Fernando Ribeiro de Mello: o gosto e a coragem de ser contra

A exposição Editor de Vanguarda mostra o percurso do criador da Afrodite, desde os anos de glória, quando publicava Sade em pleno Estado Novo, até ao seu penoso ocaso no novo Portugal democrático.

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Uma das fotografias que saiu a acompanhar a reportagem de Fernando Dacosta na revista angolana Notícia. Fernando Ribeiro de Mello está na banheira e ao fundo, à esquerda, Mário Cesariny. dr
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A exposição Editor de Vanguarda: Fernando Ribeiro de Mello e a Afrodite, que ainda poderá ser vista na Biblioteca Pública Municipal do Porto (BPMP) até ao final do mês Adriano Miranda
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Reportagem no Diário de Lisboa dr

Foi seguramente o mais insólito lançamento editorial a que Lisboa assistiu nesses últimos anos do Estado Novo. Na noite de 15 de Dezembro de 1971, o jovem editor da Afrodite, Fernando Ribeiro de Mello, então com 30 anos, reuniu em sua casa – um rés-do-chão em Campo de Ourique – uma chusma de jornalistas e um sortido variado de figuras dos meios culturais lisboetas, tendo-os recebido dentro de uma ampla banheira circular cheia de água pré-aquecida, coadjuvado por uns sujeitos vestidos de diabo e um par de travestis em trajes menores em cujos corpos tinham sido desenhados os títulos dos quatro livros a apresentar.

Eram eles uma edição em dois volumes da História Trágico-Marítima de Bernardo Gomes de Brito, com textos de Fernando Luso Soares, José Saramago e Maria Lúcia Lepecki e ilustrações de Cruzeiro Seixas, Carlos Calvet e José Escada, o Grande Livro de S. Cipriano, com comentários de Alçada Baptista, António José Forte e outros, e ilustrações de Martim Avilez, as Aventuras de Alice no País das Maravilhas, com notas de Manuel João Gomes e ilustrações de John Tenniel, e ainda o Anti-Dühring de Friedrich Engels, que se tornaria a última edição de Fernando Ribeiro de Mello proibida pela Censura, culminando uma longa lista iniciada em meados dos anos 60 com dois livros que o levaram mesmo ao banco dos réus dos tribunais plenários da ditadura: a Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, organizada por Natália Correia, e A Filosofia na Alcova, do Marquês de Sade.

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A exposição Editor de Vanguarda: Fernando Ribeiro de Mello e a Afrodite, que ainda poderá ser vista na Biblioteca Pública Municipal do Porto (BPMP) até ao final do mês, dá justificado destaque a este episódio, mostrando a sua repercussão na imprensa da época. E tendo em conta que se tratava de um editor que já tinha duas condenações no cadastro e cuja actividade tendia a ser prudentemente silenciada pelos meios de comunicação, pode dizer-se que o golpe publicitário, engendrado com a colaboração do artista João Vieira e de um grupo de amigos onde se incluía o futuro editor da & etc., Vítor Silva Tavares, não resultou nada mal: no dia seguinte, uma enorme fotografia da sessão, mostrando Ribeiro de Mello só com a cabeça e o peito fora de água e rodeado de jornalistas com blocos de notas, microfones e câmaras, ocupava boa parte da primeira página do Diário de Lisboa. Sob o título Um editor na banheira, o jornal convidava os leitores a seguirem, nas páginas interiores, o “relato fidedigno” da bizarra conferência de imprensa, assinado pelo repórter Fernando Assis Pacheco.

O editor, com o seu vestuário imaculado, os seus bigodes revirados e o seu estilo provocador, era já então conhecido como o Dalí de Lisboa, e um dos jornalistas presentes perguntou-lhe se assumia a alcunha. Assis Pacheco regista a resposta: “Cada povo tem o Dalí que merece, embora alguns Dalís (é o meu caso), não tenham o povo que merecem. Mas enfim…”. E o repórter concluía: “Neste 'enfim' ia uma banheira de sugestões”.

Outros jornais deram-lhe menos importância e optaram por um tom notoriamente crítico, mas a revista angolana Notícia, pela pena de Fernando Dacosta, descreve a sessão em detalhe e com evidente simpatia pelo editor. “Enfaticamente, sob os olhares das câmaras e as bocas dos microfones, o anfitrião pôs a navegar o seu número, respondendo com surpreendente brilho e ironia às perguntas enredemoinhadoras (...)”, escreve Dacosta. Uma das fotografias que ilustrava o artigo, de Garcia dos Santos, mostrava Ribeiro de Mello com o livro de Engels na mão. Imagem que “teria sido certamente proibida num jornal de Lisboa”, comenta Pedro Piedade Marques, curador desta exposição, no seu livro Editor Contra – Fernando Ribeiro de Mello e a Afrodite, cuja publicação em 2015, com a chancela da Montag, veio relembrar o fascinante trajecto deste pequeno editor bigger than life, que andava já bastante esquecido.

“À roda dessa banheira esteve o mundo cultural de Lisboa, a coisa foi muito bem montada, e não foi só engraçada, foi a maior defesa pública alguma vez feita da pequena edição portuguesa”, argumenta Pedro Piedade Marques também editor, designer gráfico e tradutor. “Fernando Ribeiro de Mello era muitíssimo corajoso”, acrescenta. “O Vítor Silva Tavares disse-me que só tinha conhecido outro tipo com tantos tomates, que era o João César Monteiro”.

O teste

A investigação que desenvolveu para escrever o livro serviu também de base para esta exposição e para aquela que a antecedeu, inaugurada em Março de 2017 na Biblioteca Nacional e intitulada Insólita Ofensiva de Corrupção, a expressão utilizada pelo censor Joaquim Palhares para descrever a actividade editorial de Ribeiro de Mello numa nota em que propunha a proibição de A Vénus de Kazabaϊka, de Leopold von Sacher Masoch, que a Afrodite publicara em 1966 com fotografias de Sena da Silva. Pedro Marques ajudou ainda os argumentistas da série televisiva Três Mulheres, em exibição na RTP1, a comporem a personagem de Ribeiro de Mello, interpretado com brio por Isac Graça.

Incluindo não apenas o catálogo quase integral da Afrodite – com algumas peças raras, como um exemplar da tiragem especial numerada da Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, ou mesmo raríssimas, como o livro-objecto Soldadinho de Chumbo, edição extra-série da notável colecção infantil Cabra Cega –, a exposição da BPMP mostra ainda correspondência de Ribeiro de Mello com vários autores, documentos da Censura, e um conjunto de edições que ajudam a contextualizar o percurso da Afrodite: livros da Minotauro de Bruno da Ponte, cuja sede foi assaltada e destruída pela PIDE em 1967, da Contraponto de Luiz Pacheco ou ainda da Ulisseia, de Joaquim Figueiredo Magalhães, na fase em que teve Vítor Silva Tavares como director literário.

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Pedro Marques escolheu ainda algumas edições dos editores franceses Jean-Jacques Pauvert (uma óbvia referência de Ribeiro de Mello) ou François Maspéro para mostrar que os processos judiciais contra o proprietário da Afrodite, sendo uma raridade no Estado Novo – que por norma preferia a apreensão de livros e a intimidação policial ao risco de dar aos editores mais incómodos a visibilidade de um processo judicial –, tinham antecedentes internacionais próximos. Uma das obras expostas é L'Affaire Sade, de Maurice Garçon, o advogado que na segunda metade dos anos 50 representou Pauvert no processo que lhe foi movido por ter publicado quatro obras de Sade. “Manuel João Palma Carlos, que defendeu Ribeiro de Mello no processo relativo à edição de A Filosofia na Alcova, usou claramente este livro como modelo para a sua defesa”, sublinha Pedro Marques.

Uma dos mais curiosos documentos expostos é aliás uma carta do editor da Afrodite a Pauvert, onde o primeiro nota que só a “fatalidade geográfica” justifica que a admiração que nutre pelo seu colega francês não possa ser correspondida: “Ribeiro de Mello sabe muito bem que se estivesse em França seria um outro Jean-Jacques Pauvert, e Jean-Jacques Pauvert não sabe que se tivesse nascido entre 10 milhões de portugueses analfabetos e reaccionários seria certamente um outro Ribeiro de Mello.”

Em 1971, quando inventa a sessão da banheira, o editor está no auge. Fora perseguido, condenado, tinha visto serem apreendidas partes substanciais das tiragens de algumas das suas edições, mas conseguira aguentar-se. Os seus livros eram muito bem feitos, altamente inovadores do ponto de vista gráfico – contou com a colaboração de uma série de artistas talentosos em início de carreira, como Eduardo Batarda, Martim Avilez ou Henrique Manuel –, e Ribeiro de Mello vendia-os a preços francamente elevados, com o longo cadastro de proibições a atiçar o interesse por cada nova edição que lançava.

“Quando chegou a Lisboa, aos 22 anos, passava fome, aos 30 era rico e aos 40 estava falido”, resume Pedro Marques. Perceber melhor esta ascensão e queda tão radicais foi precisamente uma das razões que o estimulou a investigar mais a fundo a história de Ribeiro de Mello.

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Filho de um conhecido advogado do Porto, com quem se terá incompatibilizado, o jovem Fernando chegou a Lisboa sem dinheiro nenhum (recolhia garrafas para comer com o dinheiro que recebia da entrega do vasilhame), mas foi rapidamente adoptado pelo grupo que orbitava em torno de Natália Correia, onde também pontificavam Luiz Pacheco ou Manuel de Lima, que faziam a ligação a futuros colaboradores da Afrodite, como Ernesto Sampaio, António José Forte ou o próprio Vítor Silva Tavares.

A ambição de Ribeiro de Mello parecia então resumir-se a seguir uma carreira de diseur. E com o apoio de Natália Correia organiza na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Junho de 1964, uma sessão a que chamou O Teste e que provocou considerável escândalo, tendo dado origem a uma violenta polémica com o marido de Sophia de Mello Breyner Andresen, Francisco Sousa Tavares. A ideia da sessão era demonstrar que o prestígio de alguns poetas, e especialmente os neo-realistas, não resistiria a uma espécie de “prova cega” lírica. Emparelhando poetas mais consagrados com surrealistas, concretistas e outros autores mais novos que prezava, Ribeiro de Mello e a actriz Isabel de Castro liam os poemas sem identificar os autores e Vítor Silva Tavares e outros cronometravam os aplausos. Resultado: Natércia Freire venceu Sophia por 44 contra 17,5 (segundos), Manuel de Castro venceu Ruy Belo à justa, Almada Negreiros, presente na sessão, espetou um humilhante 51 a 15 a José Gomes Ferreira, e o próprio organizador viu uma composição da sua autoria (Ponte II) bater por 30 a 14 um poema de Maria Teresa Horta. O único que teve direito a um minuto seguido de palmas foi o malogrado António Maria Lisboa.

A visibilidade que este provocatório recital trouxe a Ribeiro de Mello pode ter sido decisiva para o levar ao passo seguinte: a criação da Afrodite, cujos livros, desde o início, ostentaram na capa o nome do editor.

Iniciada em 1965 com uma edição do Kama Sutra e a já referida antologia organizada por Natália Correia, a Afrodite iria revolucionar nos anos seguintes o meio editorial português não só pela qualidade e inovação das edições, mas também por arrojados golpes publicitários. Já depois da performance da banheira, quando lançou, em 1972, o Manual dos Inquisidores, pôs uma camioneta de caixa aberta a percorrer a Avenida da Liberdade com uns figurantes vestidos de verdugos a chicotearem as suas vítimas, que iam soltando gritos lancinantes.

Entre as edições mais emblemáticas da Afrodite conta-se um conjunto de notáveis antologias: a Antologia do Conto Fantástico Português (1967), a Antologia do Conto Abominável (1969), com selecção, tradução e notas de Aníbal Fernandes, a extraordinária Antologia do Humor Português, do mesmo ano, com selecção e notas de Ernesto Sampaio e Vergílio Martinho, um tijolo de mil páginas que é também uma façanha gráfica, com largas dezenas de desenhos originais de Batarda, Carlos Ferreiro, João Machado e José Rodrigues, ou ainda a Antologia do Humor Negro, de André Breton. A Sociedade do Espectáculo, de Guy Debord (1972) ou a Nova Recolha de Provérbios e outros Lugares Comuns Portugueses (1974), coordenada por Manuel João Gomes, são outras das muitas edições marcantes da Afrodite.

Ironicamente, o 25 de Abril e o fim do regime que Ribeiro de Mello tão corajosa e provocadoramente afrontara irão ser fatais para a Afrodite. De repente podia publicar-se tudo e não era fácil, alegará, continuar a “editar perigosamente contra”. De livros anti-soviéticos em pleno PREC ao Mein Kampf de Hitler, tenta continuar a chocar, mas sem sucesso comercial, e a machada final vem com a passagem da distribuidora Bloco Expresso, com a qual assinara um prometedor contrato exclusivo, para a esfera do Estado. A intenção é criar-se uma distribuidora pública, mas o projecto arrasta-se durante anos, até que, em 1979, no governo de Mota Pinto, o Estado decide sair da distribuidora, contribuindo para a ruína de várias editoras, Afrodite incluída.

No final da vida, Ribeiro de Mello, que morre em 1992 com apenas 50 anos, está de novo tão falido como quando chegara a Lisboa.