Um Fahrenheit 451 para os anos do like e do emoji

A nova adaptação do romance visionário de Ray Bradbury surge na era de Trump, das redes sociais e de A História da Aia. Mas falta garra ao filme de Ramin Bahrani, este sábado no TVCine.

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O bombeiro Guy Montag é interpretado por Michael B. Jordan dr

“É tempo de queimar outra vez pela América!” É o grito de guerra dos bombeiros de Cleveland quando são chamados a incendiar mais uma pilha de livros, e eles não se fazem rogados. O fogo purifica, o fogo elimina a mentira e a diferença. “Não nascemos todos iguais,” diz às tantas Michael Shannon, “o fogo torna-nos iguais, e por isso fazemos arder.”

Nesta América futura, sobrevivente de uma enigmática “segunda guerra civil” que deixou milhões mortos, a escrita reduziu-se a uma conjugação de palavras e emojis que flutuam pelos ecrãs que revestem todas as fachadas, todos os interiores. Já não há papel impresso nem instrumentos de escrita; os bombeiros são a polícia encarregue de destruir todo o papel que lhes aparecer à frente, e o castigo para quem transgredir é a exclusão da sociedade através da destruição das impressões digitais e consequente impossibilidade de aceder a um sistema inteiramente montado sobre tecnologia táctil.

Mas se o ambiente remete para os nossos dias de Facebook, Instagram e YouTube, de fake news e assistentes virtuais como a Alexa e ou a Siri, a premissa central de uma sociedade que trocou a escrita pela imagem vem directa do clássico de Ray Bradbury, Fahrenheit 451. O lendário romancista de ficção-científica escreveu-o em 1953, quando a televisão começava a preencher os tempos de lazer dos americanos, mas a sua ideia de uma sociedade anestesiada que permitia a destruição da história e da literatura remetia também para os totalitarismos fundamentalistas do século XX e para as “caças às bruxas” de actividades “não-americanas” ou de leituras “decadentes”. Não por acaso, imagens dos incêndios nazis surgem no genérico inicial da nova adaptação de Fahrenheit 451, dirigida pelo americano de origem iraniana Ramin Bahrani para a cadeia por cabo HBO (Portugal vê-o em exclusivo no TVCine, este sábado à noite, depois de uma sessão especial integrada patrocinada pela Comic Con Portugal).

Oriundo do circuito independente e vencedor do prémio FIPRESCI em Veneza por Goodbye Solo em 2008, Bahrani não tem medo dos “grandes temas” (o seu filme anterior, 99 Casas, era sobre a recessão americana e as suas consequências no imobiliário). E, como disse à revista Variety, estava à procura de um projecto que abordasse a omnipresença da tecnologia nos nossos dias – o convite da HBO para filmar Fahrenheit 451, que se tornara num clássico moderno já várias vezes adaptado ao teatro (em alguns casos pelo próprio Bradbury) e ao cinema (por François Truffaut, em 1966), caiu que nem ginjas.

Concebido por Bahrani como um filme ambientado “não no futuro, mas num amanhã alternativo”, o novo Fahrenheit 451 mantém a premissa central – um bombeiro, Guy Montag (Michael B. Jordan, de Creed e Black Panther), que começa a ter dúvidas sobre as certezas que o rodeiam, alimentadas pela constante “lavagem ao cérebro” a que a população é submetida através de ecrãs permanentemente ligados. É uma abordagem “à medida” destes nossos tempos em que a controvérsia das fake news percorre os media, e em que criações distópicas sobre futuros alternativos como Black Mirror ou A História da Aia, baseada no livro de Margaret Atwood, se tornaram em êxitos de crítica e público.

Já se percebeu, no entanto, que esse não vai ser o destino de Fahrenheit 451, cuja recepção crítica aquando da estreia em Maio foi (justamente) tépida. Na sua tentativa de actualizar o clássico moderno de Bradbury para os nossos dias, Bahrani parece ter dado prioridade ao (assustador) realismo do universo em que tudo se passa e esquecido que convinha haver uma narrativa dramática suficientemente forte para o sustentar – sobretudo porque é quando mais se afasta do livro que o seu filme mais cambaleia, e o realizador não consegue nunca explicar a contento a “conversão” do seu herói. Como Matt Zoller Seitz apontou no site Vulture (aliás numa das raras críticas positivas), “grande parte de Fahrenheit 451 é tão subtil como um panfleto sindical ou um sermão de esquina, e não pede desculpas por isso (…) Há momentos em que o filme parece estar a brutalizar intelectualmente a sua audiência, como se a quisesse acordar”. 

E se não se põe em causa o talento dos actores reunidos, a verdade é que tudo oscila entre o erro de casting (Sofia Boutella) e o estereótipo do vilão (Michael Shannon) num filme que está tão seguro da sua política que se esqueceu de que era preciso haver cinema. Não se questionam as intenções de Fahrenheit 451, mas é legítimo achar que o resultado está longe de ter o poder da página escrita – uma ironia que o próprio Ray Bradbury não teria desdenhado.