Annus horribilis II? A rainha Isabel II vai reflectir sobre outro ano difícil

O marido perdeu a carta por se envolver num acidente de viação, os netos desentenderam-se publicamente, e o filho André teve de abdicar das funções reais por se ver nas malhas do escândalo de abusos sexuais de Jeffrey Epstein.

Rainha Elizabeth II
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Quando a rainha Isabel II do Reino Unido fizer o seu discurso de dia de Natal à nação, encerra um dos anos mais difíceis do seu longo reinado.

Nos últimos 12 meses, o marido recebeu um aviso da polícia por ter estado envolvido num acidente, os netos William e Harry desentenderam-se publicamente e o terceiro filho, André, ficou ainda mais emaranhado no escândalo sobre a sua ligação a Jeffrey Epstein, o financeiro americano caído em desgraça por cometer abusos sexuais.

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A rainha Isabel II, o príncipe Carlos, o neto príncipe William e o príncipe George, a fazer um pudim de Natal no Palácio de Buckingham CHRIS JACKSON/EPA

“Pior não podia ser”, disse à Reuters a biógrafa real Penny Junor.

Em 1992, quando a rainha falou em annus horribilis, referia-se ao colapso dos casamentos de três dos seus filhos – incluindo o do príncipe Carlos, o herdeiro, casado com a princesa Diana – e o incêndio que danificou seriamente o seu castelo de Windsor. “Obviamente, ela não vai usar a mesma frase”, diz Junor, “mas suspeito que em muitos aspectos este ano foi pior”.

Em Janeiro, o marido de 98 anos de Isabel I, Filipe, esteve envolvido num acidente em Sandringham, a propriedade da família no leste de Inglaterra. Teve que abdicar da sua carta de condução depois de a polícia lhe ter dado um aviso por conduzir sem cinto de segurança.

O neto Herry e a sua mulher Americana, Meghan, enfrentaram histórias cada vez mais hostis na imprensa, culminando com um processo aberto pelo casal contra contra uma série de tablóides. Harry também disse que ele e o irmão se tinham afastado, sem dar pormenores.

A própria rainha envolveu-se num imbróglio político devido ao “Brexit”, a saída do Reino Unido da União Europeia, ao suspender o Parlamento em Setembro a pedido do primeiro-ministro Boris Johnson, o que foi considerado inconstitucional pela mais alta instância judicial do país.

Mas a maior carga negativa foi provocada pela ligação de André a Epstein, e às acusações de que o príncipe teve relações sexuais com uma adolescente de 17 anos.

A entrevista do filho da rainha deu à BBC em Novembro, negando a acusação e ter tido qualquer comportamento impróprio, foi considerado pelos media britânicos como um desastre, o que levou a afastar-se da vida pública.

Porém, o ano pode não se saldar num completo desastre.

“A maior parte das pessoas vão olhar para 2019 como um ano não muito bom para a instituição monárquica, mas a rainha sai-se bastante bem”, diz Dickie Arbiter, secretário de imprensa da rainha de 1988 a 2000. “A monarquia evoluiu ao longo de mil anos. Teve muita coisa contra ela, mas sobreviveu. Sobreviveu a 1992 e sobreviveu à abdicação [de Eduardo VIII] em 1936, e vai sobreviver a 2019”.

Alguns dizem mesmo que a família pode, eventualmente, emergir mais forte – e que os traumas deste ano podem criar as fundações para uma mudança para uma família real com menos membros, que é um velho desejo do futuro rei, o príncipe Carlos.

O herdeiro foi uma peça fundamental para o afastamento de André, que efectivamente foi despedido do seu emprego, diz o historiador especializado em família real Robert Lacey.

“De alguma forma, é uma tragédia, mas é uma mais valia ver Carlos a ter um papel positive nos acontecimentos”, acrescenta Lacey, que foi consultor na popular série da Netfix The Crown. “Ao fim de 20 anos, Carlos está finalmente a conseguir impor a sua vontade”.

Para assinalar os 50 anos de reinado de Isabel II, em 2002, mais de uma dezena de membros da família real apareceram na varanda do Palácio de Buckingham. Uma década depois, estavam lá apenas a rainha, o marido, Carlos e a mulher Camila, e os filhos deste, William, com a mulher Kate, e Harry.

Para Lacey, se André dominou as notícias nos jornais e nos noticiários, ofuscando mesmo a dado momento as recentes eleições legislativas, a decisão do Supremo Tribunal em Setembro teve mais significado, já que provavelmente proclamou o fim das poucas prerrogativas que restavam à monarquia e questionando o seu papel constitucional no futuro.

“Pode ter reduzido o monarca a um papel essencialmente cerimonial”, diz Lacey.

“Este inédito envolvimento do Supremo Tribunal não questiona a existência da monarquia – por enquanto. Mas se certas decisões e prerrogativas vão passar a ser controladas, ou retiradas, porque razão tem o primeiro-ministro que continuar a ir falar semanalmente com a rainha?”, questiona o especialista.

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A família real britânica poderá até sair mais forte da crise de 2019 Paul Grover/REUTERS

Já se viu que vai haver muito que conversar à mesa de Natal da família real – que se chamam a si próprios A Firma -, que se reúne em Sandringham na semana que vem.

Uma das pessoas com cujo apoio podem contar é o arcebispo de Cantuária, Justin Welby, líder espiritual de 80 milhões de anglicanos. “Penso que não podemos esperar que eles sejam santos sobre-humanos porque ninguém é assim”, disse numa entrevista à The Big Issue, uma revista que ajuda os sem-abrigo.

“Todos cometem erros, todos são humanos. Não faço comentários sobre os membros da família real, mas posso dizer que estou abismado com a dádiva deles a este país”.