Entrevista a Gonçalo Quadros

"O salário mínimo é uma indignidade"

Gonçalo Quadros recebeu nesta sexta-feira o Prémio Universidade de Coimbra. Fundador e CEO da Critical Software defende maior intervenção cívica das empresas.

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Gonçalo Quadros Sérgio Azenha

A Critical Software nasceu em Coimbra há duas décadas com os olhos postos na engenharia aerospacial. Mas conquistar posição nessa indústria sem base em Portugal revelou-se tão difícil como pôr humanos em Marte. A empresa teve de se reinventar e fê-lo com sucesso: hoje é uma estrela da indústria de software mundial. No Reino Unido, é responsável por um dos maiores projectos públicos desde a II Guerra Mundial, a introdução do smartmeter. Em Portugal abriu uma empresa com a BMW para ajudar a construir o carro do futuro. Ajuda a construir aviões, ferrovias, toca praticamente todas as áreas críticas do mundo moderno e continua a crescer, esperando chegar aos 1000 trabalhadores rapidamente. Um dos fundadores, Gonçalo Quadros, 56 anos, juntou-se hoje ao lote de importantes figuras de Portugal agraciadas com o Prémio Universidade de Coimbra. Aproveitou o momento para lançar alertas: temos de mudar o perfil da economia portuguesa, distribuir melhor a riqueza, pôr fim à "vergonha" do centralismo e tratar melhor quem trabalha.

O criador da Web, Tim Berners-Lee, pediu mais responsabilidade aos programadores, na última Web Summit, para que pensem nas implicações do software que estão a criar. Subscreve estas preocupações?
Absolutamente, absolutamente.

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O que é que as empresas devem fazer?
As empresas têm um papel particularmente relevante. Temos de perceber como é que esta alteração brutal da forma como nós convivemos, como nós vivemos o nosso dia-a-dia, como é que ela nos pode beneficiar e eliminar ou combater os novos problemas que estão a surgir.

Têm feito o suficiente?
Acho que o mundo tecnológico está na linha da frente. As empresas com futuro – que é o tema que vou desenvolver na entrega do prémio – são as que vão ter uma preocupação em relação ao exercício da cidadania. Nós não precisamos de empresas no sentido ortodoxo. Nós precisamos de empresas cidadãs, que se preocupem com o que está a acontecer à volta delas e que procurem resolver os problemas dos países, das cidades, das regiões onde estão. Desde logo porque uma empresa é uma comunidade e as comunidades têm de funcionar, têm de ter um sentido de pertença, cumplicidade, a capacidade de se orgulharem. 

Que tipo de problemas?
A assimetria entre o Interior e o Litoral, por exemplo. Obviamente que nós podemos esperar muito das políticas públicas, da governação, mas as empresas têm um papel, e se não se alinharem com este tipo de postura, não conseguem construir as tais comunidades com laços fortes que a hão-de suportar. A devolução de valor à sociedade é absolutamente imperioso. Como? Por exemplo criando emprego. Mas criar emprego não é apenas abrir posições, para fazer a empresa crescer. As empresas têm de perceber que têm de apostar na criação de emprego nas zonas que estão mais deprimidas, porque isso lhes traz uma vantagem, permite criar um contexto para poderem tirar partido e suportar o crescimento e também ajudarem a resolver um problema, envolvendo-se numa causa.

A política pública não faz isso? 
Acho que não. E as empresas não podem estar dependentes das políticas públicas. Têm de dar o exemplo, têm de ser mais ousadas. Vivemos num mundo tão plástico que, felizmente, há diversas formas de fazer com que isso aconteça sem precisarmos do estímulo adicional que uma política pública bem desenhada de facto nos pode dar. Nós abrimos centros de engenharia no interior, e queremos estender esse movimento a mais cidades.

Como é que atrai engenheiros para o Interior?
O nosso mote é “não precisamos que vocês venham ter connosco; nós vamos ter convosco”. As pessoas querem trabalhar na cidade onde têm raízes, junto das pessoas de quem gostam, da família. Viseu, Vila Real,... só não vão trabalhar para lá, porque não encontram oportunidades, não têm desafios que as preencham e, portanto, têm de sair. Quando aparece um projecto em que acreditam, que lhes dá um desafio interessante, essas pessoas consideram de imediato voltar. É uma aposta que vamos continuar a fazer. Gostaria de ter um centro de engenharia em todas as capitais de distrito do país.

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Não tem de lutar contra os salários das multinacionais que estão em Lisboa ou no Porto?
O salário aqui não pode ser um problema…

O salário é sempre um problema em Portugal, ou não?
Continuamos a ter um espaço para crescer e consolidar as nossas condições.

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As empresas estrangeiras vêm para cá à procura de engenharia boa e barata?
Temos de comparar o que é comparável. Mas sim, há espaço para criar mais valor. Julgo que a Critical é um exemplo disso, está a criar mais valor e vamos ajustando as nossas condições em função disso. Eu devo dizer uma coisa: o salário não é a coisa mais importante para uma pessoa que se envolve numa empresa tecnológica como nós, se ela sentir que é tratada de uma forma justa. E se sentir que há preocupação da empresa em remunerar de forma justa. Se sentir isso, ela dá muito mais valor a tudo o resto, ao ecossistema, à capacidade de progressão na empresa, ao tipo de desafio que tem, às lideranças que a ajudam a evoluir e a construir o caminho e a desenvolver a carreira. Isso é muito mais importante do que o salário e vemo-lo todos os dias. Isto atrai as pessoas, o sentido de propósito cresce. Insisto neste ponto com alguma acutilância porque essa é a nossa visão. As empresas com futuro têm de pensar desta forma. As condições materiais são importantes, mas como digo, as pessoas querem sobretudo sentir que são tratadas de forma justa e razoável. E se perceberem a lógica, o salário não é um problema.

Em Portugal pratica-se um salário justo?
Acho que as empresas prestam cada vez mais atenção a isso. Porque senão perdem os seus recursos. São obrigadas pela concorrência. Na nossa área, se alguém se sente tratado de forma injusta, rapidamente se desliga porque tem 50 alternativas.

Isso pode ser verdade para quem quer trabalhar na Critical. Já aqueles que ganham o salário mínimo…
O salário mínimo é uma indignidade.

Por que diz isso?
Porque não é possível viver dignamente com o salário mínimo em Portugal. Quem tem um filho e ganha o salário mínimo não vai conseguir educá-lo. O salário mínimo é uma indignidade e os modelos de negócio assentes no salário mínimo estão errados, têm de desaparecer. Há um conjunto de pessoas inteligentes à nossa volta e muitas delas ganham o salário mínimo porque não têm uma oportunidade. Digo isto com experiência própria porque temos investido muito na requalificação de pessoas vindas de áreas diferentes. Estamos a fazer isto há vários anos e elas são bem integradas, têm uma carreira igual à dos outros colegas que têm formação e graus académicos das nossas áreas específicas. Nós fizemos esta mudança numa escala temporal relativamente pequena, em poucos anos requalificámos mais de 100 pessoas. E estamos a acelerar os programas. Precisamos de mais algum tempo para darmos oportunidades às nossas pessoas em domínios ou áreas que não dependam do salário mínimo.

Esse é um dos tais problemas que exige a intervenção das empresas cidadãs de que falava há pouco?
Precisamente.

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E que mais podem fazer?
Desenvolver planos de negócios para gerarem mais valor. Parto do princípio que se uma empresa gerar valor não tem nenhum problema do que pagar mais do que o salário mínimo, porque como digo o salário mínimo é uma indignidade, uma vergonha.

O valor do salário mínimo resulta de um acordo. Quem se senta à mesa, governo, patrões, sindicatos, está errado?
Eles estão presos a uma determinada lógica. Mas nós temos de dizer que isto tem de mudar e não podemos deixar de trazer as pessoas para esta discussão e fazê-las sentir que, de facto, hoje ganhar 635 euros por mês é uma indignidade. Não é possível viver com 635 euros!

Essa é a retribuição mínima no sector público. No sector privado é menos…
Alguma coisa está errada. Temos de ser capazes de mudar. Sabemos que o salário mínimo tem estado sobre enorme pressão de crescimento, mas as empresas têm de ser capazes de dar esse exemplo, para chegarmos ao dia em que digam que o salário mínimo já não é um problema, porque já toda a gente paga mais e já ninguém ganha isso.

A diferença salarial é outro problema?
A diferença entre salários mais altos e mais baixos é, nalguns casos, também uma indignidade. E é claro que isso cria um sentimento de injustiça e de iniquidade que não nos ajuda na tal construção de comunidades fortes, com pessoas que se entreguem com alma e coração a um projecto.

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A solução é limitar os salários mais elevados?
Não. É um conjunto de coisas. Se eu estiver numa empresa em que parte das pessoas percebe que há quem ganha mais de mil vezes do que eu, seguramente não vou perceber por que é que isso acontece. Que poderes mágicos tem uma pessoa para ter um salário tão diferente da pessoa que tem o salário mais baixo dentro da mesma empresa? Não faz sentido. A relação chefe-subordinado deve ser desmontada e é isso que estamos a fazer aqui na Critical. Cada um tem o seu papel, mas todos são, no essencial, pares. E isso tem uma vantagem muito grande, desde logo porque as pessoas não se habituam a receber ordens. Porque se se habituarem a fazer isso, obviamente elas perdem a capacidade de iniciativa, a autonomia. E se perderem isso terão mais dificuldade de serem criativas, ousadas, de pensar de forma diferente para resolverem os problemas que têm de resolver.

No sector tecnológico a diferença salarial é exacerbada. Como é na Critical?
Temos, desde logo, uma regra: o salário mais alto não pode ser mais de dez vezes superior ao salário mais baixo. O nosso compromisso é: se geramos mais riqueza, então distribuímos mais riqueza. Se gerarmos menos, distribuíremos menos, obviamente, porque não vamos pôr em causa o projecto com medidas irracionais. Mas temos um conjunto de aspectos que fomos afinando, como por exemplo a maneira como damos os prémios.

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Como é que dão os prémios?
Na Critical eles são associados ao desempenho colectivo e não ao individual. A ortodoxia vigente relaciona os prémios com o desempenho da pessoa. Mas o feedback anual é perfeitamente inútil, não gera nenhum tipo de valor. Tem de ser contínuo, a pessoa merece que isso aconteça porque a sua capacidade de evoluir na carreira depende disso. Transformámos este processo em trimestral e separámos a distribuição de prémio da análise de desempenho individual.

Quando toda a gente recebe o mesmo, como é que mantém motivados os high performers?
Esses são os que evoluem mais e mais depressa dentro da empresa. Consigo fazer isto porque a empresa está a crescer e por isso estou constantemente a abrir posições de novas responsabilidades. Isto que estamos a fazer resulta em duas coisas. Quando alguém está a avaliar o desempenho de outra pessoa, e há um prémio individual por trás, isso condiciona a pessoa que está a avaliar. A associação a um prémio individual condicionava uma discussão franca sobre o desempenho. A segunda questão é que se nos concentrarmos na avaliação do colectivo temos mais capacidade para desenvolver o colectivo.

Que regra aplica no prémio?
Se a empresa tiver um resultado antes de impostos que esteja numa margem que nós definimos no princípio de cada ano, as pessoas recebem um prémio que é uma percentagem do salário, que aliás agora até subimos porque as coisas nos têm corrido bem.

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Mas isso é sustentável porque a empresa cresce. E quando deixar de crescer?
Estamos a desenvolver a Critical há 20 anos e há 20 anos que é possível fazer isto. É evidente que temos de ajustar os mecanismos à realidade. Este ano vamos chegar às mil pessoas só na Critical Software e sem contar com a TechWorks. E o nosso crescimento mais recente é de facto um crescimento muito forte e acelerado. E é óbvio que o crescimento nos dá um conjunto de oportunidades que permitem este tipo de abordagens, mais ousadas. Eu diria que a Critical tem de ser capaz de continuar a crescer, porque isso é estratégico. Hoje somos mil, mas amanhã poderemos ser dez mil e depois 50 mil. Temos de ter essa ambição.

Por que razão a joint venture com a BMW não ficou em Coimbra, onde está grande parte da empresa?
Por três razões muito simples, que me preocupam e que podem ser sinal de que alguma coisa vai mal. Um projecto como o da BMW, que tinha tudo para vir para Coimbra, que é onde temos mais massa crítica, foi para o Porto porque estamos longe do aeroporto, não temos escola alemã e a cidade não é suficientemente cosmopolita para atrair os alemães.

Concorda com essas razões?
Sim. A escola alemã é essencial. Depois temos a distância ao aeroporto. Eu viajo muito e esta hora e meia a mais que tenho de fazer para chegar ao aeroporto, para lá e para cá, faz diferença. A BMW tinha uma certa preferência pelo sítio onde havia mais voos directos para Munique, que é Lisboa. 

Há uma política de centralismo?
O que se passa é uma vergonha, é mesmo uma vergonha. Lisboa é uma espécie de buraco negro. Vemos isso no lançamento das camas universitárias, em que 60% fica em Lisboa, que é de facto um buraco negro, atrai tudo. É um ciclo vicioso em que mais investimento atrai mais pessoas, mais pessoas exige mais investimento e o resto do país vai ficando deserto.

Por que é que isso acontece?
Porque não temos políticas públicas e pessoas a pensar o país… Há uma assimetria cada vez mais vincada entre Lisboa, cidade cosmopolita, e o resto do país, província. O Porto tem competido com esse estatuto e bem.

Braga e Coimbra poderão queixar-se do centralismo de Lisboa e também do Porto, quando vêem que o Norte se resume ao Porto?
Poderão vir a fazê-lo. Braga mostra que podemos fazer o caminho inverso. Mas não tenhamos dúvidas: falamos muito de descentralização e não há uma política de ordenamento em que a descentralização seja uma ideia clara, que passe por investimento e algumas decisões difíceis. O país é pequeno e está completamente concentrado em Lisboa. Porquê? Parece que todos os dias vemos Lisboa a ficar mais Lisboa e o resto do país a ficar mais o resto. É uma vergonha. As empresas podem aí dar o exemplo.

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O centro tornou-se asfixiante ou é a periferia que não tem força?
Neste momento, é muito difícil as regiões discutirem este problema com Lisboa, porque é quase um facto consumado. Passámos o ponto crítico em que deixámos de ter condições para atrair projectos como esse da BMW para Coimbra. Lisboa e Porto estão a fazer esse caminho sozinhas. E é o eixo litoral, continuamos no mesmo. Coimbra está no litoral, mas vive como se fosse do interior. A falta de infra-estruturas, de serviços e de pessoas retira qualquer capacidade de discutir isto a não ser pela elaboração de políticas públicas que invertam isto.

Acredita que os partidos vão dar a volta a isso?
É inexorável. Vai ter de acontecer. Temos de fazer com que estes problemas não sejam esquecidos.

A intervenção dos empresários tem sido a necessária?
Acho que temos um défice colectivo de intervenção, em Portugal e nas empresas. As coisas têm vindo a mudar, mas estamos longe de sermos uma força capaz de influenciar o poder político. 

A Critical TechWorks acabou por ficar no Norte…
Porque já tínhamos maior escala no Porto. A empresa arrancou com 100 engenheiros e era mais fácil construir esse núcleo de partida desde o Porto.

O país está a planear a expansão do aeroporto de Lisboa para a margem sul do Tejo…
É terrível para nós.

O governo não percebe as vossas necessidades?
Devíamos ter um aeroporto que servisse melhor a região Centro. Isto hoje impede-nos de construir a região, de construir economia na região, não haja a mínima dúvida sobre isso. Os alemães não admitiam estar a esta distância de um aeroporto. Isto foi um problema e continuará a sê-lo para outros investimentos.

Isto enquanto o país está a atrair atenções…
Portugal conseguiu uma posição de destaque por atrair projectos nestes domínios. Temos muito boa engenharia, boas universidades, um ecossistema que está a funcionar, a Web Summit com certeza ajuda, cria a imagem certa de um país com energia, com massa crítica. Temos uma oportunidade de ouro, eu diria, porque temos uma vantagem em relação à Europa de Leste: fazemos negócio de forma muito mais próxima à da Europa Central, nomeadamente a Alemanha e o Reino Unido. Há uma dose adicional de confiança numa geografia como a portuguesa ou a espanhola.

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Culturalmente estamos mais perto…
Precisamente. Há uma miríade de projectos e não é porque somos mais baratos. Há uma enorme onda que é o da transformação digital. O que é que está na base deste desafio? Software. Empresas com a escala da BMW precisam mais de competências de engenharia de software do que na engenharia mecânica. E nos locais onde estão não têm capacidade de resposta. Em Munique é muito difícil recrutar um engenheiro de software e por isso é que vêm para cá. Temos esta imensa oportunidade, mas em vez de estarmos a formar pessoas em áreas como o Direito, que depois acabam ali na caixa do supermercado ou sem emprego, devemos pensar que faz sentido qualificar pessoas neste domínio. Os tais programas de requalificação podem ajudar-nos a resolver este problema sério e grave que temos que é um número muito grande de licenciados no desemprego. São muitas. E as universidades continuam a despejar todos os anos pessoas no desemprego.

A Universidade de Coimbra é exemplo disso?
Há uma coisa que tenho a dizer em favor da Universidade de Coimbra. Foi a primeira a lançar connosco um programa de requalificação, já há uns sete anos. Até lhe chamavam o “professorão”, porque tal como havia o vidrão e o papelão, viam aquilo como o sítio onde se metiam professores sem trabalho e saíam engenheiros de software.

E no geral, como vê o ensino superior português?
É muito pouco flexível. Para se abrir mais vagas numa engenharia tem de se fechar lugares noutro lado qualquer, porque os orçamentos são o que são.

Portanto não está satisfeito…
Não, não estou. A universidade deveria estar a olhar com mais rapidez para aquilo que está a acontecer e a ajustar a sua oferta para aproveitar. Há duas áreas que têm sido essenciais, desde esta última crise, que é o turismo e esta área do software, quase sempre nas áreas de Lisboa e do Porto. São projectos de grande dimensão, e a única razão para não darmos uma resposta ambiciosa a esta procura será a de não termos pessoas. Porque enquanto tivermos isso, vamos continuar a dar resposta a projectos de elevado valor acrescentado, onde se pode remunerar bem as pessoas, com isso ajudar o perfil da nossa economia. Mas temos de reagir e de ser capazes de o perceber.

Mas o problema é o leque de formação?
Este é um problema muito óbvio, há outros pontos em que temos de melhorar. Precisamos de manter uma palete diversificada, não é fazer desaparecer cursos, como História ou a Filosofia, igualmente importante. Estou a falar de um ajuste em função das oportunidades que estão à nossa frente.

Que outros problemas identifica?
As universidades têm de competir melhor. Não podemos deixar de ter universidades de referência e estamos a perder essa capacidade paulatinamente de competir com os grandes.

Por que é que isso acontece?
Há uma certa cultura de consanguinidade na universidade portuguesa, de endogamia, que limita fortemente o mérito e a nossa capacidade de atrair as melhores pessoas, os melhores estudantes e de nos distinguirmos, de construir comunidades mais fortes, vibrantes e capazes. Ainda há dias lia um artigo muito interessante no PÚBLICO sobre isso (https://publico.pt/1862161). O aspecto essencial numa empresa para atrair e reter pessoas é a qualidade das equipas. Temos pessoas muito qualificadas e essas querem estar entre melhores porque percebem que isso influencia a maneira como evoluem. Quando alguém quer ir para uma empresa é porque ela é boa, tem pessoas espectaculares. Quando se pensa assim, é fácil atrair os melhores. Nas universidades é a mesma coisa. Agora até falamos muito neste problema, por causa da composição do governo. Esta nossa forma de limitarmos a nossa capacidade de olharmos à volta e de sermos de facto ousados e ambiciosos na atracção dos melhores - que obviamente não podem ser os que estão à nossa beira, porque só por mero acaso é que isso aconteceria - está a limitar a nossa capacidade de construir equipas fortes. Isto depois é uma bola de neve. Fiquei espantado, porque segundo o artigo que referi, Coimbra é onde há mais inbreeding. Esta forma de pensar mata completamente a capacidade de nos reinventarmos.

Curiosamente, para a liderança das universidades, até há concursos públicos internacionais…
Nós temos sempre leis muito boas. O problema é a prática… A realidade que se instala perpetua-se.

É por causa disto que também se envolve na política e em eleições, como aconteceu nas últimas autárquicas em Coimbra?
Absolutamente.

Apoiou uma candidatura independente…
Não foi um envolvimento antipartido. Precisamos é de competir com os partidos, dizer-lhes que se não conseguem fazer melhor então eles têm um problema. Temos de criar alternativas, para que os partidos sejam mais exigentes, mais rigorosos nas propostas que nos fazem. Estou abismado e perplexo com o que acontece numa cidade como a minha. Tínhamos tudo para ter uma cidade vibrante e não temos. Coimbra perdeu o comboio.

Porquê?
Isto é culpa das ofertas partidárias que se instalaram e das lógicas muito pouco ambiciosas e muito pouco baseadas em mérito e é preciso começar a apresentar outras propostas para que as pessoas percebam que temos alternativas e que não precisam de estar expostas apenas ao que os partidos apresentam. Porque é de facto muito mau. Há uma lógica hoje nos partidos que não é suficientemente boa. Eles são importantes, mas temos de competir com eles e dizer-lhes que se não têm mais cuidado com o que nos apresentam então estão fora.

Trump, Bolsonaro e outros chegaram ao poder com essa mensagem, a de que os partidos estão fora. Faz sentido ter receio desse debate?
Há um risco, mas não podemos ficar reféns. O risco de não fazer nada é maior. O desalento, a perplexidade e a irritação é grande, se não encontrarmos alternativas, evitando extremismos, então a probabilidade de estes virem mesmo a acontecer é maior. É melhor envolvermo-nos no exercício de cidadania, que confronte pela positiva os partidos, como nós fizemos aqui em Coimbra. É melhor desafiar o sistema e esperar que os partidos melhorem do que ficar à espera que a situação se degrade a tal ponto em que estes actores de que fala surgem.

Enquanto empresário, sentiu em algum momento que estava a pagar esse envolvimento na política?
Não. Isso também não me preocupa. A Critical é um projecto bem sólido, não está dependente de nenhuma figura, nem da minha.

A economia portuguesa sustenta as suas propostas? Teme ser considerado um utópico?
A utopia serve-nos. Por definição, não pode ser alcançada, mas aponta um caminho. Não tenho medo de ser utópico, desde que isso faça com que possamos dar passos no sentido que queremos. Na Critical, as pessoas acreditam nesta visão, e estimam-na. É claro que temos de provar que esta visão é mais do que um conjunto de palavras bonitas. Já passámos por maus bocados e em 20 anos já houve momentos em que as coisas não corriam bem. Mas foi possível ultrapassá-los, por mérito nosso.

Agora está num bom momento?
Diria que estamos num muito bom momento. É a altura de nos prepararmos para os maus momentos que vêm aí de certeza.

Neste contexto, o que significa o prémio que vai receber nesta sexta-feira?
Coimbra é a cidade onde a Critical nasceu e a empresa é um spin off da universidade. É um prémio com um prestígio muito grande, que não é meu, e que nos orgulha a todos. O orgulho, como dizia no início, constrói comunidades.

Talvez não tenha lido o regulamento: o prémio é seu, é individual.
Reconhece o caminho de uma comunidade feito a partir de Coimbra, onde tudo isto era pouco provável. Nascemos no domínio aeroespacial, fizemos um caminho a partir daqui. Eu saí, eu voltei, mas não há nenhuma dúvida que este prémio reconhece o caminho da Critical. Sem a empresa, não haveria Gonçalo.

Sei que vai doar o prémio de 25 mil euros...
Sim, o prémio foi doado a uma instituição e a escolha foi feita por todos nós aqui na empresa

Fez um referendo?
Fizemos um referendo, que foi muito participado.

Vai doar o dinheiro a quem?
Vamos dar ao espaço Kastelo da Associação NOMEIODONADA, no Porto. Vamos construir uma sala que estimule sensorialmente crianças que recebem cuidados paliativos. Foi escolhido com uma margem confortável de entre as quatro alternativas propostas.