O príncipe Carlos faz 70 anos: o paciente inglês

O príncipe de Gales celebra esta semana o seu 70.º aniversário. À medida que a rainha Isabel II foi caminhando para o mais longo reinado da história da monarquia britânica, o herdeiro da coroa bateu também o recorde da maior espera para subir ao trono. Depois de um percurso marcado por opiniões controversas e pelos escândalos de infidelidade, Carlos garante que será um monarca isento.

Foto
O filho mais velho de Isabel II tornou-se herdeiro da coroa aos três anos, após a morte do seu avô materno, o rei Jorge VI Evan Barnes/Reuters

Em toda a história da monarquia britânica nenhum herdeiro esperou tanto tempo para suceder ao trono. O príncipe Carlos celebra esta quarta-feira, 14 de Novembro, o seu 70.º aniversário e prepara-se para, qualquer dia, assumir o cargo mais importante da sua vida – apesar de já ter ultrapassado a idade da reforma da maioria das pessoas.

Num documentário que se estreou esta semana na televisão, o príncipe falou sobre a postura que irá adoptar enquanto monarca. Garantiu, por exemplo, que a partir do momento em que subir ao trono não irá envolver-se em temas controversos ou expressar opiniões da mesma forma como fez ao longo da vida. Há muito que o herdeiro da coroa se pronuncia sobre tópicos como o ambiente e a arquitectura moderna, levantando críticas entre aqueles que defendem que os membros da realeza não devem interferir neste tipo de assuntos. É uma atitude contrastante com a da actual monarca, que é conhecida precisamente pela sua abordagem passiva.

Em 1984, por exemplo, Carlos classificou uma proposta de expansão da National Gallery, em Londres, como um “mamarracho monstruoso [tradução livre]”, durante um discurso que supostamente seria não mais do que um elogio ao 150.º aniversário da Royal Institute of British Architects. Tornaram-se também alvo de crítica as cartas que tinha por hábito escrever a diferentes ministros e primeiros-ministros — incluindo, por exemplo, a Tony Blair. Eram conhecidas como spider memos e há três anos o Guardian publicou uma série delas. Em 1993, o príncipe fundou a Poundbury, uma vila-modelo localizada em terras pertencentes ao ducado da Cornualha, construída de forma contrastante com grande parte dos subúrbios da época, com uma maior densidade populacional e centrada no peão em vez do carro.

“Apesar de os seus críticos classificarem os seus pontos de vista como ‘ofensivos, reaccionários e irreflectidos’, os conservadores do património têm agora um papel de maior destaque no desenvolvimento urbano, mostrando que Carlos ou influenciou a mudança de tendência ou conseguiu prevê-la”, aponta a BBC. Foi também pioneiro no que toca a causas ambientais, defendendo a produção orgânica e avisando contra o aquecimento global. Em 1990, fundou uma empresa de produtos orgânicos, a Duchy Organic, cujos lucros revertem a favor das causas apoiadas pela Prince of Wales's Charitable Foundation.

“Carlos apercebeu-se há muito tempo que iria ser príncipe de Gales durante um longo período. Ele planeou a sua vida de acordo com isso e não teria tido a capacidade de realizar metade do que conseguiu se se tivesse tornado rei mais cedo”, afirma um amigo íntimo da família real, citado pela Vanity Fair.

Foto

O filho mais velho de Isabel II tornou-se herdeiro da coroa aos três anos, após a morte do seu avô materno, o rei Jorge VI. Aos nove anos ganhou o título de príncipe de Gales e aos 20 teve a sua cerimónia de investidura. Estudou em Cambridge e seguiu uma carreira militar na Marinha, durante a década de 1970, focando-se mais tarde no papel de membro da família real, a partir do casamento com Diana, em 1981.

O filho mais velho do seu casamento com a chamada “princesa do povo”  — William — parece ter planeado o seu percurso com uma lógica semelhante. Numa entrevista à BBC em 2016, o segundo na linha de sucessão ao trono afirmou que, actualmente, um dos seus focos é a família e a educação dos três filhos. “A minha avó está extremamente activa ao leme da família, como monarca. O meu pai está extremamente ocupado com as suas actividades de caridade e outras responsabilidades. Há o tempo e o espaço para explorar outras formas de fazer um trabalho digno”, disse, acrescentando ainda: “Acho que a família real tem de se modernizar e desenvolver. Esse é o desafio para mim.” Garantiu também que não tinha pressa em chegar ao trono.

Apesar de não suscitarem o mesmo apelo mediático que William, Kate, Harry e Meghan, os membros mais velhos da família real são os que, ano após ano, cumprem o maior número de compromissos: em 2017, Carlos ficou em primeiro lugar (com 546 contabilizados), seguido da princesa Ana (com 540) e do príncipe André (com 326). 

A popularidade dos membros mais novos já levou alguns a especular e outros a sonhar com a remota possibilidade de o trono passar directamente de Isabel II para William. Mas este é um cenário bastante improvável. Richard Fitzwilliams, especialista na monarquia britânica, dá uma resposta peremptória ao P2: “Não, não. Posso simplesmente responder que a monarquia não funciona dessa forma.”

Durante uma cimeira com os chefes de Estado dos países da Commonweath, em Abril, a rainha pronunciou-se sobre a sua sucessão, expressando o desejo de que o filho, Carlos, fosse eleito como o próximo chefe da Commonwealth. Ao contrário da coroa, este título não é automaticamente atribuído. No dia seguinte, a primeira-ministra Theresa May confirmou que a vontade da rainha tinha sido aprovada de forma unânime pelos líderes dos 53 países membros, sublinhando o apoio que o príncipe tem dado à Commonwealth nas últimas quatro décadas.

Uma monarquia popular

O nome de Carlos ficou, claro, para sempre associado ao de Diana. O 20.º aniversário da morte da princesa, no ano passado, voltou a abrir feridas antigas. Entre os escândalos de infidelidade e do divórcio e a atitude da rainha após a morte da princesa (considerada fria por muitos), a imagem da monarquia britânica vacilou no final da década de 1990. Desde então, a família real reconquistou o apoio popular, com a ajuda de uma evolução na comunicação do Palácio de Buckingham e uma nova geração que atrai multidões de milhares nas ruas e milhões de espectadores nas emissões televisivas das cerimónias de casamento.

De acordo com alguns comentadores reais, é a combinação da atitude sóbria da rainha e das transformações ao longo dos anos que tem mantido o estatuto moderno da monarquia. Ainda assim, rainha Isabel II, escreve o Guardian, foi “mudando a sua imagem pública de forma subtil, tornando-se mais empática e humana, mais a imagem de uma avó”. A monarca é de longe a figura real com mais apoio popular, de acordo com várias sondagens: a empresa de pesquisa de mercado Ipsos-Mori questionou entre 2006 e 2016 se os britânicos estavam satisfeitos com o trabalho da rainha e as respostas positivas variaram entre 98% e 90%, enquanto o Yougov indica que 74% das pessoas inquiridas têm uma opinião favorável em relação a Isabel II.

Já Carlos, apesar de ter recuperado também em parte uma opinião favorável, não é ainda assim a figura mais apoiada da monarquia. A mesma sondagem da Ipsos-Mori mostra que em 1998, 2012 e 2016, a taxa de satisfação em relação ao papel do príncipe subiu de 63% para 78% e depois passou para 71%.

Foto
Bob Strong/Reuters

De acordo com um longo perfil de Carlos, publicado recentemente pela Vanity Fair, foi feita uma campanha meticulosa para reabilitar a imagem do príncipe, bem como para ganhar o apoio do público em relação a Camilla Parker Bowles — com quem Carlos acabou por casar, em 2005, com a bênção do arcebispo da Cantuária. Mark Bolland, que foi secretário particular do príncipe entre 1997 e 2002 e conduziu este esforço de relações públicas, garante à revista que Carlos e Camila “estão a passar um momento muito bom”. Ainda este ano, no casamento de Harry e Meghan, o príncipe — que acompanhou a noiva ao altar — foi altamente elogiado pela forma subtil como, ao longo da cerimónia, teve o cuidado de se certificar de que a mãe de Meghan, Doria Ragland, se sentia confortável.

“O afecto em massa para com Carlos não é apenas um produto de esforços de relações públicas. O seu vasto trabalho filantrópico tocou pessoalmente uma grande porção da população britânica”, escreve ainda a Vanity Fair. Fitzwilliams faz a mesma ressalva, acrescentado que, apesar da “vida privada muito controversa” de Carlos, “há apoio em todos os grupos etários à família real”.

“Estamos num período imprevisível politicamente”, atira ainda. “O 'Brexité um tema muito diviso. E a família real personifica estabilidade, continuidade e união nacional.”

Quando discursou na abertura da cimeira da Commonwealth, a rainha frisou precisamente esta questão. “É o meu desejo sincero que a Commonwealth continue a oferecer estabilidade e continuidade para gerações futuras. E decida que um dia o príncipe de Gales deverá continuar o importante trabalho começado pelo meu pai, em 1949”, afirmou. “Continuando a estimar e revigorar as nossas associações e actividades, acredito que vamos assegurar um mundo mais seguro, mais próspero e sustentável para aqueles que nos seguem.”