Há 50 anos ele teve um discurso com um final perfeito

Há 50 anos, Martin Luther King fez um discurso que ajudou a mudar a América

A maior parte dos americanos ouviu Martin Luther King discursar pela primeira vez há 50 anos em Washington, na maior manifestação em defesa da igualdade racial nos Estados Unidos. Menos de três meses depois, o Presidente Kennedy morria, assassinado a tiro. Esses dois momentos mudaram para sempre as relações raciais na América. Fomos até ao Sul, onde o racismo foi mais virulento, ver como é que uma comunidade branca elegeu um negro como James Fields, ainda antes de a América votar em Barack Obama

Quem hoje sobe os degraus do Lincoln Memorial, em Washington, pode ver onde é que Martin Luther King estava quando proclamou "I have a dream...". Uma inscrição no granito marca o lugar onde ele repetiu essas palavras uma e outra vez, como num estado de transe, a 28 de Agosto de 1963.

Mas o mais icónico discurso de King quase não aconteceu. King e os seus assessores trabalharam no texto durante uma semana e o reverendo continuou a refazer o discurso até ao último minuto, eliminando palavras e introduzindo novas frases. Na véspera do discurso, o rascunho não continha qualquer referência a um "sonho".

A maior parte dos americanos ouviu Martin Luther King discursar pela primeira vez na Marcha em Washington, a maior manifestação em defesa da igualdade racial na história dos Estados Unidos. Duzentas e cinquenta mil pessoas assistiram ao vivo, diante do Lincoln Memorial. Milhões viram-no na televisão ou ouviram-no na rádio. As três televisões que existiam na altura cobriram o discurso ao vivo, o que nunca tinha acontecido. Toda a gente esperava que o seu discurso - que só aconteceu no final, depois de uma autêntica procissão de oradores e cantores - fosse o momento decisivo da marcha. Ele lembrava que a América estava a negar direitos básicos aos seus cidadãos negros.

Mas a questão central do seu discurso era a ideia de reconciliação racial numa altura em que muitos activistas negros começavam a questionar se a não-violência pregada por King estava a ser eficaz contra um racismo profundo. Muitos deles perguntavam-se até quando é que poderiam participar num movimento ancorado no princípio da resistência não-violenta quando enfrentavam agressões e brutalidade todos os dias em lugares como Birmingham, Alabama, ou Jackson, Mississípi, ou passavam longas temporadas na prisão pelo simples facto de participarem em manifestações. No Sul americano, que lutara na Guerra Civil um século antes em defesa da escravatura e perdera, a segregação racial continuava a ser lei em 1963.

1963, um ano perigoso para se ser afro-americano

"1963 ainda era um ano perigoso para se ser afro-americano no Sul", nota Isabel Wilkerson, que já foi jornalista e é autora de The Warmth of Other Suns: The Epic Story of America"s Great Migration, (O Calor de Outros Sóis: A História Épica da Grande Migração Americana), um bestseller de 2010 sobre a migração de uma larga proporção de negros americanos do Sul para o Norte do país no período das duas guerras mundiais. "Eles viviam num mundo que é difícil as pessoas imaginarem hoje em dia. Um mundo em que era ilegal um negro e um branco jogarem damas juntos. Um mundo em que, durante boa parte do século XX, de quatro em quatro dias um afro-americano era linchado em público, quase sempre por razões infundadas", diz Wilkerson à Revista 2. "Os afro-americanos tinham de sair do passeio quando uma pessoa branca se aproximava. Nos tribunais por todo o Sul, havia uma Bíblia "negra" e uma Bíblia "branca" para as testemunhas fazerem o seu juramento judicial - até a palavra de Deus estava segregada. Havia escadarias diferentes para negros e brancos quando tinham de usar o mesmo espaço. Tudo o que se possa imaginar que podia ser separado estava separado. Muitas pessoas perderam a vida ao tentar romper esse sistema de castas. Em 1964, um ano após a Marcha em Washington, três jovens activistas dos direitos civis, dois deles brancos e um negro, foram raptados no Mississípi quando tentavam inscrever negros no recenseamento eleitoral e foram assassinados. Os seus corpos foram encontrados ao fim de 44 dias. É quase como se houvesse uma guerra não-declarada nesta região do país. É importante reconhecer que isto não aconteceu há tanto tempo quanto isso; isto aconteceu durante o tempo de vida de muitos americanos que ainda estão vivos hoje. Isto não é mais do que um abrir e fechar de olhos no longo arco da história."

Martin Luther King procurava sempre um final perfeito para os seus discursos. Uma das teorias sobre isso é que, como ele sofria constantes ameaças à sua vida, insistia num tom profético quando estava a terminar um discurso, como se estivesse a dizer as suas últimas palavras. Na véspera da Marcha em Washington, ele ponderou se deveria falar do "sonho" e se este seria um final emotivo para o seu discurso. Há meses que ele vinha falando do seu "sonho" em discursos por todo o país, defendendo a sua visão de uma coexistência racial harmoniosa. King pediu a opinião de dois dos seus assessores. Um deles, Wyatt Tee Walker, aconselhou-o a não mencionar a frase "I have a dream". Era demasiado cliché. King já a tinha usado demasiadas vezes, disse. O segundo assessor, Andrew Young, concordou. King não disse nada. Mas nessa noite alguém o ouviu repetir as mesmas palavras uma e outra vez no seu quarto de hotel, depois de toda a gente se deitar: "Eu tenho um sonho... Eu tenho um sonho... Eu tenho um sonho..."

Como a maior parte dos americanos que estavam a seguir a Marcha em Washington através da televisão, o Presidente John F. Kennedy ouviu um discurso integral de Martin Luther King pela primeira vez nesse dia. "Ele é danado de bom", terá comentado com um dos seus assistentes na Casa Branca, de acordo com o mais respeitado livro sobre esse período, Parting the Waters: America in the King Years 1954-1963 (A Separação das Águas: A América nos Anos de King 1954-1963, numa tradução literal) um dos três volumes biográficos sobre King escritos por Taylor Branch.

Kennedy tinha feito saber que era contra a realização da Marcha. O Presidente democrata tinha acabado de introduzir no Congresso uma proposta de lei para abolir a discriminação racial e, em Junho, num encontro com os líderes do movimento dos direitos civis, incluindo Martin Luther King, ele indicou que a marcha poderia comprometer o futuro dessa legislação. John Lewis, que foi o mais jovem dos oradores da marcha e esteve presente nesse encontro, lembra-se de Kennedy dizer algo como: "Se vocês trouxerem todas estas pessoas até Washington, haverá violência e caos e nunca conseguiremos que o Congresso aprove a lei dos direitos civis", comenta agora à Revista 2.

Mas quando a marcha chegou ao fim, Kennedy convidou os oradores para um encontro na Casa Branca. "Ele cumprimentou-nos um a um, à medida que entrámos na Sala Oval", recorda John Lewis, um congressista afro-americano que é o único dos oradores da marcha que sobrevive até hoje. "Ele estava radiante, como um pai orgulhoso por tudo ter corrido tão bem. Ele não parava de dizer: "Bom trabalho!"" Quando chegou a vez de Martin Luther King, Kennedy repetiu o refrão do seu discurso, "I have a dream", como um orador que reconhece uma boa frase.

Menos de três meses depois, a 22 de Novembro, Kennedy morreu, assassinado a tiro durante uma visita a Dallas, no Texas. Esses dois momentos - a Marcha em Washington e a inesperada morte do Presidente Kennedy -, ocorridos há 50 anos, fizeram de 1963 um ano extremamente consequente para a história dos direitos dos negros na América. A megamanifestação na capital americana trouxe a luta pelos direitos civis para um palco nacional - até então, ela tinha estado praticamente confinada ao Sul. O discurso de King, com a sua mensagem de não-violência, contribuiu para "educar e sensibilizar uma grande maioria da população americana", diz John Lewis. "Esse discurso continha uma mensagem de esperança, de optimismo. Ele teve a capacidade para levar as pessoas a partilhar e participar na sua visão. Provavelmente, ele livrou-nos de mais uma Guerra Civil."

Por outro lado, há quem acredite que as duas legislações históricas que puseram fim à discriminação racial nos Estados Unidos, a Lei dos Direitos Civis de 1964 (Civil Rights Act) e a Lei do Direito de Voto de 1965 (Voting Rights Act), dificilmente teriam recebido luz verde no Congresso se Kennedy não tivesse morrido tão súbita e tragicamente. "Essa é uma questão em aberto", diz Harris Wofford, de 87 anos, que foi o assistente especial do Presidente Kennedy para os direitos civis e um amigo de King. "Muitas pessoas acreditam que Kennedy estava a dar o seu melhor, mas que o Congresso ainda estava longe de o acompanhar no que diz respeito aos direitos civis. Foi o choque do seu assassinato e a habilidade de Lyndon Johnson, o seu sucessor, em passar esse testemunho que fizeram com que essas leis se tornassem realidade." Questionado sobre os efeitos da morte de Kennedy na altura, o próprio King comentou que ela tinha beneficiado os direitos civis. "Estou convencido de que se ele tivesse vivido, teria havido adiamentos constantes e tentativas para evadi-lo o tempo todo, ou torná-lo inócuo."

O voto dos negros para Kennedy

Não há muito tempo, era comum encontrar três retratos nas paredes de muitos lares afro-americanos, como uma espécie de homenagem aos homens que ajudaram os negros na sua longa marcha para a igualdade: Jesus Cristo, Martin Luther King e John F. Kennedy. "Estamos a falar de três mártires que perderam a vida em nome da liberdade", diz Isabel Wilkerson. Esse carácter sacrificial parece ter tido ressonância junto de pessoas que ainda tinham de lutar para serem aceites no seu próprio país, nota.

"A comunidade negra venerava John F. Kennedy", diz Shirley Jordan, de 63 anos, reverenda na Saint Petersburg Church, em Glen Allen, na Virgínia. "Ele tinha merecido um lugar na nossa parede. Não o pusemos lá porque ele era um tipo bem parecido. Ele nunca nos tratou com desconsideração. Ele tratou sempre Martin Luther King com dignidade. Nunca se mostrou superior ao Martin, apesar de ser o Presidente. Acho que essa é uma das razões por que a comunidade negra gostava dele. E depois, adorámos a ideia de gostar de alguém que não era parecido connosco mas parecia preocupar-se connosco." E isso era novo? "Claro que era."

Mas o lugar de John Kennedy na história dos negros americanos pode parecer discutível, sobretudo quando os frescos históricos sobre esse período e a sua presidência revelam um Presidente hesitante e relutante em agir no que diz respeito aos direitos civis. "Ele foi demasiado lento", diz John Lewis. "Acho que ele não percebeu que os fogos do descontentamento e da frustração estavam a arder. Não percebeu o que estava a acontecer em Birmingham [a cidade mais segregadora dos Estados Unidos, onde alguns dos maiores protestos e violência tiveram lugar em 1963] até as pessoas serem detidas e metidas na prisão às centenas e milhares."

Kennedy tinha sido eleito em 1960 graças ao voto dos afro-americanos. Na altura, muitos negros, como o pai de Martin Luther King, ainda eram republicanos - o partido de Lincoln, que abolira a escravatura. Uma das coisas que solidificaram o voto negro em torno do candidato democrata John Kennedy foi o seu telefonema para a mulher de Martin Luther King, Coretta, num momento crucial da campanha depois de o seu marido ter sido preso num protesto em Atlanta, na Georgia, e transferido para uma prisão de alta segurança onde muitos temiam que ele fosse morto. A reacção de Richard Nixon, o rival de Kennedy, foi "não comento". Kennedy ligou para Coretta King oferecendo ajuda no que fosse preciso. A sua campanha tratou de publicitar o gesto num panfleto que foi distribuído aos milhões nas igrejas negras em vésperas da eleição. Kennedy ganhou o voto negro por uma larga margem de 40%.

King agradeceu o gesto publicamente, mas nunca apoiou a sua campanha eleitoral. Em Junho de 1960, quando ele e Kennedy se encontraram pela primeira vez, em privado, King terá comentado que o encontro tinha sido agradável mas que faltava a Kennedy um "entendimento profundo" da questão dos direitos civis. Kennedy, o candidato, tinha feito promessas durante a campanha dirigidas ao eleitorado afro-americano, como a de que iria assinar uma ordem executiva para acabar com a discriminação na habitação social subsidiada pelo Governo, mas logo após a sua eleição Kennedy, o Presidente, mandou o recado de que não iria perseguir uma nova lei dos direitos civis. E nunca chegou a assinar a tal ordem executiva.

A questão racial não era uma prioridade para um Presidente que estava a tentar assegurar as rédeas da Guerra Fria. Ao ler Parting the Waters, o respeitado volume de Taylor Branch, fica-se com a impressão de que Kennedy estava constantemente concentrado em questões de política externa e que os protestos e distúrbios que estavam a incendiar o Sul eram um inconveniente que insistia em intrometer-se entre ele e a sua agenda, gerado por King e o movimento dos direitos civis.

Mas ao mesmo tempo esses acontecimentos no Sul tinham despertado o interesse dos media internacionais. Quando o comissário da polícia de Birmingham, Eugene "Bull" Connor, ordenou que os polícias soltassem os cães e os bombeiros apontassem as mangueiras aos jovens manifestantes que ocuparam as ruas da cidade em Maio de 1963, as câmaras de televisão estavam lá. Essas imagens, que foram divulgadas pelo mundo fora, começaram a ter um impacto negativo na imagem externa dos Estados Unidos - e isso, sim, era algo que preocupava o Presidente americano. A partir de 1949, a União Soviética começara a usar a questão racial nos Estados Unidos como um tema central da sua propaganda antiamericana.

"Se Kennedy teve um momento de tomada de consciência pessoal, ela deveu-se a esse tipo de pressões", diz à Revista 2 Mary Dudziak, autora do livro Cold War Civil Rights (de 2000, que, traduzido, seria A Guerra Fria dos Direitos Civis), que analisa o impacto da Guerra Fria na reforma dos direitos civis. "Parte da pressão tinha a ver com o impacto nas relações externas, algo que preocupava Kennedy desde o início."

O que é certo é que em 1963 Kennedy tornou-se um defensor muito mais determinado dos direitos dos negros e fez um discurso na televisão em que se referiu à igualdade de direitos e oportunidades para os negros como a grande questão moral do momento. "Acho que ele foi o primeiro Presidente a dizer isso", sintetiza John Lewis.

A frase que toda a gente fixou

Charles Booth, um reverendo em Columbus, Ohio, tinha 16 anos quando Kennedy foi assassinado. "Lembro-me desse dia muito bem. Na nossa comunidade e na nossa casa em particular, nós passamos o dia colados ao televisor porque não queríamos acreditar. Todos os afro-americanos que eu conhecia na altura estavam estupefactos e tristes pelo acontecimento. Nas filmagens feitas na altura vê-se afro-americanos a chorar quando Kennedy morreu. Não se vê muitas imagens de brancos a chorar quando King foi morto", cinco anos depois, nota Charles Booth.

"Quando eles foram mortos, algo morreu em todos nós", diz John Lewis. "Algo morreu neste país."

"Esses assassinatos na década de 1960 foram um golpe duro para as pessoas que tinham lutado arduamente para serem livres no seu próprio país", diz Isabel Wilkerson. "Eles pareciam sugerir que elas nunca seriam livres porque toda a gente que tinha tentado guiá-las nessa direcção tinha sido derrubada."

Kennedy e King não eram amigos, mas respeitavam-se mutuamente. "Um e outro proferiram alguma da oratória americana mais memorável do período do pós-guerra", escreve Taylor Branch em Parting the Waters. Parece difícil imaginar um sem o outro, como se houvesse um efeito de espelho. "É verdade. É como se fossem inseparáveis", diz a reverenda Shirley Jordan. "É como o Lone Ranger e Tonto. Ou Batman e Robin."

Charles Booth acredita que o assassinato de King contribuiu para o converter no herói nacional que ele é hoje e que "ele nunca teria sido se tivesse vivido mais tempo". "Quando ele foi morto, já o Presidente Lyndon Johnson tinha deixado de o convidar para a Casa Branca. As universidades tinham deixado de o convidar para falar em eventos. Os outros líderes do establishment negro tinham-se distanciado dele. À época da sua morte, ele tinha-se tornado imensamente impopular por causa da sua oposição à guerra do Vietname." O reverendo Jesse Jackson chegou a dizer que, à altura da sua morte, Martin Luther King era o homem mais odiado na América.

"Apesar de Martin Luther King ser um herói nos Estados Unidos hoje em dia, nem sempre ele foi visto dessa forma", reitera Isabel Wilkerson. "Muitos americanos sentiam ressentimento em relação a ele, em particular sulistas brancos. Não deixa de ser curioso que para sucessivas gerações ele tenha assumido um papel que na altura em que ele era vivo não correspondia à forma como era visto. Ele disse muitas, muitas coisas ao longo do seu trajecto de liderança dos direitos civis, mas foi uma frase, "I have a dream...", que se tornou no símbolo de tudo aquilo que representava. Não por acaso, esse discurso é centrado num sonho e não numa realidade. Ele mantém as pessoas concentradas em algo longínquo que pode acontecer mas ainda não aconteceu. Como se sugerisse que não é preciso ir mais longe, porque o sonho é suficiente. É curioso que essa tenha sido a frase em que toda a gente se fixou."

Disseram-lhe: “Nunca votei numa pessoa de cor.” E depois votaram nele

É no Sul que os pecados raciais da América deixaram memórias mais traumáticas. Martin Luther King marchou aqui, foi preso aqui, foi morto aqui. Há uns anos, se dissessem que James Fields, um negro, iria ser eleito pela mesma comunidade que em tempos só admitia que ele entrasse pela porta do fundo, a reacção poderia ter sido: em que século? Em que dimensão?

Onde quer que vá, James Fields é a mais popular pessoa na sala. Toda a gente em Cullman, uma pacata cidadezinha do Alabama, sabe quem ele é, o que quer dizer que quando está num restaurante Fields passa boa parte do tempo a levantar-se da mesa e a apertar vigorosamente a mão a mais um criador de galinhas proclamando: Meu bom amigo!”

Ele conhece cada pessoa em cada mesa, sabe quem torce pelos Crimson Tide, a equipa de futebol da Universidade do Alabama, sabe quem vende vinho de contrabando e sabe as fortunas que se escondem por detrás de aparências modestas (Aquele homem que esteve aqui a falar comigo agora mesmo? Ele vale 100 milhões.”). Ele sabe que o jovem que está na caixa a receber o dinheiro dos clientes pelo jantar tem uma deficiência mental e nem sequer recebe um salário. Ao final da noite — que nesta terra atrás do sol posto é o mesmo que dizer às nove da noite —, os empregados do restaurante estão sentados à mesa de James Fields, tentando adivinhar que ex-colega é que ele viu recentemente num funeral. (Ela deve estar a fazer algum tipo de dieta radical porque perdeu imenso peso.”)

Quando James Fields, um pastor da Igreja Metodista, anda por Cullman na sua carrinha preta de caixa aberta, ele está sempre a buzinar a alguém, a acenar a alguém, a abrir a janela para falar com alguém. Amigos e conhecidos aparecem sem aviso na sua casa para dez dedos de conversa que quase sempre incluem política. Uma refeição sossegada, sem constantes interrupções, com James Fields implica muitas vezes conduzir uma hora para fora de Cullman e acabar num restaurante onde existem baldes de amendoins nas mesas e as pessoas deitam as cascas para o chão. Como um amigo de James Fields, o médico George Lyrene, explicava recentemente num restaurante de Cullman onde se encontram todas as semanas para rezar (nós damos as graças durante dois minutos e passamos o resto do tempo a falar de política”, foi como Fields descreveu o ritual), não há uma pessoa neste restaurante que não gostasse de ser vista a apertar a mão do James”. Toda a gente no restaurante é branca, à excepção de James Fields, que é afro-americano. George continua: Nos dias de hoje, o preconceito racial é uma anomalia no Sul dos Estados Unidos. Existe um certo orgulho em acolher um negro só porque ele é negro. Tradução: vejam como tratamos bem os negros. Não sei se isso é racista. Mas faz parte do atractivo de James.”

Fields antes de Obama

Antes de a eleição presidencial de Barack Obama redimir os pecados raciais da América branca, houve James C. Fields. É por isso que me chateia que ele nunca me tenha ligado”, desabafa Fields, 58 anos, um homem alto e robusto com uma coroa de cabelo grisalho. Mas a autocomiseração cede lugar à auto-irrisão, uma estratégia que muitos comediantes usam para pôr o público do seu lado. Vá lá, Senhor Presidente, ligue aqui ao homem negro, a estrela rock do Alabama. Eu fiz-lhe imensos elogios e as pessoas estão a compará-lo comigo”, diz James. Mas nós fomos os primeiros. Se o Presidente tivesse ganho primeiro, podiam dizer: ‘As pessoas estão a mudar por causa do efeito Obama.’ Mas as pessoas estavam a mudar antes disso.”

Em 2007, quando o lugar de representante (deputado) do distrito de Cullman ficou subitamente vago na assembleia estadual, James Fields anunciou a sua candidatura, tornando-se o primeiro negro a concorrer ao lugar. No Sul, os políticos afro-americanos são quase sempre eleitos em distritos onde existe uma maioria substancial de negros. Mas em Cullman, um distrito com 80 mil habitantes, 97% da população é branca. Fields ouviu várias pessoas dizerem-lhe que a sua eleição era uma impossibilidade. Não só Fields era afro-americano, mas também um candidato do Partido Democrata numa parte conservadora da América onde isso é anátema. (Fields: Uma vez perguntaram-me: ‘Como é que você pode ser cristão e democrata?’”) Em Janeiro de 2008, Fields ganhou com quase 60% dos votos.

Lembra-se da quantidade de pessoas que estavam lá na noite em que o Presidente ganhou?”, pergunta James Fields. Em Cullman, foi a mesma coisa, só que numa escala menor. Havia gente em todo o lado. Havia tipos a dançar na rua. Estavam todos nas nuvens.” A eleição de Fields não se tornou um caso nacional — capa da revista do New York Times, reportagens na televisão francesa — só por ter acontecido num distrito esmagadoramente branco. Ela teve lugar numa comunidade que em tempos só admitia que James Fields entrasse pela porta do fundo e que lhe recusava acesso aos provadores de roupa nas lojas. Ela teve lugar num estado, o Alabama, que durante todo o século XX manteve inalterada a sua Constituição, apesar do racismo virulento do texto lembrar a toda a gente que a sua principal finalidade era a exclusão e subordinação dos negros. Ela teve lugar num estado onde o Ku Klux Klan foi mais violento. Ela teve lugar no estado onde Rosa Parks recusou ceder o seu lugar no autocarro a um homem branco e onde Martin Luther King foi preso durante a sua campanha de não-violência em defesa da igualdade racial.

Quando o Presidente democrata Lyndon B. Johnson assinou a Lei dos Direitos Civis em 1964, a histórica legislação antidiscriminatória, ele antecipou que isso teria consequências para o seu partido. Perdemos o Sul por uma geração”, terá dito. Duas gerações mais tarde, o Sul ainda é republicano.

O Sul é onde os ideais da democracia se confrontaram com as realidades raciais”, resume Tracy Thompson, uma ex-jornalista do Washington Post que esta Primavera publicou The New Mind of the South, um livro sobre o novo Sul” com a intenção de derrubar alguns dos estereótipos com que o resto da América olha para aquela região. E ainda temos dificuldades em lidar com a questão racial. Mas estamos a fazê-lo de uma forma mais honesta do que muitas outras pessoas que se consideram moralmente superiores aos sulistas”, diz Thompson, notando que existem grupos de reconciliação racial por todo o Sul.

A memória de um letreiro

Parece incrível que uma cidadezinha sem centro que nem aparece no mapa dos Estados Unidos carregue um fardo tão pesado, mas em termos de passado racial Cullman tem uma reputação tão negativa que chega a ser condenada noutras partes do Alabama.

Cullman ganhou notoriedade por ser uma sundown town”, uma comunidade deliberadamente e inteiramente branca. A expressão tem a sua origem em letreiros intimidatórios que eram afixados nessas povoações proibindo a presença de pessoas de cor depois do pôr do Sol (sundown”). Segundo um livro sobre o Alabama publicado no final dos anos 1920, o aviso de Cullman dizia: Nigger, don’t let the sun go down on you in this town.” (Preto, não deixes o Sol pôr-se enquanto estiveres nesta vila.”) Ninguém sabe exactamente quando é que o letreiro foi visto (Não sei. Só me lembro de a história ser partilhada connosco quando éramos pequenos”, diz James Fields), mas ainda hoje há afro-americanos que recusam parar em Cullman quando fazem a Interstate 65, a auto-estrada que rasga o Alabama de norte a sul. A sua memória continua tão viva na comunidade que dir-se-ia que só foi retirado na semana passada”, diz Mell Johnson, uma life coach (treinadora motivacional que ajuda os clientes a atingir objectivos específicos) que Fields apresenta como a directora da sua próxima campanha eleitoral.

A primeira de muitas referências ao famoso letreiro” surge menos de uma hora depois de chegarmos a Cullman. O desconforto que o assunto provoca é palpável na forma como as pessoas baixam a voz quando falam dele ou vigiam a linguagem. Isso não passam de rumores”, garante Rob Werner, amigo de James Fields e dono da loja Werner’s Trading Company (Onde mais é que se pode comprar uma garrafa de vinho e um soutien?”, resume Rob, que é dotado de um sentido de humor livre, sem pára-quedas). O letreiro foi afixado durante um dia, não mais do que isso. Mas foi o suficiente para arruinar esta comunidade.” Só há mais uma pessoa sentada à mesma mesa do All Steak Restaurant que pode confirmar ou contrariar a versão de Rob Werner, mas James Fields mantém-se calado. Pouco depois, na loja de Rob, aproveitando um momento em que o amigo se afasta para atender um cliente, James confidencia: O Rob é um bom tipo e eu adoro-o. Mas o letreiro existiu mesmo.”

Que James tenha permanecido em estado neutro enquanto Rob falava, em vez de intervir com a autoridade que alguns esperariam neste tipo de discussão, parece indicar que ele tem pouca vontade em abordar questões raciais. Como Obama, ele percebeu que para ganhar eleições teria de evitar brandir o eleitorado com ressentimentos raciais e deixar que a sua história pessoal fosse mais relevante do que a sua cor de pele. Como Obama, a sua vitória eleitoral encheu brancos americanos de orgulho próprio e livrou-os da má consciência racial. Como podiam ser racistas se tinham acabado de eleger um negro? Toda a gente sentiu um prazer enorme”, lembra Rob Werner. Finalmente, podemos meter aquele maldito letreiro para trás das costas.”

Tenho a certeza de que houve muitos brancos que pensaram: ‘Fomos absolvidos, finalmente. Já não nos podem apontar o dedo. Temos um representante negro’”, diz James Fields. Eu disse às pessoas de Cullman: ‘Vocês fizeram uma coisa de que podem estar orgulhosos. Vocês elegeram um pobre miúdo afro-americano que foi criado aqui, que arranjou um bom emprego aqui, que vocês apoiaram e que ganhou. Não me estou a autocongratular, vocês é que devem autocongratular-se.’”

Quando ele foi eleito, alguns dos seus colegas legisladores na assembleia estadual do Alabama propuseram publicar um anúncio oficial reconhecendo a audácia da esperança em Cullman”, diz Fields. E eu disse: ‘Não, não! Não façam isso. Mais atenção não, obrigada.’ Cheguei a ir a sítios onde as pessoas gritavam depois de anunciarem o meu nome.”

"Lembra-se de mim?"

James Fields vive em Colony, meia hora a sul de Cullman, numa casa modesta com um charco em frente que não deixa de ser uma das mais proeminentes num sertão montanhoso pontuado por habitações móveis ou pouco cuidadas. Colony parece confirmar a existência de fronteiras raciais em Cullman. Que outro motivo poderia haver para que um gueto despontasse no meio do bosque? Aqui é onde eles puseram as pessoas negras”, diz Fields.

Não há lojas em Colony, onde se chega por uma estrada de gravilha, mas existem quatro igrejas numa comunidade de pouco mais de 250 pessoas. A mãe de James Fields vive em Colony, os seus irmãos vivem em Colony, os seus netos vivem em Colony, o ex-marido da sua segunda mulher, Willie Mae, vive em Colony. Quase todos os moradores são negros, à excepção do ocasionais brancos trazidos por um casamento interracial.

O cemitério de Colony, onde o nome de James Fields aparece inscrito na lápide ao lado do de Willie Mae, que morreu subitamente em 1998, na sequência de um AVC, inclui algumas sepulturas não identificadas — essencialmente, um monte de pedras empilhadas umas sobre as outras — que se acredita serem de escravos. Fields não sabe se alguns dos seus antepassados foram escravos. No auge da sua popularidade, ele foi visitado por um homem desconhecido que fez uma apresentação da sua história genealógica, mas o que quer que tenha dito perdeu-se na memória de Fields. Não lhe conseguiria dizer, mesmo que a minha vida dependesse disso.”

Quando em 1963 Martin Luther King autorizou que crianças negras participassem nos protestos contra a segregação racial em Birmingham, Fields, que ainda não tinha nove anos, não tinha como saber que o futuro racial do país estava a ser posto à prova ali tão perto, a apenas 60 quilómetros de Colony. Só mais tarde é que vi as fotografias em livros ou um clip televisivo quando já andava no liceu. Quem me dera ter sido um dos que caminharam com o dr. King, mas eu não estava lá. Quando as pessoas estavam a falar do movimento dos direitos civis, eu ainda estava em Colony a colher feijão-manteiga, a apanhar algodão, milho ou batata doce, tentando sobreviver.”

Antes de ganhar eleições e de ser um pastor metodista, James Fields trabalhou no gabinete de emprego do estado do Alabama, onde ajudou gerações de brancos desempregados e desanimados a encontrar trabalho. Subitamente, eu estava numa posição em que essas pessoas tinham de se sentar à minha frente, olhar para a minha cara feia e responder a perguntas que preferiam não responder. Mas eu representava o Governo, eu era o que havia entre elas e o seu objectivo. Só não contavam que eu fosse tão gentil com elas.”

Anos mais tarde, quando James Fields andava em campanha eleitoral por Cullman, algumas dessas pessoas vieram ter com ele, dizendo Não se lembra de mim, pois não? Você arranjou-me um emprego.” Ou: O meu primo falou-me de si. Você ajudou-o. Por isso, agora nós vamos ajudá-lo a si.” Um homem disse-lhe: Nunca votei numa pessoa de cor.” Mas dessa vez, ele votou”, garante Fields.

2008 não foi um erro

O James é conhecido nesta comunidade por fazer coisas boas por Cullman County”, diz Bobby Bowden, um republicano que se identifica como amigo de Fields. Como ajudar os pobres.” Ou ajudar qualquer pessoa”, continua George Lyrene. É provável que ele tenha feito coisas que nós nem sequer sabemos. Quando o James estava no cargo, o seu telemóvel era acessível a toda a gente.” A sua eleição em 2008 foi uma surpresa? Bobby: Não. De maneira nenhuma.” George: O James fez tanta coisa por tanta gente. No fundo, tudo se resume a isso.”

Mas depois houve a eleição de 2010. Quando o seu rival republicano convidou um ex-treinador de futebol da Universidade de Auburn para um evento de campanha, James Fields pressentiu o pior (tem de perceber uma coisa: no Alabama, futebol é Deus!”, explica). Ainda hoje, se falar com pessoas em Cullman, elas dir-lhe-ão: ‘Estávamos convencidos de que o James ia ganhar, por isso nem votámos’”, diz Fields. Perdi a conta ao número de pessoas que me disseram: ‘Se eu soubesse.’”

Ao contrário do que acontece com a generalidade dos políticos, o desempenho político de Fields suscita elogios. O eleitorado não o votou para fora da assembleia estadual por estar presumivelmente desapontado com o seu curto mandato. Fields foi apanhado na rede de uma vaga ideológica anti-Obama que resultou na capitulação dos democratas em eleições locais por todo o país — uma derrota que o Presidente assumiu pessoalmente, dizendo que tinha levado uma tareia”.

Quando perguntamos a Fields, habitualmente tão cauteloso, se a sua derrota em 2010 teve alguma coisa que ver com preconceitos raciais, ele diz: Pode ter a certeza. Não me importa o que dizem, essas corridas por todo o país tiveram que ver com raça, com o ódio que foi alimentado contra este Presidente.”

Os ultraconservadores do Tea Party insistiram na ideia infundada de que Obama não era um Presidente legítimo porque não tinha nascido nos Estados Unidos, uma noção que nunca foi refutada pelo Partido Republicano. Houve uma pessoa que me disse: ‘Não posso votar em ti desta vez porque Obama não é um cidadão legítimo.’ Faz imenso sentido, não faz?”, pergunta James Fields.

A campanha do seu rival enviou panfletos por correio notando que Fields tinha ido a Washington para assistir à tomada de posse de Obama à conta do dinheiro dos contribuintes. E James diz que o Partido Republicano fez tudo para retratá-lo como um negro” e foi bem-sucedido — ateando o racismo latente que subsiste nas presunções que todos os dias o povo branco faz sobre a minoria negra. Em 2013, o racismo nos Estados Unidos não tem cara de ogre — não há governadores sulistas plantados à porta de uma universidade para impedir a entrada a estudantes negros. Em 2013, o racismo nos Estados Unidos parece-se com George Zimmerman, o vigilante voluntário de um condomínio na Florida que matou um adolescente afro-americano, Trayvon Martin, por presumir que ele devia ser um assaltante.

Durante o seu mandato como deputado, Fields introduziu uma lei para aliviar a sobrecarga do sistema prisional através da possibilidade de reavaliar alguns casos com base em factores mitigantes. Quase todas as pessoas que defenderam a legislação em audições parlamentares foram brancas, mas James Fields não se livrou das insinuações de tribalismo durante a campanha de 2010. Num dos debates eleitorais, um homem perguntou a Fields porque é que ele queria libertar o criminoso — um negro — que matara o seu filho há 30 anos. O homem tinha sido trazido pelo rival republicano de Fields com o intuito de criar uma impressão no eleitorado: Vocês sabem que o James Fields é negro. Agora ele está a tentar libertar os reclusos que, imaginem só, são todos negros.”

Mas o pior de tudo foi disputar a corrida eleitoral e ser derrotado por um homem que James Fields considerava um dos seus melhores amigos. Mac Buttram, um pastor metodista, foi o mentor de Fields quando ele próprio tomou a decisão de tornar-se pastor. Quando a segunda mulher de Fields morreu, Buttram foi um dos pastores que prestaram as exéquias. Quando Fields casou pela terceira vez com uma viúva chamada Yvette, Buttram presidiu à cerimónia.

Os dois fazem parte do grupo de cinco amigos (incluindo George Lyrene e Rob Werner, um católico solitário no meio de metodistas) que todas as sextas-feiras, às seis e meia da manhã, começam o dia num restaurante de Cullman dando as mãos e agradecendo a Deus, enquanto tomam o pequeno-almoço.

Quando Mac Buttram anunciou que ia concorrer ao lugar de James Fields, o resto do grupo procurou convencê-lo a desistir e não deixou de apoiar Fields.

Bobby Bowden, que em tempos fez parte do grupo, explica: A decisão do Mac não teve nada de pessoal. Se o pai do Mac fosse democrata, o Mac teria competido contra ele.” Pausa. Mas se eu me meter na pele do James, percebo que seja difícil separar isso.”

No dia anterior, quando Rob se referiu ao assunto garantindo que Mac e James continuam amigos, apesar de ter sido um pouco delicado no princípio”, Fields, mais uma vez, não o contrariou. Que ele continue a encontrar-se semanalmente com Mac, e a segurar a sua mão enquanto o grupo reza, parece provar uma de duas coisas: ou a sua extraordinária incapacidade para reter rancores; ou a sua consciência aguda de que ser o afro-americano pioneiro em quase tudo aquilo que faz implica dar o peito às balas.

Deus quer que amemos o nosso inimigo apesar do mal que possa ter causado”, diz James Fields no domingo seguinte, durante o seu sermão na pequena igreja de St. James United Methodist, em Irondale, um subúrbio de Birmingham.

Quando Mac Buttram o informou que iria entrar na corrida eleitoral, ele não conseguiu apontar uma única coisa que Fields tivesse feito de errado durante o seu mandato, mas disse que achava que podia fazer um melhor trabalho. O que eu senti foi que ele me estava a dizer que, sendo este um distrito branco, eu não tinha nada que servir como seu representante — deveria ser alguém branco.”

Na noite anterior, na sua casa em Colony, sem mais ninguém à volta, James Fields admite que se sente tentado a deixar o grupo. Muitas sextas-feiras de manhã, quando me levanto, não sinto vontade nenhuma de ir e não vou. Foi um alívio no outro dia saber que ele não iria estar lá nesta sexta-feira. Mas ao mesmo tempo gostava que você o tivesse visto. Ele é um tipo e tanto. É arrogante como o diabo.”

Por vezes, James Fields tem a sensação de viver entre dois mundos, um branco (Cullman), outro negro (Colony). É quase como mudar de roupa, trocar as calças de ganga e a T-shirt pelo fato e gravata para não destoarmos do resto das pessoas. Mas às vezes dou comigo a pensar: ‘O que fazes aqui?’ Estou a olhar em volta a ver se vejo outros afro-americanos e não há nenhum.”

Algumas pessoas não escondem a sua surpresa quando conhecem James pessoalmente depois de um primeiro contacto telefónico. Pensei que era branco. Por causa da forma como soou, quando falámos ao telefone”, dizem. O que faz James questionar: A que é que soa um branco?”

Ele admite que durante a sua campanha eleitoral teve muitas vezes a consciência de estar a desempenhar o papel que os eleitores brancos esperavam dele, o que por vezes implicou neutralizar parte da sua identidade — a sua identidade negra, precisamente.

Mas de todas as vezes concluí que se eu pudesse, apesar de tudo, ajudar as pessoas na minha comunidade — pessoas pobres, não somente afro-americanos — isso teria valido a pena. Senti isso tantas vezes. Foi uma das coisas mais difíceis de lidar, para mim.”

James Fields está a preparar o seu regresso à política activa no próximo ano. Embora esteja a reservar o anúncio formal para Novembro, o seu plano é candidatar-se a vice-governador do estado, o que, a confirmar-se, irá testar as águas raciais do Alabama num plano mais ambicioso. Ele já tem uma mensagem pronta para entregar ao eleitorado: Isto é uma oportunidade para provarem que o que fizeram em 2008 não foi um erro.” Pode ser que Obama lhe ligue finalmente.