Covid-19. Há mais 50% de contactos para médicos de família do que para as linhas SNS24

Desde 25 de Março todos os contactos telefónicos com médico de família e linhas SNS24 desceram para cerca de metade, o que já não aconteceu com as idas aos hospitais que se mantiveram constantes. Mais resultados do estudo Diários de uma Pandemia, do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto e do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência.

Doença do coronavírus 2019
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Daniel Rocha

Diariamente, houve mais 50% de contactos para o médico de família por telefone por causa da covid-19, do que para as linhas SNS24. Estas são conclusões recentes do estudo Diários de uma Pandemia, do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP) e do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC TEC), que tem o apoio do PÚBLICO. Ou seja, para cada dois contactos para a SNS24, houve três para o médico de família.

No entanto, desde 25 de Março que todos os contactos telefónicos com o médico de família e linhas SNS24 desceram para cerca de metade, o que já não aconteceu com as idas aos hospitais que se mantiveram constantes. Até dia 27 de Março, por dia, nove em cada mil pessoas contactaram o médico de família, sete em cada mil ligaram às linhas SNS24 e duas em cada mil foram aos hospitais. A 14 de Abril, por dia, quatro em cada mil pessoas contactaram o médico da família, três em cada mil as linhas SNS24 e duas em cada mil foram aos hospitais.

“O achatamento da curva epidémica e a diminuição do risco a que as pessoas se expõem no dia-a-dia podem ter levado à diminuição de procura de cuidados”, comenta Raquel Lucas, investigadora do Instituto de Saúde Pública e da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto que acompanha de perto o estudo. A investigadora sublinha que esta tendência de descida poderá mudar ao longo do curso da epidemia.

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O estudo faz a recolha de dados através de questionários online e teve a participação de pessoas entre os 16 e os 89 anos, que contam como têm vivido esta pandemia. Entre 23 de Março e 8 de Abril inscreveram-se para participar 10.391 pessoas, que preencheram 73.617 questionários. Estas conclusões dizem respeito a este período temporal e a este grupo. 

Em termos brutos, o estudo mostra que das 10.391 pessoas seguidas por dia 301 (2,9%) contactaram pelo menos uma vez o médico de família à distância, 239 (2,3%) contactaram pelo menos uma vez as linhas SNS24 e 104 (1,0%) foram pelo menos uma vez a hospitais públicos. 

Da análise, conclui-se ainda: de todos os participantes, 8,4% tentaram contactar as linhas SNS24 em Março; e desses, quase metade (43%) não tiveram sucesso, o que confirma aquilo que já se vinha sendo reportado sobre os contactos falhados com este serviço. Em 10 de Março as linhaSNS 24, de acordo com a Direcção-Geral de Saúde, tinham recebido 28 mil chamadas num único dia.

“O médico de família ainda é mais importante, aparentemente, do que as linhas SNS24”, diz Raquel Lucas. Por outro lado, a investigadora sublinha como dado positivo que se retira das conclusões: quem não teve sucesso no contacto com as linhas SNS24 não “foi a correr para os hospitais”. 

O papel das farmácias e da Internet

Para onde foram, então, estas pessoas que não conseguiram ser atendidas nas linhas SNS24? Metade não contactou mais ninguém; 53% recorreu à Internet, e mais de 46% recorreram as farmácias, concluem. “As pessoas com contactos falhados se compensaram de alguma forma foi nas farmácias e nas pesquisas na Internet”, comenta Raquel Lucas. O recurso às farmácias como procura de aconselhamento ou cuidados é conhecido noutros contextos, mas não deixa de ser interessante verificar que este serviço tem um papel a desempenhar na resposta a esta pandemia, acrescenta.

Por outro lado este é o único ponto em que se diferenciam os indivíduos que não conseguem contactar o SNS24 daqueles que conseguem — estes últimos deslocam-se sobretudo aos médicos de família à distância (15,9%) e também aos hospitais públicos e privados, embora em menor extensão (7,1%).

Outra conclusão: quem mais procurou as linhas de apoio e todos os serviços de saúde foram as pessoas que tiveram contactos directos com casos confirmados de SARS-CoV-2. Esse número é superior a quem apresenta alguns sintomas anunciados pelas autoridades — como a tosse, febre ou dificuldades respiratórias — ou até mesmo a quem considera que tem um risco alto de contrair a infecção. 

São ainda estas pessoas que estiveram em contacto com pessoas infectadas que mais se deslocaram fisicamente aos hospitais, e que também fizeram deslocações aos cuidados de saúde primários e aos serviços de saúde privados.

Os participantes que tiveram contacto com um caso suspeito também recorreram mais às farmácias, por motivos relacionados ou não com a covid-19. Para Raquel Lucas o maior risco é, provavelmente, o contacto com casos confirmados portanto é relevante que muitas destas pessoas “tenham procurado directamente os hospitais”, independentemente de terem falado com os médicos de família ou com as linhas SNS24.

Os cuidados de saúde foram mais procurados por pessoas que têm agregado familiar com doentes crónicos ou crianças até aos 10 anos, que não estão no grupo de risco, algo que não aconteceu nos agregados com idosos com mais de 60 anos — estes sim, no grupo de risco.

Geograficamente conclui-se ainda que os contactos falhados com as linhas SNS24 são mais frequentes no Centro e Algarve, algo que a equipa não sabe explicar. Por outro lado, a utilização de cuidados de saúde é mais procurada no Norte, Centro e Lisboa e menos no Algarve e Alentejo, “o que reflecte um pouco o padrão da epidemia”, conclui Raquel Lucas.

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