Opinião

Da suspensão ao update: o que pode mudar na Cultura?

Devido à gravidade do momento actual, as lacunas e fragilidades do universo cultural e artístico vieram agora à tona de um modo assustador – mas, no fundo, só aparentemente surpreendente.

Duas e meia da madrugada, a chuva cai lá fora, revisito a poesia de Al Berto: “a noite chega-me irrequieta de cíclicos ventos, cintilam peixes pelas paredes do quarto/ durmo sobre as águas e tenho medo”. Umas horas antes, a (ou)ver, no YouTube, o luminoso discurso de Martin Luther King Jr. proferido em 1963 em Washington, comovi-me, mais uma vez, com aquela rara verdade natural. Neste turbilhão de sensações plurais, assalta-me uma aparente contradição: uma pandemia que põe a nu a fragilidade mas também a força e a coragem dos que, como na Cultura e nas Artes, vivendo numa precária incerteza, (ainda) resistem, permanecem e pulsam criativamente –​ movidos por uma “insondável” certeza carregada de sentido – em busca de uma respiração alternativa do real. De alguma forma, a covid-19 não deixa de ser um oportuno barómetro de um indesmentível estado de injustiça social que se tem instalado, mas também da admirável (com limites, sim) capacidade de resiliência do espírito humano. Porém, não obstante os “balões de oxigénio” entretanto libertados para suavizar momentaneamente o seu impacto, não se espere que seja um vírus a erradicar os desequilíbrios da sociedade contemporânea e a fazer a revolução, como nos relembra Byung-Chul Han. “Precisamos de acreditar que após o vírus virá uma revolução humana”, projecta o lúcido filósofo alemão que nasceu na Coreia do Sul. Na realidade, de sugestões de curto prazo a antevisões do próximo futuro, têm-se multiplicado os discursos  entre a expectativa e o temor, entre a esperança e o cepticismo  de que nada será como dantes, de que temos de aprender com os erros e vícios do passado, de que uma crise é sempre, também, uma oportunidade, de que, perante esta desaceleração, é urgente repensar o mundo.

Vivemos, em larga escala, imersos nessa gigante bolha feita de velocidade sem cesura, de um “excesso de tudo” (de que fala Gilles Lipovetsky), de desigualdade silenciosa, de ruído ensurdecedor, de competição desenfreada, de ilusória projecção digital do eu, de resultado (em detrimento de processo), de automatismo rotineiro, de diluição utópica, de fechamento egocêntrico, de hiper-crítica mas também de intolerância do outro à crítica, de ética líquida (como advogava Zygmunt Bauman), de estatística redutora, de homogeneização massificada, de encoberta inveja (não por acaso, já no século XVI, Camões remataria Os Lusíadas com essa ideia, empregando-a como derradeira palavra do seu texto épico), de subreptícia manipulação noticiosa, de radicalidade populista, de inquietação-medo perante o amanhã.

E agora, ironicamente, pedem-nos, com razão sim, para nos isolarmos, estado em que não poucos de nós já estávamos, ainda que não confessadamente e até no meio da multidão. Sim, é porventura essa a questão-chave desta pós-modernidade, e aqui sem falsos moralismos: a nossa (aparente, real?) incapacidade ou indisponibilidade para “conjugar” a primeira pessoa do plural, para nos pormos fora de nós, ou, então, a tentação de a substituirmos pela distante terceira pessoa do plural, “chutando assim para canto” (o mesmo é dizer: para os outros, “eles”), de forma desresponsabilizadora e egoísta, os males maiores que nos afligem.

Conhecemos, felizmente, exemplos continuados de contra-corrente a esta tendência, os quais teimam em alimentar a nossa crença num humanismo e numa bondade “universais” que falam mais alto, patentes na dinâmica de inúmeros movimentos de solidariedade, no surgimento de colectivos de cidadãos empenhados na reivindicação de deveres e direitos em áreas específicas (ambiente, discriminação racial, eutanásia, deficiência, igualdade de género, identidade e orientação sexuais, imigração, etc.), nas proactivas e motivacionais tomadas de posição de várias figuras públicas na defesa de causas comuns, na profusão de “pequenos” gestos quotidianos, não poucas vezes anónimos/“invisíveis” (que não cabem, em geral, nos media), que reflectem um espírito maior e que recuperam aquela alegria primordial, como sal da vida, de que falava Jorge de Sena, em 1963, numa icónica carta-poema aos seus filhos sobre os fuzilamentos de Goya.

Não obstante, é esse hiper-individualismo narcísico, cego e solitário (novamente Lipovetsky), apanágio da contemporaneidade, que tem de ser questionado e posto em causa, o qual se traduz, na sua faceta mais sombria, não só num agressivo e desumanizado capitalismo neoliberal como num poder (político, económico) em que o oportunismo e a ética incoerente e fluida continuam a grassar, com algumas excepções que confirmam a regra. Conjunturas-limite como a que atravessamos actualmente demonstram-nos mais uma vez, e da forma mais dura, o modo perverso como a dimensão social e o valor do humano têm vindo a ser gradualmente descartados em prol de uma lógica material, obsessiva e sem escrúpulos, de lucro financeiro e acumulação de riqueza, em que paralelamente emerge outro paradoxo central que mina todo um sistema dito democrático, e que teima em persistir sob múltiplas e enviesadas tonalidades: um Estado complacente com os mais fortes e punitivo com os mais fracos.

Daqui advém um desafio maior do nosso tempo, uma espécie de imperativo ético: o vital empoderamento de todos os cidadãos, transmitindo-lhes confiança (na ciência, nos media, nas instituições públicas), para que, no seu dia-a-dia, na educação que transmitem e no exemplo cívico que prestam, pensem-ajam colectivamente, construindo e consolidando uma sociedade cumpridora, consciente e cooperante. Yuval Noah Harari sintetizou exemplarmente esta ideia num artigo recente no Financial Times, no qual explicita as duas principais (e inadiáveis?) escolhas com que a humanidade se debate actualmente: entre um controlo digital/monitorização totalitária estatal e um empowerment dos cidadãos; e entre um nacionalismo isolacionista e um espírito de solidariedade global.

Neste panorama, as áreas cultural e artística não são excepção. Mais uma vez, é a falta de atenção ao valor do humano que está na base das lacunas, indefinições e fragilidades deste universo, as quais, devido à gravidade e à complexidade do momento actual, vieram agora à tona de um modo assustador, mas, no fundo, só aparentemente surpreendente. O gesto há muito ausente, como tantas vozes têm sublinhado há demasiado tempo: a dignificação e a valorização pragmáticas dos profissionais e dos múltiplos ofícios ligados à Cultura, nomeadamente no campo das artes do espectáculo e do audiovisual. Que este  exigente, sim  amor aos homens e mulheres que erigem, nos palcos e nos bastidores, a Cultura deste país não seja adiado para outro século (como escreveria António Ramos Rosa), e que esses protagonistas não continuem isolados, esquecidos, invisíveis entre as multidões fervorosas que os próprios convocam, nem quando os holofotes se apagam e o silêncio se instala. Cesariny já alertava (noutro contexto, mas que aqui adapto pela pertinente analogia): “Estou num pedestal muito alto, batem palmas e depois deixam-me ir sozinho para casa.”

É imprescindível que a própria auto-estima e a relevância desse sector se elevem proactivamente através de um movimento reivindicativo concertado, fundamentado e capacitado por parte dos seus membros junto dos centros de decisão estatais. Que essa tão premente (e desafiante) aglutinação de vontades se manifeste não só nos apoios financeiros a solicitar mas também se estenda a outros princípios-base geradores de consenso que devem sustentar a acalentada estruturação desta área, com especial enfoque na definição de um quadro legal-regulamentar aplicável ao seu universo profissional. Aliás, o recente cancelamento da infeliz iniciativa a que o Ministério da Cultura chamou TV Fest, bem como a aplaudida reformulação do artigo 11.º do Decreto-Lei de 26 de Março, que regula os espectáculos cancelados ou adiados, são ilustrativos da capacidade de intervenção e pressão do sector cultural-artístico (e da sociedade civil) junto do Governo quando aquele se mobiliza em bloco para defender os interesses da classe e exigir razoabilidade e equidade, neste caso perante algumas das medidas extraordinárias de resposta ao novo coronavírus. A questão aqui também  e há que afirmá-lo sem rodeios  é que na Cultura e nas Artes essa unificação colectiva em torno de certas linhas/orientações de fundo não pode ocorrer  com este nível de solidariedade interna, intensidade e dedicação que (felizmente) agora estamos a observar  apenas em momentos de extrema aflição, como este período crítico em que está em causa a subsistência mais básica do sector. Tem de ser exercida de uma forma permanente, preventiva e articulada, olvidando egos e umbigos, para não cairmos em monólogos vazios do género: “Well, enough about me. Let’s talk about you. What do you think about me?”

A busca legítima das condições mínimas de trabalho e de vida dos profissionais do sector  cultural e artístico assenta em algo mais amplo e basilar que não pode ser escamoteado: a preservação da justiça social. Em tempos de desigualdade por vezes mais velada do que explícita, mais violenta do que banalizada, a Cultura  sector que apresenta uma actividade em grande medida intermitente, abundando o trabalho independente a recibos verdes (grupo que representa 16% do total segundo os dados da Pordata para 2018)  tem de ser efectivamente salvaguardada a nível legal, com adequação e eficácia, nas dimensões social, laboral e fiscal, em aspectos essenciais como a protecção na doença, a parentalidade, os acidentes em contexto profissional, a invalidez absoluta e relativa, o desemprego ou a velhice. Isso mesmo postula o pertinente relatório elaborado por Augusto Pereira Portela em 2018, e editado pela Fundação GDA, sobre o Estatuto Profissional do Artista e o seu regime laboral e de Segurança Social, o qual aborda ainda outros tópicos nucleares: o acesso à profissão (a obrigatoriedade da carteira profissional); a definição da tipologia de contrato mais adequada à regulamentação da prestação de trabalho; a regulamentação quer das condições de prestação efectiva de trabalho (local, duração e organização) quer da vertente da cessação contratual (incluindo aqui a compensação ou indemnização); o fomento do papel da contratação colectiva no sector; ou o estabelecimento de um regime fiscal adequado às especificidades da profissão. Como já afirmei noutra reflexão, só isso, em grande medida, trará um quadro de maior estabilidade estrutural a esta área, bem como instrumentos e mecanismos que permitam reagir com maior coerência, eficácia e celeridade (não só mas também) a conjunturas como a actual.

Paralelamente, e sem esquecer esse alicerce prioritário, é fundamental o investimento simbólico do poder central num discurso continuado (não apenas em timings associados a crises), persuasivo, criativo e convicto  friso bem estas ideias  de sensibilização das demais realidades institucionais, nos planos regional e autárquico, bem como da sociedade em geral para a relevância da figura do artista (criador, intérprete) e demais funções englobáveis neste vasto universo (todos os que integram as estruturas de produção, os agentes, os técnicos, etc.)  isto enquanto sector profissional que tem obrigatoriamente de ser tratado com o mesmo respeito e igualdade dos demais. É imperioso espalhar esta notícia “violentamente”, de forma militante e “pedagógica”, como se  atrevo-me a afirmar  de uma campanha política, no melhor sentido da expressão, se tratasse.

Um parênteses: não obstante a inegável sedução e o fascínio que os meandros da criatividade e inventividade artísticas exercem, desde o fundo dos tempos, no imaginário colectivo, a representação social do artista evidencia ainda hoje, aqui e ali, resquícios de preconceitos que sobrevivem apesar de o panorama geral ter vindo a evoluir positivamente. Aprofundando: num olhar mais global, ainda assistimos, em termos de percepção pública, a um certo subestimar do próprio estatuto de trabalhador independente (no qual muito do circuito artístico se enquadra) como uma espécie de condição “menor”, difusa e flutuante, a que não será também alheia a natureza efectivamente irregular da actividade a recibos verdes  como já apontámos ​, a qual tende depois a ser extrapolada de um modo menos valorizante e mais redutor por um certo senso comum.

Nalguns meios persiste um estereótipo, tantas vezes velado e não confessado, sobre a figura do artista, nomeadamente o menos mediático, devido a uma incompreensão ou ao desconhecimento da natureza e das exigências particulares do seu ofício (a acepção, em sentido figurado, de cariz pejorativo do termo “artista” no dicionário e na linguagem popular como alguém “engenhoso” ou “manhoso” é, a este nível, ilustrativa), o qual revela que a sociedade, num misto de pragmatismo e conservadorismo, ainda denota dificuldades em integrar e reconhecer a ideia de que a arte  encarada tradicionalmente como uma prática livre/indomesticável, mais distante da realidade, idealista, transgressora, “lúdica” e menos “produtiva”  pode volver-se em profissão com direitos e deveres regulamentados legalmente. O preconceito relativamente ao mundo artístico também, por vezes, deriva de uma certa altivez/sentimento de superioridade de certas máquinas burocráticas das instituições públicas, nomeadamente em meios mais “provincianos” e fechados, devido ao seu consciente (que encaram orgulhosamente como condição privilegiada) estatuto de estabilidade e não intermitência profissional, por contraposição com o universo predominantemente precário dos agentes artísticos. Também por tudo isto, a regulamentação do sector afigura-se premente pela mensagem simbólica que veiculará oficialmente.

Além da dimensão socioprofissional  cuja resolução, a partir de um histórico legislativo que se foi revelando ao longo dos anos pouco operativo, impreparado e desajustado da realidade, exigirá tempo e foco, pois implica uma estreita colaboração entre vários ministérios (Cultura, Trabalho, Segurança Social), como já referi noutro lugar , duas outras problemáticas pedem-nos reflexão neste tempo. Uma tem a ver com a mudança abrupta do paradigma dominante de fruição artística, em que o modelo in praesentia  que continha em si também uma significante dimensão de sociabilização (entre criador, intérprete e público; e entre o próprio público)  foi suspenso e está, por agora, a ser substituído pelas plataformas digitais devido ao necessário confinamento social generalizado e obrigatório que levou ao encerramento de museus, galerias, bibliotecas, arquivos, teatros e cinemas, e, consequentemente, a uma notória desaceleração e adiamento dos projectos e dinâmicas artísticos. Esta interrupção da partilha da experiência sensível, transversal às artes do palco e visuais, veio convocar novas estratégias de transmissão do objecto artístico, o que tem levantado questões quer sobre o efectivo grau de envolvimento e imersão do público, quer sobre o impacto transformador das criações nos seus destinatários quando a recepção destas se opera num contexto online, dado que este conheceu um incremento exponencial nas últimas semanas sobretudo ao nível da divulgação de conteúdos artísticos em tempo real ou de arquivo. Acresce a este cenário a gratuitidade do acesso a não poucas destas práticas de online viewing e o potencial ou real sinal perverso e efeito banalizador das mesmas junto do público.

Diversas vozes do sector artístico, provindas das artes performativas e visuais, têm sublinhado que o coronavírus é também um vírus da comunicação/linguagem, criando um abismo, um défice comunicacional significativo entre obra de arte e público. Contudo, ainda é cedo para perceber a real amplitude das implicações desta prevalência digital, as quais, na verdade, podem perpassar as múltiplas vertentes do universo-circuito artístico: criação, produção, mediação, recepção, difusão, logística, financiamento. Ainda não possuímos todos os dados para entender o que aí vem, mormente até que ponto este paradigma online se revestirá, para determinadas linguagens/sub-áreas da galáxia criativa, de uma vitalidade crescente em relação aos contornos tradicionais de fruição artística - nomeadamente (mas não só) quando pensamos em modalidades atractivas e abrangentes de captação de novos públicos para conteúdos culturais, numa maior sofisticação dos instrumentos de publicitação dos mesmos ou num alargamento de oportunidades de mercado para a venda de objectos de arte. 

Esta hiper-comunicação online tem reflexos, mais ou menos significativos conforme os casos, na dimensão da transmissão intelecto-sensorial de uma mensagem estética para um dado receptor, mas também pode influir nas motivações e opções que presidem à própria idealização do objecto artístico (formas, meios e ferramentas de trabalho) e nos moldes da sua ulterior promoção. Aliás, apesar da existência, a nível nacional, de inúmeros projectos dotados de qualidade, consistência e originalidade conceptuais nos campos performativo e visual, não são poucos os que padecem claramente de um investimento mais especializado nas áreas específicas da comunicação e difusão junto dos seus potenciais públicos-alvo, com abordagens que se mostrem eficazes e atentas às novas exigências desta fervilhante sociedade da informação. Deparamos frequentemente com propostas que revelam esse “calcanhar de Aquiles”.

Também por isto - e sabendo de antemão que o artista não é nem tem de ser um expert em publicidade/marketing, até porque não é esse o seu foco primacial; mas relembrando que essa vertente tem, nos dias de hoje, um peso considerável no impacto do objecto estético -, esta presente atenção massiva no digital pode incentivar a uma reflexão ainda mais aturada e fecunda no seio do meio artístico sobre as possibilidades e potencialidades da sua interacção, diálogo e colaboração/parceria com outras disciplinas/profissões inovadoras nas quais a criatividade e a tecnologia são denominadores comuns, como, por exemplo, o Web Design, o Marketing Digital, a SEO (optimização para mecanismos de busca) ou o e-Business.

Este admirável mundo novo pode, assim, ser particularmente desafiante para o universo artístico (e cultural), pois questiona e potencia, por diversas vias, processos de reformulação, actualização e reinvenção “na longa história da síntese entre a tecnologia, a mão, a mente e o coração”, como sublinha J. D. Jarvis. Veremos como artistas, instituições e públicos irão não só reagir como também alimentar essa vertiginosa torrente interrogativa que o futuro lhes/nos reserva.

Esta também pode ser uma fase muito propícia para a emergência, através das plataformas digitais e graças às suas potencialidades em termos de alcance e visibilidade, de mais projectos singulares fora da esfera do mainstream, os quais muitas vezes, devido à grande competitividade do heterogéneo e prolixo circuito artístico (onde a mediania ocamente superlativizada continua a ser um dos perigos maiores), não têm suficientes oportunidades, face to face, de apresentar as suas propostas criativas. Simultaneamente, esta primazia do digital instaura um pertinente questionamento, do ponto de vista da crítica de arte, sobre temáticas como a condição de espectador (e de comunidade), a organização do trabalho dos artistas, o processo criativo a pensar no suporte digital, o acesso directo e indirecto ao universo artístico, entre outras.

O terceiro ponto tem a ver com aquilo que na chamada “fase de recuperação”, durante um necessário período de transição pós-controlo da pandemia, irá mudar (temporariamente ou não, em função de diversas variáveis e conforme os aspectos específicos em análise) na organização, implementação e realização de acontecimentos culturais, desde espectáculos diversos a exposições, formações, debates, congressos, seminários, feiras temáticas, etc., que impliquem uma substancial concentração de pessoas num dado ambiente físico, com especial ênfase para os espaços fechados.

É expectável que, durante um determinado hiato temporal (que será mais ou menos longo em função da duração/evolução e do impacto efectivo da covid-19 nas próximas semanas), o Estado implemente um conjunto rigoroso e faseado de medidas de cariz preventivo a nível de saúde pública em vários domínios da vida social, as quais, no que concerne às artes do espectáculo, implicarão um esforço de adaptação e reconfiguração por parte das instituições culturais face à nova realidade.

E aqui o interesse público maior será o da saúde individual e colectiva, que vai sobrepor-se, e bem, às estatísticas de bilheteira, com orientações no sentido, desde logo, de uma significativa limitação da lotação dos eventos, com especial atenção para os contextos indoor, com a consequente redução do número de lugares disponíveis para venda em função da configuração e da dimensão dos mesmos e dos respectivos limites máximos entretanto autorizados. Uma vigilância e monitorização ainda mais rigorosas do acesso físico aos equipamentos culturais, bem como a adopção de medidas suplementares no concernente à segurança e higienização dos espaços em dias de espectáculo, ou até a disponibilização de equipamento de protecção individual adicional, nos locais, aos espectadores, poderão constituir igualmente prerrogativas pertinentes. No caso específico de concentrações mais reduzidas e facilmente controladas de pessoas, como sejam, em particular, as acções de formação/workshops ligados à expressão corporal, dança/movimento e outras dinâmicas grupais que requeiram uma proximidade e contacto físicos continuados entre as mesmas, poderá fazer sentido, por uma questão preventiva, a antecipada aplicação de testes aos participantes.

Ainda a este propósito: a diminuição do número de ingressos trará especiais desafios às salas de espectáculo em que a receita de bilheteira não reverte na íntegra para as mesmas. Refiro-me a um número relativamente expressivo de casos  nomeadamente, mas não só, a salas de média e grande dimensão, e sobretudo no que toca a apresentações de artistas de maior mediatismo, incluindo estrangeiros, com honorários mais elevados  em que os acordos de partilha de bilheteira entre as entidades onde são apresentados os eventos e os seus promotores externos (com percentagens variadas em função de cada caso), os alugueres de espaço e outros acolhimentos diversos detêm uma presença ainda considerável nas grelhas de programação artística. 

Uma nota suplementar acerca da temática orçamental. Esta pandemia está e irá ter repercussões significativas em todos os sectores de actividade e, no caso das instituições públicas ou privadas, não só os moldes desta conjuntura em particular como a própria tradição reactiva dos últimos elencos governativos às crises dizem-nos que é previsível que os orçamentos disponíveis para programação artística em 2021-2022 possam também reflectir, em maior ou menor grau, essas contingências — isto não obstante o próximo ano ser marcado, paralelamente ao rescaldo desta conjuntura, por um ambiente eleitoral (autárquicas).

Perante este cenário, é vital que o discurso oficial do poder — compreensível e realista, sim — de que é necessário atender com especial ênfase às dimensões social, sanitária e económica numa óptica de recuperação nacional não seja (até demagogicamente) sinónimo - como num passado recente que todos bem recordamos - de uma paralela fragilização ainda maior do sector cultural e artístico, relegando-o para um plano perigosamente secundário. A manutenção de uma regularidade e diversidade na oferta apresentada pelas instituições e outros agentes culturais, aliada à prossecução do apoio à criação e circulação artísticas — universo criativo que, como já salientámos, tem um peso económico na sociedade portuguesa que não pode ser descurado (como esta conjuntura só veio confirmar, ainda que pela negativa) —, afiguram-se fundamentais nessa fase de transição, que não se prevê breve. A Cultura não é uma coisa que simplesmente cai das árvores (como há tempos relembrava, e bem, o actor André Gago) e não pode constituir ad aeternum um dos elos mais fracos da cadeia, mas sim consolidar-se progressivamente como um sistema de relações complexo, produtivo, impactante e plural que também precisa de ser incluído e dignificado nessa lógica de retoma global.

Mais uma vez — insisto nesta tónica —, quem tem responsabilidades de governação ao nível central e local/municipal tem aqui uma oportunidade estratégica de, também a este nível, fazer diferente, de quebrar a “normalidade” passada a que não queremos voltar (Vítor Belanciano frisava certeiramente esta ideia num artigo recente), de introduzir uma mudança no seu habitual modus operandi, também em função, obviamente, dos recursos efectivamente disponíveis em cada contexto - e sabemos bem como o panorama nacional é heterogéneo a este nível. (A milenar sabedoria clássica não mente: nada existe de permanente a não ser a mudança, já preconizava o filósofo grego Heráclito de Éfeso.)

É claro que nem todos os agentes culturais institucionais terão a mesma sensibilidade intrínseca e margem de manobra financeira para ajudar a “segurar” o sector, mas é crucial que o Governo/tutela, além de dar o exemplo, dissemine activamente junto dos dirigentes da administração local e do restante tecido social uma narrativa apelativa e assertiva relativamente à importância de todos os protagonistas intervirem com bom senso, responsabilidade, coragem e visão nesta matéria em particular. Preservando esse pulsar da Cultura, estarão todos a contribuir para evitar mais assimetrias a nível nacional e para, a um nível micro, garantir a coesão territorial e o desenvolvimento harmonioso e sustentado das populações. Será nesse sensível e exigente “jogo” de equilíbrios ao nível da actuação/mediação institucional face ao que é, por “norma”/tradição, rotulado como essencial e supérfluo que se desenharão também os caminhos futuros e, assim, o fôlego do universo cultural e artístico. 

Neste mundo em suspensão, que esta interrupção constitua um momento singular, de viragem, para instaurar uma descontinuidade relativamente à vertigem imparável (e suicidária?) em que, com maior ou menor consciência, temos estado mergulhados, mas também face àquilo que, herdado do passado, já não queremos mais para a sociedade em geral e a Cultura em particular. Esse é, porventura, um dos gestos mais revolucionários que podemos conceber nos dias que correm. E vem-me à memória, como oportuna “frase batida”, o pensamento humanista de Aldous Huxley: “Experiência não é o que acontece com um homem; é o que um homem faz com o que lhe acontece.” Ainda estamos a tempo de criar uma “máquina de guerra” contra o esquecimento do humano, uma nova consciência assente num maior comprometimento com o bem-estar social e numa efectiva cidadania inclusiva, pois, em última análise, o egoísmo é sempre (exceptuando perturbações psiquiátricas) uma escolha.

Curiosamente, enquanto terminava este texto recebi uma sms de uma amiga e cúmplice das artes, Madalena Victorino, que me trouxe um sorriso e de que não resisto (que me perdoe) em transcrever um excerto paradigmático: “Precisamos da energia e empatia entre todos. Nesse sentido, vivemos um bom momento.” Apesar das reclusões e privações a que temos estado sujeitos, revejo-me nessas lúcidas palavras e encontro-me também nos versos de Gedeão: “nós, os das flores, para quem os caminhos do sonho não guardam segredos”... temos de continuar a carregar essa Primavera iniciática e fremente, essa secreta e tremenda força para fertilizar novamente a paisagem humana e encetar um esperançoso ciclo de crescimento e renovação — um novo-normal que, após o Inverno rigoroso, privilegie a “ecologia do espírito” (na linha de Gilles Lipovetsky), um amanhã com maior investimento e valorização (individuais e colectivas) não apenas da Cultura mas também da Ciência/Investigação, dos sistemas de Saúde, da Segurança, da Educação, do Ambiente. 

Como um sonho acordado: que esta “solidão” forçada nos dê um grande banho de humildade (sobre a nossa fragilidade/“pequenez”, o nosso lugar na vida colectiva, aquilo que não sabemos, o poder que imaginamos ter), que a habitual amnésia não se apodere de nós depois da tormenta e que esta nos recorde que precisamos de reaprender séria e urgentemente os valores do humano e do espírito, que sem os outros, sem estarmos juntos, isto não tem piada nenhuma.

Texto alterado a pedido do autor às 09h47

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