Presidente eleito Bolsonaro promete “democracia e liberdade”

Jair Bolsonaro deixou Haddad a uma distância superior a dez milhões de votos e a dúvida é se conseguirá unir o polarizado Brasil - "Este é um país de todos", disse. Fernando Haddad foi derrotado, mas não foi humilhado e promete fazer oposição. Já há manifestações marcadas.

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Jair Bolsonaro com a mulher, Michelle Reuters

O candidato de extrema-direita Jair Messias Bolsonaro foi eleito Presidente do Brasil com 55% dos votos contra 44% de Fernando Haddad, do Partido dos Trabalhadores (PT, esquerda). Uma margem de dez milhões de votos a sublinhar a grande divisão na sociedade brasileira, que se desenhou nos últimos anos e se transformou em arma eleitoral. A grande interrogação é se o Presidente eleito poderá diluir esta clivagem. O discurso de vitória apontou para esse caminho: “Este é um país de todos nós, um Brasil de diversas opiniões, cores e orientações”, disse, sem contudo mencionar o nome do adversário.

Fernando Haddad fez o mesmo, numa demonstração de que a união do país será uma tarefa árdua. Logo após o anúncio dos resultados houve alguns confrontos entre apoiantes dos dois candidatos em São Paulo e no Rio de Janeiro. A esquerda começou também a mobilizar para manifestações de “defesa da democracia” nos próximos dias.

O discurso de vitória de Jair Bolsonaro foi muito particular. Antes de o fazer, rezou, ao lado do pastor evangélico Magno Malta, um dos seus colaboradores mais próximos. Houve referências à Bíblia e a Deus — “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” — antes do discurso da vitória em que o Presidente eleito garantiu que o seu “Governo será defensor da Constituição, da democracia e da liberdade”. Promessa que repetiu várias vezes, depois de duas campanhas, a da primeira e a da segunda voltas, repleta de insinuações a ameaçar o Estado de direito. 

Nesta eleição, o Brasil completou a viragem à direita mais aguda desde a redemocratização. O candidato de extrema-direita beneficiou de uma conjuntura de sonho.

Ao descrédito generalizado do Partido dos Trabalhadores (PT), desgastado por mais de uma década de governação e pelo envolvimento de vários dirigentes em escândalos de corrupção, o capitão reformado juntou respostas fáceis aos problemas que mais preocupam os brasileiros: segurança e economia. Mas ao mesmo tempo atira o maior país da América Latina para um período de incerteza que promete testar ao limite as suas instituições democráticas.

Tal como na primeira volta, realizada a 7 de Outubro, o PT voltou a ficar reduzido aos bastiões no Nordeste — onde também elegeu quatro governadores — enquanto Bolsonaro consolidou a sua liderança nos estados mais ricos do Sul e Sudeste. Nos três estados que tradicionalmente definem os destinos políticos do Brasil — São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro — Jair Bolsonaro arrasou o seu adversário e ficou perto dos 70%.

A vitória de Bolsonaro seguiu-se a uma campanha altamente polarizada e pródiga em episódios dramáticos. O ataque que sofreu logo nos primeiros dias, durante uma arruada em Minas Gerais, marcou as semanas seguintes e pautou o tom do que se iria seguir. A violência com motivações políticas subiu após a primeira volta, e a hostilidade entre os campos rivais agudizou-se. Bolsonaro passou a ser o centro do debate, com as ruas divididas entre manifestações de apoio, como no último fim-de-semana, e acções de repúdio à sua figura, cristalizadas no movimento “Ele Não”.

À partida para a campanha para a segunda volta, esperava-se que Jair Bolsonaro se expusesse mais, participando em debates e apresentando uma imagem mais presidenciável. Nada disso aconteceu. Manteve-se na sua casa no Rio de Janeiro, que passou a servir de quartel-general da candidatura. Rejeitou participar em qualquer um dos debates televisivos previstos, primeiro alegando a fragilidade da sua condição clínica e, na fase final, com a justificação de que poderia ser alvo de um “atentado terrorista”.

Para o discurso de vitória, manteve a mesma atitude — ficou em casa, falando aos apoiantes e ao Brasil através da Internet. “Nosso governo será formado por pessoas que tenham o mesmo propósito de cada um que me ouve, de transformar o Brasil numa livre e próspera nação. Liberdade é um princípio fundamental. Liberdade de ir e vir, de andar nas ruas, liberdade de empreender, liberdades política e religiosa, de fazer escolhas e ser respeitados por elas”, disse.

Haddad na oposição

Fernando Haddad sabia da tarefa colossal que tinha pela frente, que ficou mais complicada quando ficou patente que a ampla coligação de forças de esquerda que desejava não se iria concretizar. O ex-governador do Ceará, Ciro Gomes, que ficou em terceiro lugar na primeira volta, passou as últimas duas semanas em França e, quando regressou, gravou um vídeo sem manifestar apoio a nenhum dos candidatos. 

Tal como Bolsonaro, Haddad também não cumprimentou o adversário — o deputado Paulo Teixeira, do PT, revelou que o candidato derrotado do PT não telefonou nem cumprimentou Jair Bolsonaro porque “o adversário não é civilizado”, cita o Estado de São Paulo. Mas Haddad disse que quer continuar na política, agora na liderança da oposição. “Temos a responsabilidade de fazer oposição, colocando o interesse de todo o povo brasileiro acima de tudo. Uma parte expressiva do povo brasileiro, que votou em nós, precisa de ser respeitada”.

Num hotel em São Paulo, num clima de desânimo — mas quando Bolsonaro falou gritou-se na sala “Fascistas não passarão” —, Fernando Haddad disse que os 44,8% de votos que recebeu representam “uma parte expressiva do eleitorado que tem de ser respeitada”. 

“Temos uma tarefa enorme no país que é, em nome da democracia, defender o pensamento e as liberdades desses 45 milhões de brasileiros que nos acompanharam até aqui”, afirmou. “Seguimos de cabeça erguida, com determinação e coragem para levar nossa mensagem a todos os rincões do país”.

“São os direitos civis, políticos, trabalhistas, sociais, tudo está em jogo no momento”, diz Haddad. “Temos uma tarefa enorme no País que é em nome da democracia, defender o pensamento, as liberdades dos 45 milhões que nos acompanharam até aqui”, acrescenta, afirmando que o PT tem agora a “responsabilidade de fazer uma oposiçãocolocando o interesse nacional acima de tudo”.

Tal como na primeira volta, o lastro irresistível do “bolsonarismo” teve efeito nas eleições estaduais. Candidatos a governador que se aproximaram de Bolsonaro nos estados mais importantes do país conseguiram confirmar a sua eleição. Foi o que aconteceu no Rio de Janeiro onde Wilson Witzel, um desconhecido juiz, venceu Eduardo Paes, antigo presidente da câmara; em Minas Gerais, onde Romeu Zema, do recém-criado partido Novo, também foi eleito.

E até onde Bolsonaro dispensava o apoio esse efeito se registou, como no estado de São Paulo, o maior colégio eleitoral do país. João Doria, que abandonou a prefeitura da metrópole para se candidatar ao governo estadual, colou ao máximo a sua campanha à de Bolsonaro, embora o militar nunca tenha desejado qualquer aproximação ao candidato do Partido da Social Democracia Brasileira.