António Costa falhou maioria absoluta no “melhor contexto” possível

Estudo do ICS sobre o comportamento eleitoral em 2019 mostra que os portugueses se identificam cada vez menos com os partidos, deixando espaço para que o voto seja mais determinado por factores conjunturais. Mas mesmo com uma situação económica favorável e com uma popularidade muito maior do que o principal adversário, o líder do PS não alcançou a maioria absoluta.

Costa gozava de uma popularidade muito maior que Rui Rio
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Costa gozava de uma popularidade muito maior que Rui Rio DR

Os portugueses identificam-se cada vez menos com um partido político, dando espaço a que a decisão quanto ao voto em eleições legislativas se faça mais por factores conjunturais, como o contexto económico ou a popularidade dos líderes partidários. As eleições legislativas de 2019 comprovaram essa realidade, mas deixaram uma incógnita por resolver: se a maioria dos portugueses tinha uma percepção positiva da situação económica e se a popularidade de António Costa era bastante superior à de Rui Rio, porque é que o PS não teve maioria absoluta?

“Era o melhor contexto para uma maioria absoluta do PS que nunca veio a acontecer”, notou Marina Costa Lobo, na apresentação do estudo sobre o comportamento eleitoral dos portugueses, coordenado por uma equipa do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS/IUL) liderada pela investigadora. Apresentado esta quinta-feira, o estudo, com base em inquéritos realizados entre 12 de Outubro e 19 de Dezembro de 2019, não responde àquela questão sobre o resultado do PS de Costa, mas a parte relativa ao papel da economia e dos líderes nessas eleições deixa algumas pistas.

Uma delas é a forma como a popularidade dos líderes dos dois maiores partidos se repartia: embora António Costa fosse bastante mais popular que Rui Rio (5,9 pontos contra 3,8), Costa era menos popular entre os votantes do PS em 2019 do que era em 2015. Pelo contrário, tornou-se mais popular entre votantes do BE, do PCP e até de direita de 2015 para 2019. Já Rio era bastante menos popular do que Passos Coelho quatro anos antes, mas era mais popular à esquerda em 2019 do que Passos em 2015.

“Os líderes foram, nesta eleição de 2019, mais importantes do que economia para explicar o voto” dos eleitores sem identificação partidária, sustentou Marina Costa Lobo.

Os inquéritos realizados pela GfK Metris após as legislativas, com 1500 entrevistas validadas, permitiram fazer diferentes análises sobre o comportamento eleitoral dos portugueses, não só em relação às últimas eleições mas comparando até dados de 2002, ano em que se realizou o primeiro trabalho do género.

Uma das conclusões surpreendentes de Marina Costa é a diluição da identificação partidária dos portugueses nos últimos 18 anos. “Enquanto na primeira década de 2000, 63% dos inquiridos afirmavam ter uma simpatia partidária, este valor baixa para 43%” na segunda década do século. "Em 2019, apenas 50% do eleitorado afirma ter uma simpatia partidária”, nota. Ora, se a identificação partidária “é a principal âncora de estabilização do voto”, a falta dela abre espaço para novas realidades. E foi o que aconteceu nas últimas eleições.

As bases sociais dos partidos

Ainda assim, Pedro Magalhães identificou algumas características das bases sociais dos partidos portugueses, numa leitura comparada dos resultados obtidos entre 2002 e 2019. “Apesar de difusas, os partidos portugueses têm bases sociais identificáveis”, escreve o investigador do ICS. À esquerda, o BE atrai sobretudo jovens, com baixa religiosidade e altos níveis de instrução e de rendimento, enquanto a CDU é mais popular entre os mais velhos e de baixa religiosidade, mas é heterogénea do ponto de vista da instrução e de rendimento. Já o PS atrai um eleitorado mais envelhecido e menos instruído, sendo heterogéneo a nível religioso.

À direita, notou que existe uma forte e estável implantação junto do eleitorado mais religioso, mas também que os partidos deste ponto do espectro entraram em perda junto dos mais velhos a partir de 2011: “É difícil não relacionar isso com a governação entre 2011 e 2015 e os efeitos das politicas sobre os pensionistas”, disse Pedro Magalhães.

A análise revela também que a abstenção entre as mulheres e os mais pobres tem vindo a acentuar-se desde 2011 e que, quanto mais jovens são os eleitores, maior é a abstenção (embora essa tendência seja mais forte numas eleições do que em outras).