Ernesto Sampaio: a morte solitária de um poeta

"Tudo existe na sombra", escreveu ele em "Para Uma Cultura Fascinante", incluído em "Luz Central" (Hiena 1990), pequeno livro de textos escritos em 1958, altura em que dizia sentir-se "retirado de um mundo absurdo". Sombria foi também a sua morte. Em Lisboa, sua terra natal. Sombria e solitária. Ernesto Sampaio, poeta, tradutor, pensador, bibliotecário, jornalista, morreu esta semana, junto dos seus livros e das suas memórias. Em sua casa. A casa que, para este poeta, passou a ser "lá longe onde nascem os lobos". O seu corpo foi encontrado, sem vida, na quarta-feira à noite. Faria hoje, 7 de Dezembro, 66 anos. A morte arrancou-o subitamente, assim como o fizera, no ano passado, à actriz Fernanda Alves, sua mulher. O seu último livro, "Fernanda" (Fenda, 2000) , a que ele chamava "o seu coração empalhado", é o testemunho dessa morte e de um amor decisivo que foi, do lado dos grandes afectos, o sustentáculo de uma vida: "Estar vivo é acordar todas as manhãs no inferno (...) A recordação de um só dia contigo torna inúteis o labor e o prazer de todos os dias que me restam viver". A morte dela não pode deixar de estar associada a este final de vida de Ernesto. E foi, de facto, tão pouco o tempo que Ernesto Sampaio sobreviveu à tragédia de Fernanda. Um tempo em que o poeta misturou a angústia com a criação, em escrita e traduções e, nos últimos tempos, nas críticas de livros ("Mil Folhas") e de teatro que publicava no PÚBLICO, tendo substituído o crítico Manuel João Gomes. Ernesto era um homem de teatro. Colaborava com traduções para companhias como o Teatro de S. João do Porto ou a Companhia de Teatro de Almada (CTA). A sua versão de "O Cerco de Leninegrado" de José Sanchis Sinisterra, espectáculo da CTA protagonizado por Fernanda Alves, é apenas um exemplo. Nos últimos dias, estava a trabalhar na tradução de "Paolo Paoli" de Artur Adamav, que seria levada à cena, no próximo ano, em Almada. O encenador da CPA, Joaquim Benite, amigo íntimo do poeta, disse ao PÚBLICO que Ernesto era "um homem de uma cultura vastíssima, com uma capacidade de estudo invulgar e de uma rara honestidade intelectual. Uma grande perda para o teatro, para a literatura e cultura portugueses. Era um pensador, uma das últimas figuras ligadas às tertúlias de café de Lisboa e ao surrealismo".Surrealista corajosoErnesto Sampaio foi um dos grandes teóricos do surrealismo, embora a sua obra seja curta e o seu temperamento tenha sido discreto. Disse ele, numa entrevista ao PÚBLICO (12-10-93): "Dá-me um certo prazer ser esquecido, assistir às coisas como se não existisse, como se não tivesse uma presença real, estar e não estar". Este desejo de estar à parte, numa espécie de não visibilidade, tornou-o pouco conhecido dos leitores, mas um nome indispensável para o conhecimento das margens da literatura portuguesa contemporânea, ao lado, por exemplo, de Cesariny, Herberto Helder, Ângelo de Lima ou António Maria Lisboa. O próprio Herberto antologiou-o na sua obra "Edoi Lelia Douro" ("Assírio e Alvim", 1985) e escreveu sobre ele: "As reflexões sensíveis deste autor, os seus poemas - meditações ou como se lhes queira chamar - são dos textos mais agudos e corajosos que entre nós se escreveram, na modernidade, dentro da e sobre a 'experiência poética'".Ernesto estava igualmente a trabalhar num livro de memórias para a editorial Fenda. Seria um livro, disse o editor Vasco Santos, com um registo "entre o literário e o convivial, um livro de recordações que surgia no seguimento da morte da Fernanda, uma espécie de ajuste de contas com a vida". Para a mesma editora, estava a terminar a tradução do livro "O Silêncio do Patinador" de Juan Manuel Prada. A Cotovia, após a tradução de "Kafka", uma biografia da autoria de Pietro Citati, irá editar no próximo ano "O Príncipe Constante" de Calderón de la Barca, também com tradução sua. Como jornalista, havia trabalhado no "Diário de Notícias" e no "Diário de Lisboa". É autor de mais de três dezenas de traduções de livros como "As Lições" de Ionesco, "Lenz" de Büchner, "Equador" e "Um Bárbaro na Ásia", de Michaux, ou "Nadja" de Breton.Ernesto Sampaio deixa um espólio riquíssimo, biblioteca e colecção de arte contemporânea, nomeadamente uma sub-colecção de arte africana, que foi acumulando ao longo dos anos, juntamente com Fernanda Alves. Segundo Mário Cesariny disse ao PÚBLICO, a Fundação Cupertino de Miranda tinha a intenção de adquirir o conjunto deste espólio, obras de arte, livros e manuscritos.Dos livros do poeta, destacam-se, além dos referidos, "A Procura do Silêncio" (Hiena, 1986), "O Sal Vertido" (Hiena, 1988), "Feriados Nacionais" (Fenda, 1999), "Ideias Lebres" (Fenda, 1999). Colaborou em várias obras colectivas, designadamente na "Antologia do Humor Português" (1969) e na antologia da Poesia Surrealista Portuguesa, "A Única Real Tradição Viva" (Assírio e Alvim, 1998) organizada por Perfecto E. Cuadrado.O corpo de Ernesto Sampaio é hoje autopsiado, estando os amigos mais próximos a tentar que os seus restos mortais venham a repousar no talhão dos artistas do Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, junto à sepultura de Fernanda Alves, autorização que foi já concedida por João Soares, presidente da Câmara de Lisboa.O que disse Ernesto, de Fernanda, pode ser dito agora dele, pela suas próprias palavras: "É uma planta que continua a florescer depois de ter sido arrancada".