Queer Lisboa 2019: skate, activismo e Harmony Korine

A 23.ª edição do festival, que decorre entre 20 e 28 de Setembro no Cinema São Jorge, vai assinalar os 50 anos de Stonewall e os 20 da Marcha do Orgulho LGBTI+ de Lisboa.

Foto
Rafiki, o primeiro filme queniano a passar em Cannes, é um dos destaques da 23.ª edição do Queer Lisboa DR

A 23.ª edição do Queer Lisboa quer festejar os 50 anos de Stonewall, os 20 da Marcha do Orgulho LGBTI+ de Lisboa e os 40 da secção Panorama do Festival de Berlim. Fá-lo-á, nos dois primeiros casos, com filmes sobre o activismo e a comunidade queer, não fugindo do preconceito que há dentro desse próprio universo, bem como com uma selecção de 11 filmes que passaram na categoria da Berlinale mais dada à experimentação e ao universo queer. O festival lisboeta, que decorre de 20 a 28 de Setembro e tem sessões no Cinema São Jorge e na Cinemateca Portuguesa, também conta este ano, nas suas várias secções, com uma representação maior de pessoas intersexo, transgénero e não-binárias.

Entre as novidades anunciadas esta terça-feira conta-se o filme de encerramento do festival, Skate Kitchen, realizado em 2018 por Crystal Moselle, a responsável por The Wolf Pack. Centrada numa adolescente de Long Island que descobre um colectivo de raparigas skaters do Lower East Side e se junta a elas, esta história nova-iorquina ficciona a vida real do grupo que dá nome ao filme, contando com as próprias integrantes reais da trupe, além de Jaden Smith.

No campo das exposições, além de um zoom aos 20 anos da Marcha do Orgulho LGBTI+ de Lisboa, no Cinema São Jorge, o festival também levará à Galeria FOCO, na Praça da Alegria, Sem Receio de Criar o Caos, mergulho no universo do realizador Harmony Korine, com direito a uma exibição de Mister Lonely, o filme de 2007 em que Diego Luna faz de um imitador de Michael Jackson e Samantha Morton de imitadora de Marilyn Monroe – Werner Herzog e Leos Carax também aparecem. A exposição, que tem curadoria de Thomas Mendonça e junta obras de Karine Rougier, Dylan Silva, Filippo Fiumani, Rui Palma e Andy James, é uma deixa adequada para o filme de encerramento: o próprio Korine é skater e, além disso, escreveu o argumento de Kids, de Larry Clark, no qual Crystal Moselle claramente se inspirou.

Na competição de longas-metragens, que terá como jurados a actriz Isabél Zuaa, a realizadora Teresa Villaverde e o ex-programador do Panorama do Festival de Berlim, Wieland Speck, que também falará sobre os 40 anos dessa secção, há muita variedade. And Then We Danced, do sueco Levan Akin, desenrola-se no mundo da dança georgiana, onde a homossexualidade não é muito bem aceite, e envolve um jovem dançarino a descobrir a sua sexualidade. Já na ficção científica Breve Historia del Planeta Verde, do argentino Santiago Loza, uma jovem trans junta-se aos amigos, após a morte da avó, para devolverem o extraterrestre doente de que ela cuidava à terra donde veio. Por sua vez, Carmen y Lola, da espanhola Arantxa Echevarría, passa-se numa comunidade cigana às portas de Madrid, com duas raparigas que vão contra o que é esperado delas.

Ainda a concurso estará a estreia do brasileiro Armando Praça, com Greta, sobre um enfermeiro de Fortaleza que, para poder encontrar uma cama para a sua melhor amiga transgénero, alberga em casa outro doente. Outro estreante é Alexandre Moratto, um compatriota de Praça que filmou, em Sócrates, um miúdo da costa de São Paulo a descobrir-se após a morte da mãe. Produzido pelo iraniano-americano Ramin Bahrani, o filme foi nomeado para três Independent Spirit Awards, tendo Moratto levado um para casa. Há ainda espaço, nesta competição, para Las Hijas del Fuego, um road movie da argentina Albertina Carri sobre um trio de mulheres poliamorosas, ou Memories of My Body, o controverso filme do indonésio Garin Nugroho baseado na histórica verídica de um jovem de uma trupe de folclore. E para Port Authority, da francesa Danielle Lessovitz, com produção executiva de Martin Scorsese, uma história contemporânea de amor trans passada no universo dos ballrooms, bailes drag/trans nova-iorquinos como os que foram mostrados no histórico documentário Paris is Burning (1990) e, mais recentemente, na série Pose.

Já no campo dos documentários, a selecção inclui filmes como Game Girls, de Alina Skreszewska, que segue um casal lésbico que vive na Skid Row de Los Angeles, um dos maiores concentrados de sem-abrigo do mundo, e Irving Park, de Panayotis Evangelidis, olhar sobre quatro homens gay que, depois dos 60, vivem juntos em Chicago e exploram relações com dinâmicas de escravo e mestre. Man Made, de T Cooper, observa quatro culturistas trans a treinarem para uma competição. My War Hero Uncle faz Shaked Goren olhar para o passado do tio, um herói de guerra israelita, e descobrir segredos de família; El Silencio Es un Cuerpo que Cae, de Agustina Comedi, faz o mesmo com as cassetes que o pai da realizadora deixou antes de sofrer um acidente mortal. Também nesta secção, passam Ni d’Ève, ni d’Adam. Une Histoire Intersexe, produção televisiva de Floriane Devigne, One Taxi Ride, de Mak CK, a história de um jovem de 27 anos que aos 17 foi violado por um taxista e seus cúmplices, e Una Banda de Chicas, de Marilina Giménez, que regista mulheres argentinas a tentarem singrar num mundo dominado por homens, a música.

No campo dos filmes experimentais, a secção Queer Art tem propostas como Doozy, de Richard Squires, um dos convidados do festival, que junta animação, documentário, imagem real e outras técnicas para explorar a história de Paul Lynde (1926-1982), actor de voz de desenhos animados da Hanna-Barbera e de sitcoms e estrela de concursos televisivos. Ou Letters to Paul Morrissey, de Armand Rovira, que olha para a obra de Paul Morrissey, o realizador associado de Andy Warhol e da Factory, bem como Sol Alegria, de Tavinho e Mariah Teixeira, repetentes no festival, que conta com a participação de Ney Matogrosso, ou Capital Retour, de Léo Bizeul. 

A secção Panorama – a do Queer, não confundir com a de Berlim – exibirá “cinco filmes que marcaram o cinema queer neste último ano”. À cabeça está Can You Ever Forgive Me?, de Marielle Heller, que inexplicavelmente não teve estreia em Portugal. Com Melissa McCarthy e Richard E. Grant, ambos nomeados para Óscares pelos papéis, Can You Ever Forgive Me? conta a história verídica de como Lee Israel, escritora caída em desgraçada, se tornou, nos anos 1990, falsificadora de cartas de nomes sonantes da literatura. Outra nomeação que o filme recebeu foi a de Melhor Argumento Adaptado, para Nicole Holofcener e Jeff Whitty.

Também se verão JT LeRoy, de Justin Kelly, sobre a personagem homónima inventada pela escritora Laura Albert para assinar livros no final dos anos 1990, depois desmascarada em 2006; bem como Making Montgomery Clift, que revê a história da lenda de Hollywood pelos olhos do sobrinho do actor, Robert Clift, ou Rafiki, a variação queniana e lésbica sobre Romeu e Julieta assinada por Wanuri Kahiu – foi o primeiro filme do Quénia a passar em Cannes e o candidato do seu país aos Óscares, mesmo tendo sido impedido de se estrear por lá.

Além disso, há uma carta branca a Cláudia Varejão, que escolheu curtas de Filipa César, Marco Martins, Renata Sancho, Salomé Lamas, Joana Pimenta e Inês Sapeta Dias; uma selecção de curtas canadianas no programa Corpos Desejo Paisagens: Um Arquivo de Curtas Canadianas LGBTQ 1989-2017; e ainda telediscos nacionais e internacionais com estéticas e temáticas queer e discussão sobre eles. Também há muitas discussões, como os debates Novos Populismos e Direito a Ser... Intersexo, que ocorre logo a seguir à exibição de Ni d’Ève, ni d’Adam. Une Histoire IntersexeHard Nights, a secção dedicada a filmes mais explícitos, mostra Alfredo Não Gosta de Despedidas, de André Medeiros Martins, An Illicit Affair Second Shutter, ambos de Goodyn Green.

O filme de abertura já tinha sido anunciado no início de Julho: Indianara, da francesa Aude Chevalier-Beaumel e do brasileiro Marcelo Barbosa, que estarão em Lisboa para o apresentar. É um documentário centrado em Indianara Siqueira, uma activista pelos direitos das pessoas transgénero que foi acompanhada pelos realizadores ao longo de dois anos de profunda mudança no país. Também já se sabia que Golpe de Sol, de Vicente Alves do Ó, terá estreia no festival, bem como que haverá um programa dedicado à ecosexualidade.