As pessoas que descobrimos em 2018 (por boas e más razões)

É inevitável: a cada ano vamos descobrindo novos protagonistas, ora por razões memoráveis (no bom sentido), ora por razões que os próprios prefeririam esquecer. Uma selecção de nomes que vão ficar colados a 2018.

Fátima Carneiro

A patologista mais influente do mundo 

Este ano, em Setembro, Fátima Carneiro, directora do serviço de Anatomia Patológica do Centro Hospitalar de São João, no Porto, foi eleita a patologista mais influente do mundo. A distinção foi atribuída à investigadora portuguesa pela revista científica The Pathologist, que, ao longo de dois meses, inquiriu patologistas de todo o mundo sobre quem consideravam merecedor do título.

A médica portuguesa e docente da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto ficou em primeiro lugar na lista de cem posições elaborada pela revista britânica que, em 2015, já tinha atribuído a mesma distinção ao cientista Manuel Sobrinho Simões. Tal como Sobrinho Simões, Fátima Carneiro destacou-se no seu percurso profissional enquanto investigadora do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (Ipatimup), agora integrado no I3S (Instituto de Investigação e Inovação em Saúde). Especializou-se em cancro do estômago, tendo participado em diversas descobertas nesta área, com especial relevo para a forma hereditária do tumor gástrico. Fátima Carneiro assinou mais de 250 artigos científicos ao longo da carreira, que construiu com sucesso, mas longe da atenção mediática.

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Fátima Carneiro Nelson Garrido

Foi no final de Setembro que os holofotes se acenderam e “a patologista mais influente do mundo” foi apresentada ao país. Fátima Carneiro transformou a atenção que a deixa desconfortável numa oportunidade para reclamar mais e melhor para a patologia, “central na medicina”. Foi nessa altura que, numa entrevista ao P2, partilhou, sem vaidade, a sua determinação, dedicação e generosidade.

No piso superior, no seu gabinete, Fátima Carneiro falou sobre a carreira que concilia a actividade clínica, a direcção de um serviço hospitalar, as aulas como professora catedrática e a investigação. E o resto da vida. Apesar de se perder na recordação dos tempos de menina em Angola, a conversa voltava sempre ao trabalho. “Um fervilhar diário”, assegurou a todos os que imaginam que um patologista é um médico calado e sozinho, debruçado em cima de um microscópio dia após dia. Falou-se da dureza de confirmar uma suspeita de cancro presa numa amostra minúscula de uma lâmina e da importância que o olhar de um patologista pode ter na procura de uma possível solução ou, pelo menos, explicação. Lembrou o momento em que escolheu ser patologista em vez de pediatra. Defendeu a formação médica contínua e disse que quer deixar uma marca nesse capítulo durante o mandato como presidente da Academia Nacional de Medicina de Portugal. “Obter um título [de médico] não me confere competência. Eu tenho de me actualizar”, referiu, sugerindo uma maior responsabilização das estruturas pela oferta de acções de formação pós-graduada e também a introdução de testes online de autodiagnóstico para os médicos poderem avaliar os seus conhecimentos.

No final de duas horas de entrevista, regressou, apressada, para o gabinete, deixando a sensação de que a fizemos gastar muito do seu precioso tempo. No seu serviço, a patologista mais influente do mundo tinha um aluno de Medicina à espera e, em cima da secretária, estava ainda uma pequena caixa com lâminas de amostras de um tumor de uma vesícula biliar para analisar. Durante a entrevista, desabafou mais do que uma vez o incómodo com a tarefa que foi forçada a adiar: “Tenho aqui estas lâminas para fazer diagnóstico que não vou poder fazer agora. Estou a prejudicar os doentes por vossa causa.” Andrea Cunha Freitas

Vasco Brazão

O militar que investigou as mortes nos Comandos só ficou conhecido pelo caso de Tancos

O major Vasco Brazão estava em missão na República Centro-Africana (RCA) quando a sua família foi surpreendida por inspectores da Polícia Judiciária (PJ) nas buscas à sua casa em Lisboa. Nessa manhã, o então director da Polícia Judiciária Militar (PJM), coronel Luís Vieira, era detido, bem como elementos da PJM, da GNR e um civil.

O major e o coronel sabiam que estavam a ser investigados pela PJ há mais de um ano. Tinham recuperado o material de guerra furtado em Tancos, e isso merecera-lhes elogios das chefias militares e políticas. O próprio ministro da Defesa, à data, José Azeredo Lopes, foi felicitado pelos seus pares numa reunião da NATO. O Ministério da Defesa — que tutela a PJM — saía bem do caso depois do vexame do roubo de Tancos, noticiado pela imprensa europeia.

Na torrente mediática sobre as buscas a casas e escritórios e as detenções dos suspeitos para interrogatório, na última semana de Setembro, o nome de Vasco Brazão foi o que mais vezes foi referido. No conjunto dos nove arguidos no âmbito da Operação Húbris, era o único que se encontrava fora do país, o que lhe terá dado visibilidade aos olhos da opinião pública.

É, pelo menos, o que nota quem encontra uma suposta ligação entre o momento das buscas e detenções e uma alegada tentativa de descredibilizar o oficial que liderou a equipa de investigadores da PJM às duas mortes no curso 127 dos Comandos. O major estivera em Portugal de férias e poderia facilmente ter sido detido, mas a operação só foi lançada na manhã a seguir ao seu regresso à RCA, estando por isso ausente no momento das detenções.

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Vasco Brazão Tiago Petinga/Lusa

Seja como for, a semana em que os 19 militares se sentaram pela primeira vez no banco dos réus (no julgamento às circunstâncias das mortes nos Comandos) foi a mesma em que o major Vasco Brazão ficou conhecido por ser o arguido mais aguardado dos nove.

Foi detido à sua chegada ao aeroporto, ouvido ao longo de mais de dez horas, em duas ocasiões, e sujeito a uma medida de coacção de obrigatoriedade de permanência na residência e impedimento de contactar com militares ou com os restantes arguidos.

A investigação, que chefiou, às mortes por desidratação extrema dos dois recrutas, em Setembro de 2016, durou dez meses e culminou com aquilo que porventura poucos acreditariam ou desejariam: a acusação de oito oficiais, oito sargentos e três praças, todos militares do Exército do Regimento de Comandos, a maioria instrutores, por 539 crimes de abuso de autoridade por ofensa à integridade física. Mais tarde, viria a receber um louvor pela “clarividência, determinação e assinalável capacidade de organização, materializada no volume e qualidade processual apresentada”. 

As suspeitas, no caso dos Comandos, apontavam para crimes militares e seria a PJM a investigar. O mesmo não aconteceu com o roubo em Tancos, cuja investigação foi entregue à PJ pela então procuradora-geral da República, Joana Marques Vidal. A PJM, aqui também com o investigador-chefe Vasco Brazão, ficou oficialmente a colaborar com a PJ. 

A estratégia de defesa e a interpretação da forma como a PJM alinhou no esquema para recuperar o material de guerra são distintas quer se trate do major ou do coronel Luís Vieira, que dirigiu a PJM. 

Brazão admitiu ter recorrido a um informador, escudando-se no conhecimento posterior que a PJM terá dado à tutela. Vieira, que se encontra em prisão preventiva, manteve o silêncio. Os contornos pouco claros do recurso a informadores pelas polícias servem para quem, por um lado, diz não existir aqui qualquer crime, alegando ser esta uma prática frequente e necessária, e, por outro, para quem acusa, dizendo que nenhuma linha separa, neste e noutros casos, um informador de um suspeito de um crime.

No recato exigido pelo segredo de justiça e na proporcional limitação de acesso ao processo, por ele imposta, a defesa tem a missão de recuperar a imagem de um “homem honrado”, como afirmou o seu advogado, Ricardo Sá Fernandes.

Enquanto também porta-voz da PJM, o major tinha como objectivo projectar uma imagem da PJM como órgão de investigação criminal necessário, com uma função pouco conhecida e contestada, mas definida e justificada pelo Código de Justiça Militar. 

Vasco Brazão deixou a PJM, no início deste ano, para ingressar de novo no Exército e partir em missão para a RCA, onde foi chefe das operações do quartel-general de apoio à missão de manutenção de paz da União Europeia, que junta 12 Estados-membros.

O major estaria numa fase da carreira em que poderia ser promovido a tenente-coronel. Agora, entre a PJM, sob tutela do Ministério da Defesa, e o Exército, dependente das Forças Armadas, quem o quererá? Ana Dias Cordeiro

José Silvano, Emília Cerqueira e Maria Mercês Borges

As virgens ofendidas

Dentro e fora da sala do hemiciclo, os deputados dos vários partidos conseguem conquistar alguma notoriedade: uns porque são líderes de bancada, outros porque são dirigentes partidários, outros ainda porque têm espaços de comentário televisivo. Há ainda os casos em que os deputados se tornam célebres por darem a cara por uma causa política ou social. Noutras situações, são as polémicas que tomam conta do seu nome (quase) desconhecido do grande eleitorado. Ainda que possa ser um fenómeno breve. Aí são notícia de telejornal e saem da sombra. Foi o que aconteceu este ano a José Silvano, Emília Cerqueira e Maria das Mercês Borges, todos deputados do PSD, que ganharam notoriedade nacional, mas não pelos melhores motivos.

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José Silvano MIGUEL A. LOPES/Lusa

No caso de José Silvano, o deputado foi eleito em 2015 pelo círculo de Bragança, distrito onde foi presidente de câmara durante 12 anos. O seu nome já tinha sido notícia nacional por causa de uma coligação parlamentar (só CDS e PAN se colocaram à margem) para tentar, em segredo, alterar a lei financiamento dos partidos. José Silvano era o coordenador da bancada do PSD nessa comissão. Depois, a sua visibilidade aumentou quando foi nomeado secretário-geral do PSD, em Abril deste ano, em substituição de Feliciano Barreiras Duarte, deputado e ex-secretário de Estado que mostrou ter irregularidades no currículo académico. Mas foi o registo de uma falsa presença (e dúvidas sobre outra) numa sessão plenária da Assembleia da República que catapultou o nome de José Silvano. O Expresso noticiou, em Outubro, que o secretário-geral tinha registado com a sua palavra-passe no computador a presença numa sessão quando, na mesma tarde, estava a 400 quilómetros de distância numa iniciativa partidária. Quem teria então feito o log in no computador? O caso arrastou-se durante uma semana, uma das mais penosas desde que Rui Rio é líder do PSD. O próprio Silvano pediu, em conferência de imprensa, uma investigação do Ministério Público (o que viria a acontecer), o que pressupunha desconhecer quem teria acedido ao seu computador. Mas no dia seguinte o mistério seria desvendado, depois de o mesmo semanário ter confrontado Emília Cerqueira, a sua colega de bancada, com imagens da sessão plenária em causa que apontavam para que fosse a autora do log in.  

A deputada, advogada, eleita por Viana do Castelo, assumiu que entrou com a palavra-passe de José Silvano para aceder a ficheiros de que precisava. Com esse gesto assinalou (“inadvertidamente”) a presença do secretário-geral do PSD no Parlamento. Emília Cerqueira quis dar a ideia de que a troca de passwords no grupo parlamentar é banal, numa conferência de imprensa, transmitida em directo, pelas televisões. Foi essa opção que Maria Mercês Borges, deputada eleita por Setúbal, recusou ao também ser notícia por ter dado como presente (para contabilização do quórum) na votação da generalidade do Orçamento do Estado o seu colega Feliciano Barreiras Duarte, que esteve na sessão durante a manhã e saiu por causa de uma emergência familiar. Em comunicado, a deputada anunciou a demissão dos cargos que ocupava.

Já Emília Cerqueira deu a cara na televisão. 

Visivelmente acossada pela polémica, a deputada assumiu ser natural do “Alto Minho” para deixar uma frase que escandalizaria Lisboa: “Agora toda a gente se preocupa como um bando de virgens ofendidas numa terra onde não há virgens.” Virgem ou não, até houve quem se ofendesse nas bancadas do Parlamento, mas por pudor ficou em silêncio. Sofia Rodrigues

Jovane Cabral, Gedson Fernandes, Diogo Leite

Diamantes em lapidação

Quando o ano de 2018 começou, ainda não suspeitavam do que os 12 meses seguintes lhes iriam reservar. Mas, para todos eles, o ano que agora termina não será apenas mais um. Jovane Cabral, Gedson Fernandes e Diogo Leite confirmaram as suas qualidades como futebolistas promissores que, ainda crianças, lhes foram detectadas e conseguiram chegar ao topo.

Exemplo paradigmático é o caso de Jovane Cabral. O avançado do Sporting começou o ano de 2018 no banco de suplentes da equipa secundária dos “leões”, que defrontou o Sporting de Braga B, no Minho. A mais recente estrela da formação sportinguista só entrou no relvado já na parte final da partida, substituindo o quase anónimo Budag Nasyrov.

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Jovane Cabral David Martins/SOPA Images/LightRocket via Getty Images

O médio azerbaijano joga agora na I Liga daquele país asiático, vestindo a camisola do FK Zira. Segundo o site Transfermarkt, especializado em avaliações dos jogadores de futebol, o passe de Nasyrov tem um valor de mercado de 125 mil euros. Já Jovane Cabral é escolha assídua na equipa principal do Sporting (jogou em 18 encontros esta temporada e marcou quatro golos) e tem um valor de mercado, segundo o referido site, de 3 milhões de euros.

Percursos mais ou menos semelhantes tiveram Diogo Leite e Gedson Fernandes. Titulares, respectivamente, nas equipas de FC Porto e Benfica, que se defrontaram a 6 de Janeiro, no centro de estágios dos portistas, em Gaia, num clássico de equipas B, ambos foram subindo patamares.

Diogo Leite é o mais recente herdeiro de uma linhagem de defesas-centrais formados no FC Porto, com o selo de qualidade. Bruno Alves, que aos 36 anos continua a ser chamado à selecção portuguesa, Ricardo Costa, Ricardo Carvalho, Jorge Costa ou Fernando Couto, todos eles internacionais portugueses, foram lançados muito cedo na equipa principal portista.

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Diogo Leite DR

Diogo Leite aproveitou da melhor forma a lesão do reforço Mbemba, no início da temporada, e a oportunidade perdida por Chidozie, para mostrar as suas qualidades. Estreou-se a titular na equipa principal “azul-e-branca” ao jogar uma final - a da Supertaça, ganha ao Desportivo das Aves. E só com a chegada de Militão ao Dragão, o jovem perdeu algum espaço.

O FC Porto, contudo, não tem dúvidas de que Diogo Leite será uma aposta de futuro. Por isso mesmo o futebolista, de apenas 19 anos, viu o seu contrato prolongado até 2023, tendo uma cláusula de rescisão de 15 milhões de euros.

Gedson Fernandes também não se amedrontou quando Rui Vitória o chamou pela primeira vez para jogar com a camisola da equipa principal do Benfica. O médio de 19 anos foi titular no jogo frente ao Fenerbahçe, a primeira mão da 3.ª pré-eliminatória da Liga dos Campeões. Desde esse jogo, foi ganhando o seu espaço e, ao contrário de Diogo Leite, nem a contratação de um reforço no defeso (Gabriel) lhe retirou espaço.

Ainda sem a compleição física que o pode ajudar na posição central que costuma ocupar no relvado, Gedson vai mostrando que os 250 euros e as 25 bolas que o Benfica pagou ao Frielas para ficar com o miúdo que jogava a avançado e decidia os jogos sozinho quando tinha nove anos foram bem empregues. Dos três, foi o único que já foi chamado à selecção nacional por Fernando Santos e no dia em que soube da sua convocatória o Benfica anunciou a renovação do contrato com a sua nova coqueluche, prolongando a sua ligação ao clube até 2023 com uma cláusula de rescisão de 120 milhões de euros.

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Gedson Fernandes

A afirmação de Jovane Cabral no Sporting também é precoce. Vindo de Cabo Verde com 16 anos, fez a sua formação na academia “leonina”, em Alcochete, viveiro de inúmeros craques. Contudo, a sua chamada à equipa principal sportinguista acaba por ser feita à custa da desistência do clube — ou pelo menos do seu treinador na altura, José Peseiro — noutro rebento da formação: Matheus Pereira. Jovane fez a sua estreia com a camisola principal dos “leões” quando entrou para o lugar do seu colega de equipa a 12 de Outubro de 2017, numa partida frente ao Oleiros, da Taça de Portugal. Meses mais tarde, viu Peseiro compará-lo ao seu antigo colega em termos elogiosos. “São estes jogadores que a formação tem de ter. É este carácter que queremos. Não é os que fogem quando não são titulares. Este não foge.”

E o Sporting não quer mesmo que Jovane fuja. Por isso, tal como os seus rivais, já renovou o contrato com o cabo-verdiano, que optou por representar a selecção portuguesa em vez da insular, esticando a ligação com os “leões” até 2023 e fixando a cláusula de rescisão em 60 milhões de euros. Jorge Miguel Matias

João Ribas

Um ano hardcore

O ano de 2018 não podia ter começado de forma mais auspiciosa para João Ribas. No dia 25 de Janeiro, o jovem adjunto que Suzanne Cotter tinha ido buscar aos Estados Unidos assumia a direcção do Museu de Serralves. Escolha unânime de um júri internacional, Ribas, então com 38 anos, tinha um currículo invulgarmente sólido, mas construído sobretudo na América, onde vivera a maior parte da sua vida, e apesar de ter assinado algumas exposições importantes nesses anos de colaboração com Cotter, como a retrospectiva de Helena Almeida, continuava a ser uma figura um pouco secreta. Mas começava o ano de 2018 num cargo que prometia dar-lhe finalmente a visibilidade que até aí lhe faltara. Prometia e deu, embora não talvez exactamente a que teria desejado.

Já como director, Ribas inaugurava em Junho a exposição Zero em Comportamento, na qual é tentador entrever, retrospectivamente, um sibilino aviso à navegação. Composta de obras do acervo de Serralves, propunha-se esta “apresentar gestos de irreverência ou desobediência, quer dirigidos a instituições, como a escola ou o museu, quer a formas de repressão ou controlo”.

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João Ribas Nelson Garrido

No mês seguinte, o novo director dava ao PÚBLICO uma grande entrevista, na qual assumia que a sua geração tinha “a obrigação de repensar o museu como instituição”, tornando-o “um espaço de resistência ao mercado, mas não de exclusão”. E, num primeiro sinal de divergências internas, recusava-se a confirmar se a exposição de Joana Vasconcelos no Guggenheim de Bilbau viria mesmo para Serralves.

Depois foi sempre a acelerar: em Setembro, explica ao Ípsilon que a exposição Robert Mapplethorpe: Pictures não terá “salas escondidas” e, quando esta abre com uma zona interdita a menores de 18 anos e o jornal chama a atenção para o facto, Ribas anuncia a sua demissão. É o início de uma dura polémica, que servirá também para revelar publicamente as crescentes tensões entre a administração e a equipa do museu.

Ribas acusa a administração de Ana Pinho de “violação continuada” da sua autonomia, esta responde acusando-o de deslealdade e acabam a digladiar-se numa insólita audição parlamentar destinada a apurar se houvera de facto censura em Serralves. O caso começa a morrer aí e finar-se-á de vez com a mais do que provável recondução de Ana Pinho para um novo mandato. Mas quando Ribas parecia destinado, após meses de súbita e algo traumática notoriedade, a deixar a ribalta, o início de Novembro trouxe a notícia de que a candidatura que apresentou com a artista Leonor Antunes venceu o concurso da DGArtes e deverá ser a escolhida para representar Portugal na Bienal de Veneza.

Para João Ribas, 2018 foi um ano de extremos. Se o seu percurso profissional um dia merecer uma retrospectiva, talvez seja mesmo avisado criar uma zona reservada para este ano hardcore. Luís Miguel Queirós

Jair Bolsonaro

E agora, sr. Presidente?

Alguns brasileiros terão descoberto Jair Messias Bolsonaro em Abril de 2016, durante a votação do impeachment de Dilma Roussef, quando o ex-militar ofereceu o voto aos “militares de 64” (golpe que iniciou a ditadura), “contra o comunismo e pela memória do coronel Alberto Ustra, o pavor de Dilma Roussef”, dedicando assim a sua contribuição para derrubar a Presidente ao seu próprio torturador, símbolo da crueldade do regime que durou até 1986.

Mas a maioria nunca tinha ouvido o seu nome a 23 de Julho, quando o Partido Social Liberal (PSL) o apresentou como candidato às eleições presidenciais — muitos continuavam sem o reconhecer a meio de Setembro, depois de ser alvo de um atentado, numa altura em que as sondagens antecipavam que perderia contra qualquer adversário na segunda volta. Deputado federal há 27 anos, Bolsonaro fez aprovar dois projectos de lei. Se tinha seguidores, não era pela actividade parlamentar, mas pela postura de permanente provocador convidado para programas de rádio e televisão por ser garantia de escândalo.

Sem desperdiçar oportunidades para alimentar esta persona, o deputado soube fazer da crise aberta pela Operação Lava-Jato (que desde 2014 destruiu a crença dos brasileiros no poder executivo e legislativo) a sua rampa de lançamento. Mais do que votar em alguém, para muitos tornou-se fundamental votar “anti-Lula” ou anti-Partido dos Trabalhadores.

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Jair Bolsonaro

Messias ou mito, como o descrevem parte dos 57,7 milhões que o elegeram Presidente aos 63 anos, Bolsomito soube apresentar-se como parecendo sempre dizer a verdade (o antipoliticamente correcto há anos na moda entre determinada direita radical) e como um outsider. Em campanha, repetiu afirmações misóginas, homofóbicas ou racistas, entre o elogio da violência e do fascismo: prometeu acabar com “os movimentos sociais e os coitadismos”; matar, prender ou expulsar “esquerdistas, petistas e bandidos” e acabar com a lei que garante atendimento médico a vítimas de violação. Também disse que preferia ver “um filho morto do que homossexual” e que o erro da ditadura “foi torturar e não matar” os opositores.

Como o mundo aprendeu com o americano Donald Trump, o filipino Rodrigo Duterte, o húngaro Viktor Orbán ou o italiano Matteo Salvini, não vale a pena esperar que haja um Bolsonaro candidato e outro Presidente.

O brasileiro quer de facto diminuir a maioridade penal para 16 anos, facilitar a posse de arma, proteger ainda mais os polícias envolvidos em mortes (“bandido bom é bandido morto”), reescrever os manuais escolares para que contem “a verdadeira” história da ditadura ou acabar com o apoio às organizações de direitos humanos. Com um país polarizado como nunca e tendo juízes e militares a seu lado, agora que é “mito”, dificilmente recuará face à oposição no Congresso ou perderá a atitude autoritária. Sofia Lorena

António Anselmo

O autarca de Borba que diz ter a “consciência tranquila”

Era uma tragédia anunciada. E depressa ecoaram vozes do lado do país que só se lembra do interior quando as desgraças acontecem a pedirem que António Anselmo, o presidente da Câmara de Borba, se demitisse. Afinal, haviam sido feitos estudos e reuniões com a Direcção Regional de Energia do Alentejo (DREAL), Direcção Regional do Ambiente e Recursos Naturais do Algarve (DRARN) e câmara que alertaram para a instabilidade dos taludes das pedreiras que fizeram parte da Estrada Municipal 255 desabar e arrastar consigo cinco pessoas. Mas António Anselmo não se demitiu. “Isso é para os fracos”, disse.

Durante aqueles dias, entre o colapso da estrada, a 19 de Novembro, o autarca disse-se sempre de “consciência tranquila” sobre o incidente, assumindo que “nunca na vida” tinha sido informado dos perigos daquela estrada, que a administração central passou para a autarquia em 2005. Teve sempre um discurso directo, telegráfico, por vezes distante, quando respondia às questões colocadas pelos jornalistas.

Numa terra habituada aos desastres, poucas vozes se levantaram a pedir a demissão do presidente. Os borbenses vêem-no como um “bom rapaz” e reconhecem-lhe o trabalho feito ao longo destes cinco anos à frente da autarquia.

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Mas o trabalho de António Anselmo com os borbenses começou ainda em 2001, quando se tornou presidente das freguesias de Matriz, por um mandato, e depois de São Bartolomeu, durante dois mandatos, ambas no concelho de Borba, sempre eleito como independente em listas do Partido Socialista.

Em 2013, deu o salto para a câmara. Quis candidatar-se como independente numa lista do PS, mas os socialistas viraram-lhe as costas. António Anselmo retaliou. Fundou o MUB (Movimento Unidos por Borba) e ganhou as eleições, mas sem maioria absoluta. Depois de quatro anos “muito duros”, em que encontrou a autarquia muito endividada, o que impôs a Borba ter “uma troika dentro da troika” para endireitar as contas - como disse a jornais locais -, voltou a concorrer. E ganhou com maioria absoluta. Como presidente, concentra em si os pelouros do Planeamento, Ordenamento do Território e Urbanismo, Protecção Civil, Desenvolvimento Económico, Equipamento Rural e Urbano. Por isso, aquela estrada que desapareceu estava sob a sua alçada directa.

Tal como grande parte da população daquela zona, também ele está ligado ao negócio das pedreiras, o que não é incompatível com as suas funções na autarquia. É sócio de uma empresa de fabrico de artigos de mármore. Detém 50% da Carapinha & Anselmo Lda, microempresa com 19 anos e um volume de vendas de 80 mil euros. E é também vogal do conselho de administração da EDC Mármores - Empresa Gestora das Áreas de Deposição Comum dos Mármores, da qual a Câmara de Borba, e outros três municípios vizinhos, é accionista e que está em processo de insolvência.

Com a cidade a fazer o seu luto, é tempo de se começarem a exigir responsabilidades. “Quando chegarem as conclusões, cá estaremos”, disse António Anselmo, dizendo-se disponível para assumir as responsabilidades, que foi sacudindo ao longo deste tempo sobre uma estrada centenária que a terra engoliu e que dificilmente voltará a existir. Cristiana Faria Moreira

Pedro Siza Vieira

Uma ascensão meteórica

Nos primeiros dias de 2018, não eram muitos os portugueses que conheciam Pedro Siza Vieira, na altura já membro do Governo, mas com a discreta pasta de ministro-adjunto. Antes, tinha-se destacado como um advogado que circulava nos corredores do poder em representação da influente sociedade Linklaters, com papel decisivo em dossiers quentes como a nacionalização do Banif, a reprivatização da TAP ou a OPA da EDP, sempre do lado dos privados. Agora, que o ano caminha para os seus últimos dias, a presença regular do ministro da Economia na comunicação social já torna mais difícil que consiga escapar aos olhares indiscretos quando caminha pelas ruas à volta da Horta Seca.

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Pedro Siza Vieira Nelson Garrido

A ascensão de Siza Vieira na hierarquia mediática do Governo começou com algumas polémicas, entre elas, a que levou ao pedido de escusa de participar em assuntos relacionados com a energia por ter assessorado a China Three Gorges (CTG), a dona da EDP. Pelo caminho, ainda esteve na mira das críticas por ter participado na elaboração do pacote Capitalizar, que acabou por facilitar a OPA da CTG na EDP, ou por tutelar agora o turismo, onde a sua mulher é uma figura de destaque como presidente executiva da Associação da Hotelaria de Portugal. E teve também uma ameaça de incompatibilidades a pender sobre ele, devido ao caso de uma imobiliária aberta por si na véspera de ir para o Governo. Uma questão que acabou arquivada pelo Tribunal Constitucional.

Como ministro da Economia, desde Outubro, o protagonismo de Siza Vieira não tem parado de aumentar: desde os elogios das entidades patronais, aos anúncios de linhas de financiamento sectoriais, passando pelas inúmeras entrevistas sobre as oportunidades que o país está a criar, os apoios comunitários que continuam a dinamizar a economia ou a diplomacia empresarial que decidiu assumir. Siza Vieira até, no final da última semana, deu a cara pela importância de resolver a greve no Porto de Setúbal que estava a afectar a Autoeuropa, “roubando” o palco à sua colega do Mar, Ana Paula Vitorino. O advogado já não é um ministro desconhecido dos portugueses e 2018 foi o ano em que tudo mudou na vida pública de Pedro Siza Vieira. Pedro Ferreira Esteves