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Covid-19: Portugal foi dos mais rápidos a fechar-se, mas não será dos últimos a sair à rua

Dia de 19 de Abril, um mês em estado de emergência. A partir de Maio, começa a dissolver-se o confinamento obrigatório em Portugal. O resto da Europa é também um retrato de isolamento, mas os países começam igualmente a abrir-se. Com ritmos diferentes. O PÚBLICO analisou a rapidez de resposta à pandemia em alguns Estados europeus, relacionando a data das medidas aplicadas com o número de casos de mortes e infectados. E mostra como está cada um a planear agora o “desconfinamento”.

Grande Assembléia Nacional da Turquia
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A dura realidade vivida noutros Estados e a chegada tardia do novo coronavírus a Portugal deram tempo ao país para tomar medidas de prevenção, evitando uma subida vertiginosa de novos casos e o colapso do sistema de saúde. Aprendeu-se com o exemplo das medidas tomadas lá fora e, agora, Portugal ficará novamente de olhos postos nos que começam a sair à rua. É preciso cautela, dizem os especialistas, e uma coisa é certa: “Estamos todos a navegar em terrenos novos.”

Passou um mês desde que foi declarado o primeiro estado de emergência em Portugal. Em vigor desde a meia-noite de 19 de Março, determina, desde logo, que as pessoas têm de ficar em casa, saindo apenas em caso de necessidade, como para ir ao supermercado, à farmácia ou para trabalhar. De resto, pela Europa (e pelo mundo), tomaram-se decisões sem precedentes para fazer frente à pandemia de covid-19. Decisões tomadas, contudo, em fases diferentes do surto.

Em Portugal havia apenas três mortes registadas por covid-19 (e 785 casos) quando foi declarado o primeiro estado de emergência. Em Espanha, foi declarada emergência quando o país tinha já 84 mortes e mais de 3000 casos de infecção. No Reino Unido, que tomou medidas mais tardias, o dia em que se fecharam as escolas foi o mesmo em que entraram em vigor “poderes de emergência” — havia 281 mortes e 5683 casos. Em França, eram já 562 mortes e 14 mil casos.

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Portugal foi dos mais rápidos a tomar medidas e a fechar-se em casa, mas tal só foi possível por existir um “tempo de vantagem” que permitiu ver o que acontecia noutras geografias onde o vírus chegara primeiro. “Beneficiámos quando outros países implementaram medidas e vimos os custos de não o fazer”, explica ao PÚBLICO Ricardo Mexia, médico de Saúde Pública do Departamento de Epidemiologia do Instituto Ricardo Jorge. Ainda assim, nem tudo foi um mar de rosas. “Acabámos por ser mais reactivos do que proactivos: houve um conjunto de coisas que foram feitas e são positivas, mas também temos de pensar naquilo que não correu tão bem assim. As questões da Linha SNS24, da linha de apoio ao médico, a dificuldade com os testes. Felizmente são problemas que acabaram por não ganhar a escala registada noutros países”, aponta Mexia.

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A história do vírus SARS-CoV-2 é conhecida: surgiu na China no final de Dezembro e rapidamente se espalhou pelo resto do mundo, perfurando a Europa. Os primeiros casos no continente europeu foram registados em França e a primeira morte foi notificada a 15 de Fevereiro. Desde então, tornou-se o continente mais afectado pela pandemia, com mais de 95 mil mortes e quase um milhão de casos.

Sair, mas com cautela

A doença covid-19 tem gerado pânico não só pelas mortes e pelo potencial que tem de fazer colapsar os sistemas de saúde mas também pelos efeitos na economia — que já se começam a sentir. “Quanto mais se atrasar o regresso à actividade económica, maior será o impacto no nível de vida das pessoas”, explica o economista de saúde Pedro Pita Barros. Como “muito provavelmente” não se pode “manter a economia assim” até ao aparecimento de uma vacina, a pergunta passa a ser: qual a melhor forma de reabrir parcialmente uma economia que esteve confinada até agora?

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Espanha e Itália são os dois países da Europa com mais casos de infecção e mais mortes, mas são também dos primeiros a aliviar as medidas de confinamento. Em Espanha, houve na segunda-feira um regresso parcial ao comércio não essencial como empresas e fábricas e construção; e, para protecção, estão a ser distribuídas máscaras nos transportes públicos. Em Itália, todo o país ficou em quarentena a 9 de Março e a maior parte da economia continuará fechada até 4 de Maio, mas algumas lojas, serviços de lavandaria, fábricas de computadores ou actividades florestais reabriram nesta terça-feira, com a condição de as pessoas terem de usar máscaras.

É ainda difícil saber o que acontecerá com a reabertura parcial nestes países. “Não sabemos verdadeiramente a resposta. Dependerá muito também do comportamento individual e da adaptação que as empresas façam dos locais, métodos e horários de trabalho”, acredita Pedro Pita Barros. “É preciso muita cautela nestas reaberturas, mas acredito que as autoridades italianas e espanholas, que constataram de uma forma dura os riscos deste vírus, terão seguramente pesado os prós e contras de avançar com estas medidas e farão uma monitorização apertada”, concorda Ricardo Mexia. Será preciso tomar decisões acertadas e reagir em tempo real a um novo crescimento.

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Portugal não será dos últimos a sair

Em Portugal, o “terceiro” estado de emergência dura até 2 de Maio e não deverá ser renovado, para que se comece gradualmente a reavivar a actividade económica. No início do próximo mês, o Governo quer reabrir as creches, retomar o atendimento presencial na administração pública e reabrir os cabeleireiros. As empresas devem alternar turnos de trabalho e quem puder continuar em teletrabalho deverá fazê-lo, para que não haja grandes ajuntamentos em transportes públicos. 

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O primeiro-ministro, António Costa, diz que a reabertura económica implicará uso “obrigatório” de máscara em transportes públicos e escolas. Os alunos do 11.º e 12.º anos voltarão a ter aulas presenciais mas começarão “mais tarde do que o horário normal de trabalho” para que não se cruzem com os restantes trabalhadores nos transportes públicos. As praias terão restrições, os cinemas lugares marcados de duas em duas filas e de três em três lugares e o comércio abrirá gradualmente e por zonas das cidades.

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Sair do confinamento é uma operação com riscos. “Há risco, naturalmente, de voltar a haver um crescimento de novas infecções, mas também há agora um maior conhecimento de todos sobre como minimizar esse risco”, defende o economista Pedro Pita Barros. E Portugal poderá “aprender” novamente com o que acontece lá fora. “Temos duas semanas para observar como corre na Áustria, Dinamarca, Noruega e Espanha, que estão a levantar limitações a diferentes ritmos.”

Ainda que haja países que começaram já um lento desconfinamento, cauteloso, para tentar mitigar o impacto na economia, Portugal não será dos últimos a sair do confinamento: outros países recusam ainda dar quaisquer tréguas à pandemia. Os irlandeses ficarão em casa até 5 de Maio, pelo menos; a Roménia ficará em estado de emergência até meados de Maio; França continuará em quarentena até 11 de Maio (mas os restaurantes, cafés e cinemas ficarão fechados mais tempo) e não permite chegadas de pessoas vindas de fora da Europa.

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Também o Reino Unido ficará de portas fechadas até 7 de Maio. “Se nos apressarmos a relaxar as medidas, arriscamos desperdiçar todo o progresso que temos feito”, afirmou Dominic Raab, que está a substituir o primeiro-ministro, Boris Johnson, ainda a recuperar da doença covid-19. “Isso poderia levar-nos a uma segunda quarentena, com todo o risco para a vida humana que um vírus destes representa e com todo o prejuízo económico que um segundo confinamento traria”, disse.

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O Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê que venha aí a pior crise desde a Grande Depressão, há 90 anos. “É muito provável que assim seja. E sobretudo porque a paragem das principais economias foi basicamente simultânea, o que também não tem sido normal em recessões anteriores”, explica Pedro Pita Barros. Agora, é a crise do Grande Confinamento.

“Não é sustentável manter este nível de confinamento de uma forma prolongada, temos todo o interesse em que a situação se possa processar com alguma normalidade”, acredita Ricardo Mexia. “Não está em causa pôr a saúde pública em primeiro ou segundo lugar”, garante, “até porque as outras doenças continuam a acontecer e as pessoas têm de continuar a conseguir recorrer aos cuidados de saúde, e também porque pode haver implicações económico-financeiras com impacto muito grande na saúde”. Tem é de se garantir que o retorno é feito de forma gradual e regrada, para que não haja um crescimento exponencial como aquele que levou à sobrecarga de sistemas de saúde noutros países.

A Comissão Europeia reconhece que levantar as medidas de confinamento “resultará inevitavelmente num aumento do número de novos casos” e, quiçá, a novas medidas de isolamento. Por isso, qualquer que seja a decisão tomada, deve “ser baseada na ciência”.

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