Manuel João Gomes Um crítico de teatro diferente

Não é fácil falar dele. Falo de um amigo, do companheiro da Luiza Neto Jorge, amiga e colaboradora desde Ah Q, em 1976, falo do pai de um amigo actor, o Dinis. Luís Miguel Cintra

a Chega um dia a vez em que somos nós, gente do teatro, a falar dos críticos. Para nós, os mais velhos, e nesta terra pequena, acabaram por ser nossos especiais companheiros na luta que ao longo de muitos anos fomos travando para que o teatro existisse na cidade.Todos, nós e eles, entrámos nesse pequeno jogo de dependências: nós à espera que pelo menos eles nos reconhecessem o esforço e o trabalho. Eles, dependentes do nosso trabalho e do nosso reconhecimento para se sentirem importantes, à espera que os amássemos ou os odiássemos. Mas neste pequeno, e no fundo tão fechado, jogo mundano, todos finalmente com vontade de que o teatro existisse.
Hoje já não é assim. Com a perda de importância dos jornais e com os critérios comerciais que lhes presidem, e com a "profissionalização" da actividade teatral, quem manda que o teatro exista ou não é o dinheiro, é a publicidade. Os críticos perderam espaço e importância. E, apesar das pequenas guerras e das muitas ofensas e ressentimentos a que a sua actividade dava origem, eu tenho pena.
O Manuel João Gomes também foi crítico de teatro. Mas com ele tudo se passou de maneira diferente. Foi talvez de todos os críticos, o mais discreto, o mais modesto, o mais militante. Foi na crítica de teatro uma espécie de doce guerrilheiro.
Não é fácil falar dele. Falo de um amigo, do companheiro da Luiza Neto Jorge, amiga e colaboradora desde o espectáculo Ah Q, em 1976, tão fundador de tanto trabalho posterior da Cornucópia, falo do pai de um amigo actor, o Dinis, que, pela mão de seus pais, já em 1985 foi um dos pequenos príncipes assassinados pelo meu jovem Ricardo III e que, depois de, em adolescente, em 1989, ter sido o anjo que aparecia ao Papa em Vida e Morte de Bamba de Lope de Vega, agora tem feito parte importante da nossa Companhia. Falo mais de um quase membro da Cornucópia que de um crítico. Várias vezes deixou o seu ofício de incansável tradutor discreto lá no alto de uma casa da rua da Misericórdia, para voltar ao teatro onde, na Companhia de Campolide, tinha trabalhado, e traduzir para nós. Sempre tão bem, sempre com tanto entusiasmo e graça e sempre projectos especiais de quem conhecia mais literatura que a de toda a gente, e quase sempre projectos brincalhões, apesar daquele seu ar sisudo: foi ele que traduziu do latim as cenas de tantas peças de Plauto que em 1979 deram origem ao espectáculo Paragens Mais Remotas que Estas Terras, foi ele que em 1986 traduziu A Mulher do Campo de Wycherley, e, com a Luiza, a Vida e Morte de Bamba. E foi ele que em 1990, quando alguém na Secretaria de Estado da Cultura resolveu obrigar as companhias subsidiadas a apresentar anualmente um texto da dramaturgia portuguesa, me sugeriu o teatro esquecido de um autor importante do nosso século XVIII, Manuel de Figueiredo, e, conhecendo como ninguém "o nosso jeito", com ele fez uma tão engraçada e inteligente dramaturgia, com teatro dentro do teatro, para o espectáculo Um Poeta Afinado. E para muitos outros grupos e pessoas trabalhou, sempre que gente de bem o desafiava. Nesses anos 80 e princípios de 90, difíceis para o teatro português, acompanhou-nos a par e passo, saltando descaradamente da bem pensante pretensa neutralidade de um crítico para um profundo compromisso com o que, a seu ver, era o teatro que importava defender. Andou "infiltrado" nos jornais a trabalhar para nós. E quando digo aqui nós, não falo da minha companhia, falo de todos aqueles em quem reconhecia uma vontade criadora, uma possibilidade de inovação, uma alegria de estar em cena, um projecto político, um sonho de sociedade regida por outras regras mais generosas que as do mercado. A sua actividade como crítico rompeu as regras. Viu talvez mais que ninguém todos os espectáculos, sem nenhuma hierarquia. Viu e escreveu muito sobre todos os projectos a que mais ninguém dava importância, os dos muito novos, os de quem não tinha dinheiro, os dos amadores, os de quem não tinha ainda história. Descobriu muitos actores, encontrava talento onde menos se esperava. Mais do que nenhum crítico, trabalhou ao nosso lado contra a incompreensão da importância pública do trabalho teatral pelas políticas culturais. Foi o crítico mais ousadamente parcial. Mais do que estar interessado em ser juiz da qualidade, trabalhava discretamente contra o poder. Consciente do poder que tinha na sua posição de crítico, boicotando o bom senso.
São tempos que já lá vão. E na última fase da sua vida ele já não pôde acompanhar-nos. Gostava de saber como teria reagido à recente afluência de público e à simultânea degenerescência de uma chama que tanto defendeu. Não sei. Imagino que com alguma melancolia. Que aqui fique um pouco lembrado como bom amigo e como esse caso especial, um crítico diferente, menos amigo de si próprio e mais amigo da margem, da indisciplina e das revoltas. Adeus, Manuel João.

Encenador, actor e director do Teatro da Cornucópia

A Galeria Zé dos Bois (Lisboa) está a atrair uma aura mística. Dificilmente se teria previsto que esta casa em ruínas (...) também viria a pedir (...) um lugarzinho para cultos mais ou menos heterodoxos (...). Depois de um Esboço no Verão, (...), o projecto em que estiveram implicados Miguel Loureiro, Mariana Sá Nogueira, Gonçalo Ferreira de Almeida, Marcello Urgeghe, Pedro Tobias (e não só) tentou "tornar o acontecimento cénico em acto de amor e louvor "de... (Deus)". Teatro do crente. A subida ao Gólgota da ZDB culminaria no sulfúrico protesto de Job e do seu Livro inesgotavelmente acusador. O peixe vivo em cena, símbolo perfeitíssimo de Cristo e de Job, é uma imagem cénica impressionante, que faz do animal um involuntário, mas eficaz performer do espectáculo-celebração. Qualquer coisa, porém, terá falhado para que o Esboço (I) perdesse qualidades no Esboço (II). Valerá a pena esperar por um outro rito que complete este, o qual, tal como está, soçobra um pouco no vazio? Vale a pena esperar. Manuel João Gomes nasceu em Coimbra em 1948 e morreu a 5 de Fevereiro de 2007, na mesma cidade, com uma broncopneumonia. Crítico de teatro do PÚBLICO desde a fundação e durante uma década, foi ainda um tradutor reconhecido. Em 1988 recebeu
o Prémio PEN Clube de tradução por A Vergonha, de Salman Rushdie, foi vice-presidente
da Associação Portuguesa
de Tradutores, e fundador
do Grupo de Teatro de Campolide. Casado com a poeta Luiza
Neto Jorge (1939-1989) é o pai
do actor Dinis Gomes.