Morreu Joaquim Figueiredo Magalhães, "um dos melhores editores" portugueses do séc. XX

Foi o primeiro editor português a ir à Feira do Livro de Frankfurt e a dar adiantamentos a escritores

a Pela Estrada Fora, do norte-americano Jack Kerouac, Bonjour Tristesse de Françoise Sagan, Viagem ao Fim da Noite, de Louis Ferdinand Céline representam alguma coisa para si? Foram pela primeira vez publicados em Portugal, durante a ditadura, por Joaquim Figueiredo Magalhães, o fundador da Ulisseia, que morreu ontem de madrugada, aos 92 anos, no Hospital dos Capuchos, em Lisboa. O funeral realiza-se hoje com missa, às 15h, e cremação, às 16h, no cemitério do Alto de S. João, em Lisboa. Casado com a escritora Rosa Lobato Faria, há mais de 30 anos, é considerado "um dos melhores editores do século XX português". Quem o diz é o editor Vítor Silva Tavares, que trabalhou na Ulisseia depois da sua saída e para quem Figueiredo Magalhães desenvolveu na sua área "um trabalho notabilíssimo". Não há ninguém na profissão que não diga o mesmo.
Numa entrevista que deu a Catarina Portas, em 1999, Joaquim Figueiredo Guimarães afirmava: "Os editores falham ou porque são dedicadamente editores e não são administradores, ou porque são friamente administradores e não têm alma de editores." Assumia que a ideia fundamental da Ulisseia era "instrução e divulgação". O editor Manuel Alberto Valente considera que Figueiredo foi "o primeiro editor moderno português"- chegava ao ponto de adiantar dinheiro aos escritores para que estes tivessem disponibilidade para escrever os livros. José Cardoso Pires, Alexandre O'Neill, Sttau Monteiro, Augusto Abelaira eram seus cúmplices.
Figueiredo Magalhães nasceu no Porto em 1916, estudou no colégio jesuíta La Guardia, passou pela Universidade de Coimbra e formou-se em Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras de Lisboa e fez também o curso da Escola Superior Colonial. Fundou a Ulisseia em 1948, uma das mais importantes e interessantes editoras daquele tempo (acabou por ser comprada em 1972 pelo grupo Verbo). Teve a ideia de fazer uma revista literária de qualidade, A Semana, e para o primeiro número José Cardoso Pires entrevistaria o primeiro-ministro polaco Gomulka; Alexandre O'Neill iria entrevistar o Presidente jugoslavo Tito e Castro Soromenho entrevistaria o Presidente egípcio Abdel Nasser. Mas a PIDE soube e Figueiredo Magalhães foi chamado. Perguntarem-lhe se não havia em Portugal gente interessante para entrevistar, aproveitou a deixa e perguntou ao inspector se ele lhe arranjava uma entrevista "com o dr. Salazar". A Semana foi proibida antes mesmo do primeiro número. Surgiu depois a revista Almanaque.
O editor José da Cruz Santos contou ao ípsilon que, quando o escritor Camilo José Cela esteve em Portugal, depois de a Ulisseia ter editado A Catira, achou que a tradução do Dinis Jacinto era excepcional. "Quando soube, o Figueiredo escreveu ao Dinis Jacinto a pedir desculpa por não se ter apercebido da qualidade do trabalho. Junto mandava um cheque com um complemento de pagamento a que nada o obrigava. Não sei se mais algum editor português seria capaz do gesto", observou o editor.