O poder das pescadoras de pérolas

A cineasta Cláudia Varejão mergulha na intimidade e no território de um grupo de pescadoras de pérolas japonesas: Ama-San.

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A realizadora diz que, vinda da ficção, não lhe interessava a “etnografia”. Queria filmar as mulheres japonesas no mar, mas também conquistar a sua intimidade FOTO: Miguel Manso

Ama-san, vencedor da competição nacional no último DocLisboa, mergulha com as pescadoras de pérolas japonesas, e depois continua a “mergulhar” na intimidade delas, seguindo-as em casa e na vida de família. As “ama-san” – expressão que quer dizer “mulheres do mar” – são uma tradição antiga no Japão, ainda viva nalgumas aldeias costeiras do Japão, e nem é preciso ir muito longe de Tóquio. Cláudia Varejão acompanha-as e tenta percebê-las, arriscando também ela a “imersão” num contexto cultural e linguístico que lhe são estranhos.

Em conversa com o Ipsilon, conta como também tentou fazer esse factor funcionar a favor do filme, e ajuda-nos a compreender melhor quem são estas “mulheres do mar” e qual o seu estatuto na sociedade japonesa: têm um espaço só delas, sim, mas terão um real poder ou não passa de uma ilusão?

Como é que encontrou estas mulheres mergulhadoras?
De uma maneira muito simples. Em 2012 li um livro da Sónia Baptista [performer e bailarina] que a dada altura fazia referência a umas mulheres pescadoras de pérolas. Fiquei curiosa e fui pesquisar. Dei logo de caras com umas fotografias dos anos 50, feitas por um antropólogo italiano, Fosco Maraini, umas imagens incríveis. E depois encontrei mais algumas, numa série da BBC entre outras coisas. Imagens delas, velhas, com fatos de borracha e uns panos na cabeça… Mas não havia de fundo sobre estas mulheres, não havia filme nenhum. E o meu instinto disse-me “embora, vamos a isto”. Concorri a umas bolsas da Fundação Oriente para estadias de curta duração em países asiáticos, e ainda me disseram “mas olhe que isto já não existe”. Mas eu sabia que ainda existiam. E em 2013 fui um mês para o Japão, fazer uma espécie de mapa das aldeias costeiras, mas era muito difícil, eram comunidades muito fechadas. Já estava a ficar frustrada quando perguntei a um pescador numa aldeia se ali havia “amas”, e ele respondeu que sim. Foi telefonar à presidente da associação das “amas” e combinou-se um encontro.

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Diz Cláudia Varjão que foi estabelecendo uma relação, naturalmente. As idas ao mar foram filmadas primeiro, depois os jantares e outras ocasiões mais públicas

Essa era a aldeia onde acabou por filmar?
Sim, na maior parte. Mas então, apareceu-me uma mulher toda colorida, muito arranjada, muito gentil. Veio a ser a mulher do meio no filme, entre a mais velha e a mais nova. Convidou-me a ir com elas no barco no dia a seguir. Eram mulheres de gerações muito distintas, e muito receptivas à minha presença. E era impressionante, ficavam quatro horas no mar… Era muito forte visual e fisicamente.  Fiquei convencida, voltei para Portugal, escrevi o projecto e propu-lo à [produtora] Terratreme. Em 2014 voltei ao Japão para filmar.

E quanto tempo esteve lá para a filmagem?
Um mês. Escolhi logo as que queria acompanhar, já as tinha observado.

A proximidade com elas, enquanto pessoas, parece fundamental, mais do que a tentação de um registo de tipo etnográfico…
Pois, venho da ficção, ficar só com a etnografia não me interessava muito. Não queria só a vida no mar, queria vê-las em casa, em família. Era importante conquistar alguma intimidade.

Isso é uma das coisas fortes no filme. É fácil de adivinhar que elas vivem de forma fechada, mas o filme quebra essa barreira. Como conseguiu isso?
Fui estabelecendo uma relação, naturalmente. As idas ao mar foram filmadas primeiro, depois os jantares e outras ocasiões mais públicas. Todas as cenas mais íntimas foram filmadas na última semana. Também houve sorte porque se gerou uma certa empatia. Eu estava curiosa por elas mas elas também ficaram curiosas por mim, portanto houve aqui um encontro, e o filme é o retrato dele.

Elas aceitam tão bem a presença da câmara que em alguns momentos se pensa que podem estar a “representar”, a comportar-se para a câmara. Teve essa sensação?
Tive. Senti que elas tinham vontade de contribuir. Para elas também foi uma experiência. A vida delas fora da época do mergulho, que vai de Março a Setembro, também não é muito agitada. Senti vontade delas de viverem aquela experiência de fazer um filme, que claro que era uma coisa nova.

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FOTO: Miguel Manso

Como fez para se entender com elas, e para perceber o que diziam frente à câmara? Fala japonês?
Não, não falo. Mas na minha equipa levava Takeshi Sugimoto, que vive em Portugal e é director de fotografia mas foi fazer o som, e também Aya Koretzky, que é realizadora mas que foi como tradutora. As “amas” falavam sempre através deles, e foi com eles que estabeleceram a principal relação. Naqueles planos em que elas falam para fora de campo, muitas vezes é a eles que se dirigem. Mas o facto de elas se esquecerem que eu estava ali com a câmara, porque fui eu que fiz a imagem, julgo que acabou por funcionar a favor do filme. Eu estava sempre num canto da sala, e muito baixinha…

… à Ozu…
…um bocadinho à Ozu, sim.

Mas como é que percebia o que estavam a dizer? Há cenas de diálogo bastante longas…
Ah, isso é giro. É claro que não percebia o que estavam a dizer textualmente, mas qualquer coisa na expressividade delas, oral e física, me fazia entender tudo, de quem ou do que estavam a falar. E foi extraordinário quando cheguei à montagem e me traduziram o material todo: não tive surpresa nenhuma. Tinha percebido tudo. Mas é claro que filmei intuitivamente, a mexer a câmara seguindo a melodia da língua. Foi muito interessante trabalhar assim.

E houve momentos em que tenha preparado situações de maneira a fazer acontecer alguma coisa?
Por exemplo, a cena do fogo de artifício, quando estão todos a assistir. Fui quem comprou o fogo de artifício para fazer a cena. Tinha pouco tempo para filmar, portanto era inevitável promover algumas situações. Depois deixava que acontecesse.  Mas não fiquei sentada à espera que o filme viesse ter comigo. E houve algumas coisas que gostaria de ter filmado, como situações de conflito, ou acidentes. Mas não havia tempo para esperar por isso.

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Estas mulheres representam uma figura poderosa, ao contrário da gueixa, da mulher submissa

E mergulhou?
Pensei nisso, mas abandonei a ideia, e ainda bem porque seria um acto falhado da minha parte. Nunca conseguiria acompanhá-las. Contratei lá um operador para filmar as sequências submarinas. E também não se aguentou: quis mergulhar em apneia como elas, para ser mais autêntico, e passado dois mergulhos voltou ao barco a dizer “eh pá, dá aí a garrafa”…

Mas ficaram muito bonitas, essas cenas…
Eu estava com algum receio, até pelas dificuldades de comunicação. Mostrei-lhe o que já tinha filmado, para ele entender o tom e procurar uma identidade visual semelhante. E funcionou, foi uma coisa que casou bem.

A beleza dessas imagens rima o lado ritualístico da actividade das mulheres, destaca a “beleza do gesto”…
O ritual é transversal à vida delas… É o ritual do banho, o ritual da preparação das refeições. Presumo que seja uma coisa muito japonesa, e não uma característica específica delas. O filme até se repete um bocado nas cenas do barco, com o ritual da colocação do lenço, e depois tirar o lenço. Eu acho que o filme é sobre isso, sobre a repetição, sobre o ritual. E sobre o tempo, sobre a sabedoria que se atinge com o tempo.

Há uma ambiguidade no filme: sendo esta actividade um exclusivo das mulheres, tanto se pode vê-la como um território onde o poder é delas como apenas o território para onde são empurradas. Elas são muito fortes, mas essa dúvida de leitura está no filme.
Eu tive exactamente essa dúvida, e pensei muito nela. Achei que estas mulheres representavam uma figura poderosa, ao contrário da gueixa, da mulher submissa. Elas de facto conquistaram um lugar de respeito, e algumas fizeram tanto dinheiro com as pérolas que os maridos até deixaram de trabalhar. Mas na verdade, é ou não é? Quem as leva para o mar? São os homens. Quando chegam a terra dão 50% dos ganhos ao marido. Conquistaram ali um território, mas no fundo esse território é uma ilusão, uma ilusão de poder.