Académicos lançam colecção de livros sobre partidos para “dar pedrada no charco”

Representar os Portugueses – Breve História de Grandes Partidos inclui seis obras dedicadas aos partidos com assento parlamentar.

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Lançamento de colecção de livros sobre partidos serviu de mote a debate sobre política Rui Gaudêncio

Mesmo para os maiores conhecedores da memória dos partidos, basta ouvir José Pacheco Pereira falar sobre o que guarda o arquivo Ephemera para perceber que há muito por contar. Nesta quarta-feira, no auditório do PÚBLICO, o historiador e comentador político, que se assumiu um “falador inveterado”, revelou histórias sobre vários materiais que recolheu, de chapéus a canetas, passando por velas, cinzeiros de praia, até lençóis com o nome de Valentim Loureiro que foram distribuídos em feiras.

“Os estudos sobre o material de propaganda são muito reveladores”, disse na apresentação da colecção Representar os Portugueses – Breve História de Grandes Partidos que inclui seis obras dedicadas aos partidos com assento parlamentar e que sairá às quartas-feiras com o PÚBLICO, em parceria com a 100 Folhas. A coordenação é de Vasco Ribeiro (Universidade do Porto) e de José Santana Pereira (ISCTE), mas os seis livros são escritos por muitos outros autores também ligados à academia e à investigação. A primeira obra (sobre o PSD), escrita por Patrícia Silva e Tiago Silva, saiu já nesta quarta-feira.

Será ainda lançado um sobre o PS (escrito por Pedro Marques Gomes); um sobre o PCP (Joana Marques Reis); um sobre o CDS (André Paris, Riccardo Marchi e Filipa Raimundo); um sobre o BE (Elsa Costa e Silva e Mariana Lameiras); e um sobre o PEV e o PAN (Pedro Silveira, Susana Rogeiro Nina e Luís Humberto Teixeira).

No final de tarde desta quarta-feira, o lançamento da colecção foi o pretexto para uma conversa, moderada pelo director do PÚBLICO, Manuel Carvalho, que juntou, além de Pacheco Pereira, os coordenadores da colecção e Marina Costa Lobo. A investigadora do Instituto de Ciências Sociais sublinhou a importância de se dar a conhecer a história de partidos que, disse, entre outras reflexões, nasceram “personalistas” e mantêm-se “personalistas”. Mas abordou-se também o tema da abstenção, o declínio da militância, as razões que levam os cidadãos a afastarem-se da política.

Os livros foram escritos em tempo record, para serem lidos durante o Verão e, sobretudo, antes de a campanha para as eleições legislativas arrancar. Pretende-se, nas palavras de um dos coordenadores, José Santana Pereira, “dar uma pedrada no charco na silly season”. Mas será mais do que isso: ao longo da conversa percebeu-se que essa “pedrada no charco”, ao dar a conhecer histórias que muitos não conhecerão, poderá aproximar os cidadãos da política e até abrir portas para futuras pesquisas.

O grupo de investigadores e docentes, ligados a várias universidades, deitou mãos à obra e escreveu sobre a história de cada partido, sobre os princípios ideológicos que os norteiam, sobre os protagonistas, os resultados eleitorais, entre muitos outros aspectos reunidos, como cartazes e propaganda. Além de José Pacheco Pereira, que disponibilizou material do arquivo Ephemera, também Alfredo Cunha cedeu fotografias.

“Há tanta coisa para estudar”, insistiu Pacheco Pereira, não sem aproveitar para alertar que falta também fazer um “verdadeiro escrutínio das campanhas”, que fazem circular muito dinheiro. No Ephemera acompanharam, na última campanha eleitoral, 1600 acções, o que não chega a 2/3 do total e o que significa que muitos materiais se perdem. E “estes materiais falam muito”, insistiu o historiador.

José Pacheco Pereira referiu-se a cartas, à “imagética próxima da santidade” que se seguiu às mortes de Francisco Sá-Carneiro e Álvaro Cunhal, a produtos como rebuçados e bolos que são primeiro fotografados e, depois, comidos por algum dos colaboradores do arquivo que revele coragem. Falou sobre as três setas do PSD e de como “é interessante conhecer a história de como foi escolhido um símbolo que vinha directamente da resistência social-democrata da Alemanha nazi”. “Há tanta coisa para estudar, mas não demorem muito tempo”, precisou o historiador.

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