Gosto muito de ti

Agora, que temos mesmo de pensar em cada gesto, como bailarinos a executar a sua própria coreografia, em que vamos pensando e sonhando os futuros gestos, talvez seja também boa ideia pensarmos nos antigos.

Foto
"Um Solo para a Sociedade", Miguel Santos, Companhia Paulo Ribeiro, 2017 PAULO PIMENTA/Arquivo

Um dia, não há muito tempo, mas ainda na era a.C19, uma colega de trabalho, no final de uma conversa banal daquelas que servem como intervalos zen, disse-me:

Sabes uma coisa? Gosto muito de ti.

Ora eu, que sendo uma pessoa relativamente empática sou por vezes uma boa besta, fiquei sem resposta (coisa rara em mim, já que o meu ego, que me faz frequentemente entrar no capítulo dos Génios, não gosta nada disto). Mas, ainda assim

Eu sei, eu sei, ahahah.

E, aparentemente, a coisa ficou, mais ou menos palavra inócua, por aí. E digo aparentemente porque não há dia depois disso em que não me lembre desse momento.

Deixem-me fazer a ressalva: ambos trabalhamos há muitos, muitos anos no mesmo sítio. Mas cada um no seu departamento da fábrica. Sempre nos demos bem, rimos juntos, trocamos as nossas ideias e opiniões, quase sempre coisa de uns minutos num destes intervalos. De resto, não somos amigos íntimos, nem interligamos as nossas vidas pessoais, somos colegas de trabalho que se dão muito bem.

Ressalva feita, é um momento que ficará para sempre comigo. Acredito que este tempo que vivemos agora é tão empiricamente infindável como cientificamente definidor. Um tempo em que cada um, uns mais outros menos, pensa estar a conseguir destrinçar, por fim, O Quê e Quem Nos Interessa Ter na Nossa Vida, estar a conseguir compreender, ou pelo menos conscientemente buscar, o que é realmente importante.

E que, para isso, se calhar, todos nos estamos a agarrar a farrapos de memórias, tanto as boas como as outras, aplicando-lhes alguma variação do método científico possível.

E cá vamos, ocupando o pensamento com ponderações e decisões sobre essas memórias, em conjugação, claro está, com o que vemos, ouvimos, sentimos, vivemos em cada dia destes tempos de real distância social, apesar dos simulacros da Internet. E, entre esses farrapos de memórias, mesmo quando não nos pareceram assim tão importantes para a nossa vida, no seu momento, há aqueles, como este de que vos falo. Um gesto feito de palavras, como me aconteceu e acontece (este texto é a sua prova viva), que pode realmente entrar no domínio daquela teoria e prática da reacção em cadeia — nada de novo e que se pode ler nos livros com o pó dos séculos que ergueram civilizações ou ver mais preguiçosamente num leve e mais recente filme americano. São aquelas quatro ou cinco palavrinhas que nos alteram para melhor, são aqueles pequenos, pequeníssimos gestos de que somos alvo ou somos agentes.

Porque sim, como ecoa por tanto mundo em cliché, o mundo está nas nossas mãos. Portanto, obviamente, quer queiramos ou não, está nas mãos de todos e de cada um. É um jogo de cintura complicado, é verdade. Mas para quem, como eu, acredita realmente que a salvação não começa no mundo mas em nós, tudo parece mais fácil. E começa na nossa própria auto-análise, no nosso próprio pensamento sobre nós próprios, sobre cada um dos nossos gestos, na nossa própria autoconstrução e nas nossas tentativas de aperfeiçoamento. Não para chegar a nenhuma perfeição inglória e divina, mas para fazer essa viagem: para chegar à tentativa por infinitas tentativas de tentarmos, sempre tentarmos, ser um pouco melhores, mesmo que o nosso ego nos vá ganhando quase sempre.

“Se eu não morresse nunca! e eternamente buscasse e conseguisse a perfeição das coisas!” é uma frase que leio milhares de vezes, tal como milhares de pessoas, nos azulejos da estação de Metro da Cidade Universitária, em Lisboa. Às vezes pára-me mesmo e fico ali a pensar. Sempre a considerei um pau de dois bicos porque, se por um lado, o caminho nos subterrâneos de estação vai dar ao orgulho da nação que é e deve ser este campus universitário, também me costuma encaminhar para o orgulho da nação que é e deve ser o Hospital de Santa Maria.

“Se eu não morresse nunca e eternamente buscasse e conseguisse a perfeição das coisas!”. Assim o escreveu Cesário Verde, que viveu 31 aninhos — morreu de outra praga, no séc. XIX, a tuberculose, em 1886 —, mas que é eterno e está eternizado também nesses azulejos sagrados, inaugurados um século depois, obra de Maria Helena Vieira da Silva. Entre a obra toda, e aquela frase (e outras célebres), séculos de humanidade nos contemplam. E são aquelas duas linhas de palavrinhas que me acompanham sempre muito para lá da boca do Metro. Porque por um caminho parecem implicar esse desejo de vida eterna para almejar a sabedoria, pelo outro têm implícita a morte que nos espera a todos e a busca, por tentativa e erro, correcção e avanço, suponho, como única coisa eterna.

Curioso como a artistas, pensadores, criadores, investigadores, etc., etc., cujo trabalho perdura para lá da espumas dos dias e nos transforma para melhor (individual e colectivamente), devemos muito, muito mais do que só as matérias essenciais como dinheiro ou comida; devemos as matérias essenciais de que somos feitos tal como à natureza devemos tudo, não? É como pôr um preço no pessoal médico que nos salva. Ou nos amigos. Põe lá um preço nisso.

Foto
Cesário Verde na estação de metro da Cidade Universitária, Lisboa Duarte Custódio

É aí, nessas eternas tentativas de buscarmos atingir a impossível meta da perfeição das coisas, que, acredito, reside o melhor que há em nós. É da sabedoria local e do mundo, da memória e da acção, que a reconstrução pode partir, primeiro para a tua casa e para as tuas pessoas, para a tua rua, para os teus amigos e desconhecidos, para a tua família, para a tua aldeia, cidade, concelho, país, para todo o lado. Entre quem pode e não está limitado por outras grilhetas, tudo começa com o teu gesto, a decisão do teu gesto, com o meu gesto, com a decisão do meu gesto. Por isso, agora, que temos mesmo de pensar em cada gesto, como bailarinos a executar a sua própria coreografia, em que vamos pensando e sonhando os futuros gestos , talvez seja também boa ideia pensarmos nos antigos.

Sim, andamos todos loucos in loco, andamos todos em viagens cósmicas do ego e alter-ego, somos todos vítimas e carrascos, lutamos todos (uns mais privilegiados, outros menos, é certo) pela sobrevivência. E, sim, as minhas palavras não vão salvar ninguém, talvez isto não passe mesmo de mais uma crónica de entretenimento, como um qualquer zapping ou comentário nas redes sociais. Mas, aqui chegados, deixa-me o poder do gesto possível, e de dizer, finalmente, com as palavras a sair dos meus dedos como se fossem os lábios que as dirão pessoalmente em breve, muito em breve

Também gosto muito de ti, Teresa.

(A fotografia, escolhida pelo autor do texto como ilustrativa do gesto, foi captada no espectáculo Um Solo Para a Sociedade da Companhia Paulo Ribeiro, 2017)