queijos amanteigados, curados e barrados são estrelas da lista, mas vale a pena arranjar espaço na despensa para albergar outras iguarias da feira: enchidos serranos, vinho, licores, mel de urze, broa, biscoitos, queijadas, bolo negro de Loriga, etc.

Quarta, 7: Traços de Portugal

Juntem-se 20 sketchers de Portugal, Espanha, Itália, França, Reino Unido, Suécia e Egipto a 11 escritores de língua portuguesa e está alinhavada a receita para a SketchTour Portugal Reload. O projecto do colectivo Urban Sketchers promete “escrever e desenhar” o país com talento, mostrando o que temos de melhor e, ao mesmo tempo, inspirando futuras viagens pelo território. A caravana passará por regiões turísticas, com cenários e paisagens diversas, que servirão de tela às pinceladas e às narrativas dos convidados. Ao serviço do turismo literário estão Mia Couto, José Luís Peixoto, Dulce Maria Cardoso, Afonso Cruz, Gonçalo Cadilhe, Rui Cardoso Martins, Sérgio Godinho, Marcela Costa, Matilde Campilho, Joel Neto e Jacinto Lucas Pires. Do lado dos sketchers alinham nomes como Lapin, Stefano Faravelli, Pedro Loureiro, Ian Fennelly, Alexandra Belo, Simo Capecchi, Paulo Mendes, Rosário Félix, Mário Linhares, Nina Johansson ou Reham Ali. A primeira etapa arranca na Madeira, entre 7 e 12 de Abril. Algarve, Alentejo, Centro, Açores, Porto, Norte e Lisboa são as estações que se seguem. Além dos desenhos, a experiência terá expressões noutras plataformas, como webisodes, documentário, exposição multimédia ou um livro.

Quinta, 8: Estarreja continua a olhar o céu

É altura de celebrar o turismo de natureza e a observação de aves. E não há pandemia que impeça a ObservaRia de continuar a olhar o céu – é só mudar o ângulo. De 8 a 11 de Abril (o primeiro dia, só para escolas), a feira de Estarreja mantém-se na rota de valorização da biodiversidade da ria de Aveiro e do mundo, mas substitui os expositores e as dezenas de actividades ao ar livre pelo investimento em tertúlias e palestras online. O espaço para o pensamento e debate sobre questões ambientais já era, aliás, uma marca importante da sua programação. À ObservaRia deste ano acorre um vasto painel internacional de oradores, como o fotógrafo de natureza e vida selvagem Ricardo Lourenço (autor da imagem do cartaz, que retrata um Alcedo atthis, mais conhecido como guarda-rios), o naturalista e produtor de televisão Stephen Moss, o realizador – e colaborador de David Attenborough – Bertie Gregory, a bióloga e viajante Caroline Van Hemert, o biólogo marinho, cineasta e fotojornalista João Vieira Rodrigues e a dupla Anabela e Alexandre Narciso, do blogue VagaMundos. Workshops e exibição de documentários também fazem parte do programa. Inscrições (gratuitas) e mais informações aqui.

Sexta, 9: Ávinho a encher (virtualmente) a caneca

Noutros tempos, estariam os frequentadores do Ávinho - Festa do Vinho e das Adegas a preparar-se para pegar na típica caneca de barro e ir de porta em porta provar os néctares das adegas privadas de Aveiras de Cima. Este ano, “a festa do vinho mais castiça do país” torna a partilhar a colheita e os segredos do vinho ribatejano, mas em formato digital. É no Facebook , entre 9 e 11 de Abril, que se brinda. O programa contém notas de Fados nas Adegas, vídeos etnográficos dos ranchos do concelho, visitas virtuais a uma exposição de arte urbana dedicada às Etapas do Ciclo da Vinha e do Vinho, um show cooking com o chef Daniel Sequeira, um workshop com o escanção Rodolfo Tristão, o 38.º Concurso de Vinhos e um concerto dos Camisas Negras. A quem assiste no ecrã é lançado um desafio: “tome o seu lugar na sala, dê um passinho de dança em casa, prepare um copo de vinho, agarre numa caneca da Ávinho e nos seus adereços preferidos e junte-se a nós”, partilhando uma fotografia do momento com #ávinhoemcasa a identificar. Tudo à vista de varandas e janelas, nas ruas reais de Aveiras de Cima, enfeitadas pela população sob influência do tema, como manda a tradição.