Está na altura de os portugueses voltarem a olhar os seus azulejos

São tão comuns em Portugal que os temos como um dado adquirido. Mas há quem diga que os azulejos são a mais original contribuição portuguesa para o património artístico europeu. Por isso, prepara-se a sua candidatura a Património da Humanidade e, a 6 de Maio, celebra-se o seu dia. A Fugas levanta um pouco o véu desta relação entre portugueses e azulejos.

“Os portugueses nascem em locais com azulejos, porque os hospitais eram antigos conventos e estão cheios de azulejos, crescem em cidades cheias de azulejos, casam em igrejas com azulejos e, quando morrem, são enterrados também em locais com azulejos…” Quem o disse terá sido o engenheiro Santos Simões, quem o parafraseia é a investigadora e coordenadora do Az – Rede de Investigação em Azulejo da Universidade de Lisboa Maria do Rosário Salema de Carvalho, para justificar: “Por isso [os portugueses] acabaram por não lhes conferir a importância que merecem. São um dado adquirido”.

O mesmo não acontece com os estrangeiros que, ao falarem de Portugal, entre os elogios, que por estes dias correm soltos, destacam, frequentemente, os azulejos. Provavelmente falta-nos a consciência da singularidade desta forma de expressão artística no contexto mundial. É que o azulejo tem sido utilizado em Portugal ininterruptamente ao longo dos últimos cinco séculos de uma forma que não encontra equivalência noutro país — nem em termos de presença no território, nem de escala ou de capacidade de renovação.

Esta originalidade, nota o conservador do Museu Nacional do Azulejo (MNAz) e investigador Alexandre Pais, é referida “por diferentes intelectuais desde a segunda metade do século XIX” e é “também apontada por estudiosos da cerâmica de outros países” — tanto que “Portugal tem marcado a sua participação em feiras internacionais e grandes exposições mundiais (quase) sempre com azulejos” (pense-se nos edifícios da Expo 98, no pavilhão da Feira de Hanôver, por Siza Vieira, ou no cacilheiro de Joana Vasconcelos na Bienal de Veneza). Esta originalidade é o principal motor da proposta da candidatura do azulejo português a Património da Humanidade. O projecto ainda está em desenvolvimento e, por enquanto, assinala-se domingo, 6 de Maio, o Dia Nacional do Azulejo.

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Estação de São Bento, Porto Nelson Garrido

Não se pense no azulejo como uma forma imutável de expressão artística, se calhar “a contribuição mais original de Portugal para o património artístico europeu”, reflecte João Mimoso, do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), e co-coordenador, com Alexandre Pais (em representação do MNAz), do projecto FCT-Azure, que está a desenvolver a candidatura a património mundial. Na verdade, “em cada período o azulejo soube reinventar-se e apresenta características específicas”, nota Maria Rosário Carvalho.

Provavelmente não nos apercebemos, mas hoje atravessamos uma nova fase, aponta Alexandre Pais, marcada pela transferência para o azulejo de uma série de novas linguagens e estéticas: da pixelização das imagens (como os trabalhos do norte-americano Ivan Chermayeff no Oceanário de Lisboa, ou do Atelier Can-Ran na estação fluvial do Terreiro do Paço) à integração de jogos de luz cristalizados nas fachadas (no edifício Écran, do Parque das Nações, por Jorge Martins, ou no túnel da Infante Santo, por Eduardo Nery); da linguagem dos comics e da banda desenhada (projectos de Erro, no Parque das Nações) à construção de largas composições figurativas empregando azulejos industriais das décadas de 1960/70 e que só ganham expressão à distância (Estúdios Pedrita); da construção de volumetrias geométricas que dão novos entendimentos e texturas às superfícies (fachadas de Maria Ana Vasco Costa) aos trabalhos com o chamado “azulejo cinético” (peças com volumetria estruturando composições dinâmicas ou pintando mensagens só perceptíveis de determinados ângulos, pelo Atelier Can-Ran).

Contudo, sublinha o investigador, talvez o mais radical (e interessante) exemplo seja a “a integração da street art na azulejaria” — como vemos nos murais de grande dimensão no Jardim Botto Machado (de André Teixeira) ou, sobretudo, no trabalho desenvolvido por Add Fuel na Avenida Infante Santo. “Com esta migração o próprio conceito de transitoriedade do grafitti é alterado, ganha permanência e durabilidade, a sua rebeldia torna-se parte do establishment e estes são aspectos que estão a mudar também o próprio posicionamento do azulejo”, explica Alexandre Pais. Se esta mudança irá marcar o século XXI, “só daqui a 80 anos o saberemos”; por enquanto, Alexandre Pais cita a socióloga Marluci Menezes, do LNEC, que já definiu a passagem do azulejo de Arte Pública, que caracterizou o século XX, para a Arte Urbana.

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Estação de metro da Ameixoeira, Lisboa Ricardo Lopes

Esta é mais uma das etapas do azulejo que se inscreve numa longa genealogia e que, de certa forma, já se incorporou no ADN português. Tomando sempre formas diferentes, “até porque é uma manifestação artística que se renova todos os dias”, diz a directora do MNAz, Maria Antónia Pinto de Matos, os azulejos entraram pelos palácios, igrejas e conventos (fizeram-se, literalmente, “ouro sobre azul” no século XVIII, com a combinação de grandes, e sumptuosos, conjuntos de azulejos narrativos com talha dourada), saltaram para as fachadas no século XIX (articulando-se com várias peças cerâmicas, como balaústres, estátuas, telhas vidradas, potes) e, desde então, não mais saíram da rua. Uma espécie de “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, mas sempre com uma “permanência de gosto”, salienta Maria Rosário Carvalho. “E”, continua, “numa relação com a arquitectura que, creio, é um dos pontos fortes e um dos que mais destaca a azulejaria portuguesa de outras manifestações congéneres. Há um sentido de arquitectura, de espaço e de escala que actua como meio adjectivador e transformador dos espaços, sejam eles interiores ou exteriores.”

Para a candidatura a património da UNESCO só estão, precisamente, a ser considerados azulejos integrados na arquitectura, “pois é este o propósito destes revestimentos cerâmicos e é da simbiose dos dois elementos que nasce o carácter original da azulejaria portuguesa”, justifica Alexandre Pais. Essa simbiose é um dos “desafios” do MNAz, que funciona como uma verdadeira porta de entrada para os 500 anos de universo azulejar (e cerâmico) português, conta Maria Pinto Matos, onde os azulejos não estão aplicados in situ — excepto os do antigo Convento da Madre de Deus, onde está instalado.

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Terminal de cruzeiros do Porto de Leixões, Matosinhos Paulo Pimenta

“É verdade que os azulejos estão fora do contexto, e quando retiramos um painel normalmente perde-se um pouco da história, da mensagem, mas é a maneira de os salvaguardar. Temos, por exemplo, azulejos de palácios e conventos que já não existem”, concretiza Maria Pinto Matos. Um mundo perdido, portanto, mas conservado, estudado e explicado no MNAZ. “É um universo fascinante”, resume Maria Pinto Matos, a que os estrangeiros são mais sensíveis. Pelo menos no que ao MNAz concerne. “O público é, na sua maioria, estrangeiro”, avalia, “os portugueses gostam, mas não vêm tanto”.

E voltamos ao início. Parece que se cumpre o velho ditado, “ninguém é profeta na sua própria terra”, ainda que Rosário Salema Carvalho seja optimista, afirmando que “se percebe uma muito maior consciência patrimonial e uma atenção que era mais rara há alguns anos”. O Dia Nacional do Azulejo, criado o ano passado, pode ajudar e ele próprio surgiu por iniciativa do Projecto SOS Azulejo, da Polícia Judiciária, que desde 2007 se dedica à protecção e valorização do património azulejar português.

Um património que, como refere, Maria Pinto Matos, não se restringe ao país, viaja pela geografia dos Descobrimentos, Brasil, África e Ásia. Os maiores exemplos in situ estão, aliás, no Brasil, acrescenta. Se calhar, aventamos, deveria haver antes um “dia do azulejo nacional”. O que haverá, em Outubro, é o “Mês do Azulejo”, iniciativa do MNAz, do LNEC e da Az – Rede de Investigação do Azulejo, onde é esperada a apresentação da resolução de um dos “mistérios” da azulejaria portuguesa: esclarecer as origens da produção do azulejo de faiança (majólica) em Portugal, avança João Mimoso. Mais um dado a acrescentar à candidatura à UNESCO, mas que não explica a relação duradoura dos portugueses com os azulejos. Mesmo inconscientemente, é ouro sobre azul (e a metáfora aqui anda perto da origem).

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Palácio do Marquês de Fronteira, Lisboa Daniel Rocha

No país dos azulejos

Se a candidatura dos azulejos portugueses a Património Mundial for bem-sucedida, o turismo cultural passará a ter mais uma “entrada” o que, certamente, levará mais visitantes a zonas do país menos visitadas. Alexandre Pais crê que “a articulação do património azulejar “deverá associar o Turismo de Portugal e os agentes culturais locais” no que “poderá garantir uma certa descentralização dos visitantes estrangeiros para outros locais, nomeadamente do interior”. E “permitirá a constituição de roteiros de azulejaria em diferentes áreas do território nacional que permitirão conhecer outras tradições locais”.

Enquanto não chegam esses roteiros (extensivos e integrados, visto que há cidades que já os têm), deixamos sugestões de visita à boleia da azulejaria. Em geografias múltiplas, apresentamos edifícios (ou conjuntos) de várias finalidades, onde os azulejos são de diferentes épocas e estéticas e, de alguma forma, representam momentos-chave de evolução artística e tecnológica. Não é um best of, antes uma tentativa de condensar cinco séculos de azulejaria. Muito fica de fora e o melhor é mesmo andar (mais) atento — Portugal é, afinal, o país dos azulejos.

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