Editorial

Boas notícias da Espanha

A sociedade espanhola deu a si própria um sinal de moderação cada vez mais raro nos dias que correm. Não é coisa pouca.

Os resultados eleitorais deste domingo em Espanha estão longe de dissipar as incertezas sobre a estabilidade política que nos últimos quatro anos obrigou à realização de três consultas populares. Ou de dar respostas às feridas abertas pelo independentismo catalão. Mas se há momentos em que convém subestimar o óptimo para aplaudir o bom, é por estes dias. O discurso de moderação de Pedro Sánchez e do PSOE foi o mais votado pelos espanhóis.

O Vox entrou com força nas Cortes de Madrid, mas ficou aquém da votação indicada pelas sondagens. O Unidas Podemos resistiu à erosão eleitoral abdicando do seu discurso radical. O Cidadãos não chegou onde esperava pela via do catastrofismo e da normalização do Vox. E o Partido Popular deu mais um exemplo do que acontece aos partidos da direita moderada quando sucumbem à tentação de disputar o terreno da direita radical com propostas radicalizadas.

Comecemos por Sánchez e pelo PSOE, um líder e um partido que há apenas dois anos pareciam condenados à marginalidade do espectro político face às ameaças do sorpaso do Podemos. Pode-se acreditar que o seu sucesso este domingo tem por base a mensagem de que os socialistas eram o único caminho possível para evitar a deriva da Espanha em direcção ao seu tormentoso passado.

Combinando propostas progressistas que falam às classes médias desiludidas com a corrupção, a desigualdade ou o desemprego jovem com a recusa do discurso punitivo e apocalíptico da direita em relação ao independentismo catalão (não afastou a possibilidade de um indulto aos políticos julgados no procés), o PSOE apresentou-se aos eleitores com a bandeira da social-democracia cosmopolita, tolerante e europeia. A sua vitória é um reflexo da maturidade democrática da Espanha.

Sem que à vista esteja uma investidura do novo governo apoiada pelo Cidadãos (embora em política não haja impossíveis), Sánchez tem até às eleições europeias um compasso de espera para optar entre um governo minoritário ou uma coligação que englobe o Podemos, o PNV e a Esquerda Republicana da Catalunha. Não vai ser tarefa fácil. Mesmo que hoje os independentistas proponham um referendo em detrimento de uma imediata e impossível, porque inconstitucional, independência, qualquer enlace será difícil.

Mas ao menos, a porta da negociação não foi fechada como pretendia a direita radical. Esperar que num ápice a governabilidade fique garantida, que a polarização e a fragmentação sejam superadas ou que a ferida aberta pelo independentismo sare de repente é pura utopia. Ainda assim, a sociedade espanhola deu a si própria um sinal de moderação cada vez mais raro nos dias que correm. Não é coisa pouca.