Autoeuropa produziu 224 mil carros, um recorde aquém do objectivo

Com o exclusivo europeu do T-Roc, a fábrica de Palmela pulverizou o recorde de produção. Mas as três paragens forçadas impediram-na de chegar à meta de 240 mil veículos.

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Daniel Rocha

A fábrica da Volkswagen em Portugal construiu 224 mil carros durante o ano de 2018, segundo números provisórios obtidos pelo PÚBLICO. Este número inclui os modelos Seat produzidos naquela unidade. É um aumento de 103% face à produção de 2017, que fica no entanto aquém do objectivo de 240 mil carros, que o construtor germânico tinha estipulado para a unidade de Palmela. O número final será apurado dentro de dias, quando a Associação Automóvel de Portugal (ACAP) divulgar os dados da produção de Dezembro. E deverá confirmar que os 5900 trabalhadores da Autoeuropa atingiram 93% do objectivo que tinha sido fixado pela equipa de gestão. 

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A Autoeuropa tem o exclusivo da produção do T-Roc para o mercado europeu e isso é decisivo para a unidade de Palmela REUTERS/Kai Pfaffenbach/Arquivo

Para este resultado contribuiu (à semelhança do que sucedeu em 2017) a construção, em regime exclusivo para o mercado europeu, do VW T-Roc – um SUV mais pequeno que a marca lançou em Agosto de 2017. Tal como já se esperava, a fábrica pulverizou todos os recordes de fabricação de automóveis em Portugal. Em 2017 tinha construído 110.256 viaturas – quantidade que no fim de Junho de 2018 já tinha sido ultrapassada. A estimativa da VW apontava para uma produção de 183 mil T-Roc em 2018.

Aliás, a Autoeuropa já tinha ultrapassado, no final de Agosto (mês de paragens) um recorde de produção anual que vigorava desde 1998​. E isto em oito meses que não foram propriamente fáceis de gerir, tendo em conta que 2018 começou com instabilidade laboral (incluindo uma ameaça de greve, em Fevereiro, que não se chegou a realizar). As razões desse clima já vinham desde o Verão de 2017, altura em que teve início a produção do T-Roc, e que obrigou a alterações no esquema de laboração, com o terceiro turno nos dias de semana desde Novembro e o aumento dos turnos ao fim-de semana, em duas fases, primeiro em Fevereiro (dois turnos ao sábado, que aumentaram a produção em 10%) e depois em Setembro (dois turnos ao domingo).

Pelo meio, houve uma prolongada negociação entre administração e trabalhadores, que rejeitaram as propostas iniciais de compensação pelo trabalho aos fins-de-semana; um referendo à comissão de trabalhadores que acabou por conduzir o responsável máximo à demissão; e uma greve no porto de Setúbal, na recta final do ano, que ameaçou o escoamento da produção, na mesma altura em que a paz social regressou finalmente à empresa. E isto tudo num ano em que a própria casa-mãe mudou de líder, com a ascensão de Herbert Diess, para acelerar mudanças num grupo que continua a pagar a factura do escândalo Dieselgate.

Porém, nada disso acabou por beliscar a importância da fábrica de Palmela para a economia nacional, em particular o contributo que dá às exportações portuguesas, como de resto viria a ser reconhecido pelo Banco de Portugal.

No Boletim Económico de Dezembro, esta entidade reconhecia que, ao contrário do que foi comum na zona euro, a desaceleração das exportações no primeiro semestre de 2018 tinha ficado "concentrada nos serviços, em larga medida devido ao impacto positivo do aumento da capacidade [da Autoeuropa] sobre as exportações de bens". Ainda assim, a paragem em Agosto (que não se tinha verificado em 2017) teria "alguns efeitos temporários com impacto negativo nas exportações em termos homólogos no segundo semestre de 2018", acrescentava o Banco de Portugal.

Três paragens forçadas

Mas a razão por que a empresa ficou aquém do objectivo de produção dos 240 mil carros assenta sobretudo nos três períodos de paragem forçada. Pelas contas do PÚBLICO, foram 27 dias de paragem: o primeiro coincidiu com o período da Páscoa (em Março/Abril, dez dias de paragem); o segundo aconteceu no final de Outubro/início de Novembro (oito dias de paragem); e o terceiro abarcou o período do Natal e do Ano Novo (Dezembro/Janeiro 2019, nove dias de paragem).

E a culpa disso foi das falhas na cadeia de abastecimento de componentes para motores, que se revelou impreparada para satisfazer uma procura cada vez maior por carros com motor a gasolina – uma alteração do lado da procura que, em apenas dois anos, virou do avesso toda a produção nacional, como o PÚBLICO já noticiou.

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É uma mudança substancial impulsionada pelo mercado europeu, com forte impacto numa unidade como a Autoeuropa, que exporta praticamente tudo o que produz. E fá-lo sobretudo para o mercado europeu, que absorve mais de 87% dos carros montados naquela unidade, sendo que a produção nacional de carros a diesel a caiu dos 77% para 36% entre 2016 e 2018.

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Mesmo que a exportação possa ter sido prejudicada, como admitia o Banco de Portugal, pela entrada em vigor do novo sistema de certificação de consumo e emissões dos veículos denominado WLTP – que tem impacto na factura fiscal –, os resultados da Autoeuropa deverão impulsionar a exportação de bens. Em 2017, segundo dados da empresa, "o peso das vendas da Autoeuropa nas exportações de bens de Portugal foi de 3,4%", peso esse que saltaria para 6,6%, graças à duplicação da produção e com tudo o resto constante. No final de Agosto, a previsão apontava para um cenário em que a Autoeuropa fecharia o ano a valer 5% das exportações nacionais.

Contactada agora pelo PÚBLICO, sobre os resultados de 2018, a empresa recusou para já fazer declarações.