Leonor Antunes e João Ribas deverão ser a escolha de Portugal para a Bienal de Veneza

O ex-director do Museu de Serralves apresentou uma candidatura "exímia", argumenta o júri. A escultora que o curador apresentou ao concurso aberto pela DGArtes foi a única artista portuguesa incluída na exposição colectiva internacional da última bienal.

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Exposição de Leonor Antunes na Casa de Serralves, em 2011, que teve comissariado de Nuria Enguita Mayo Adriano Miranda
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Exposição de Leonor Antunes na Casa de Serralves, em 2011, que teve comissariado de Nuria Enguita Mayo Adriano Miranda

A artista plástica Leonor Antunes, que vive e trabalha entre Berlim e Lisboa, deverá representar Portugal na próxima Bienal de Arte de Veneza. A escultora, de 46 anos, foi a artista apresentada pelo curador João Ribas ao concurso por convites lançado pela Direcção-Geral das Artes (DGArtes) em Agosto, tendo a sua proposta sido a que obteve maior pontuação do júri. 

O resultado já foi comunicado na semana passada aos outros seis concorrentes, que têm agora até 9 de Novembro para contestar a decisão. O júri terá classificado a proposta de João Ribas como "exímia", segundo disseram ao PÚBLICO várias pessoas que leram a acta.

Contactada pelo PÚBLICO, a directora-geral das Artes, Sílvia Belo Câmara, escusou-se a comentar a decisão até à publicação dos resultados oficiais, após a tramitação final do concurso.

João Ribas, que se demitiu recentemente da direcção artística do Museu de Serralves na sequência da polémica com a exposição de Robert Mapplethorpe, é o responsável pela equipa vencedora que deverá agora pôr de pé o chamado “Pavilhão de Portugal” em Veneza.

Os outros curadores que chegaram à última fase são Emília Tavares, Filipa Oliveira, João Laia, João Silvério, Leonor Nazaré e Marta Mestre, uma vez que Nuno Faria e Sara Antónia Matos, por razões diferentes, não viram a sua candidatura apreciada pelo júri constituído por Nuno Moura (DGArtes), Cristina Góis Amorim (AICEP), Catarina Rosendo (historiadora de arte), Jürgen Bock e Sérgio Mah (curadores responsáveis por participações portuguesas em edições anteriores da Bienal de Veneza). Por razões pessoais, Sara Antónia Matos não chegou sequer a apresentá-la à DGartes.

Nuno Faria terá entregue esta quarta-feira um recurso hierárquico à ministra da Cultura, Graça Fonseca, depois de a DGArtes não ter aceitado uma primeira queixa em que o curador contestava a exclusão da sua candidatura por alegadamente ter sido entregue fora do prazo. O curador requer a anulação dessa decisão, pedindo que a sua proposta seja apreciada pelo júri.

É a primeira vez que o representante português na Bienal de Arte de Veneza é escolhido por concurso, replicando o método de selecção usado para a escolha da participação nacional na última Bienal de Arquitectura de Veneza. O antecessor de Leonor Antunes na Bienal de Arte, em 2017, foi o escultor José Pedro Croft, por proposta do curador João Pinharanda.

De Nova Iorque ao México

A exposição principal da próxima Bienal de Veneza, com curadoria do britânico Ralph Rugoff, director da Hayward Gallery, em Londres, terá como tema “tempos interessantes”. A 58.ª Exposição Internacional de Arte decorrerá de 11 de Maio a 24 de Novembro do próximo ano, nas zonas dos Giardini e do Arsenale, entre outros espaços da cidade italiana, como o Palazzo Giustinian Lolin, onde a representação oficial portuguesa se apresentará. O orçamento da DGartes para a participação nacional na bienal é de 200 mil euros, mas cabe ao curador arranjar outros apoios.

Na última Bienal de Arte de Veneza, Leonor Antunes foi a única artista portuguesa representada na exposição colectiva internacional Viva Arte Viva, com uma instalação escultórica intitulada ...then we raised the terrain so that I could see out. A exposição juntava 120 artistas internacionais, numa escolha da curadora francesa Christine Marcel.

O trabalho de Leonor Antunes questiona a fronteira entre escultura, design e arquitectura, trabalhando referências modernistas, principalmente femininas, cruzadas com técnicas artesanais e materiais como vidro, metal, corda, cortiça ou pele. As suas esculturas, que constroem ambientes por vezes diáfanos, por vezes quase tão concretos como uma parede, estão recorrentemente suspensas sobre um chão que é também intervencionado pela artista. Há quem veja nas grelhas de Leonor Antunes desenhos em três dimensões para onde ela traz a memória de outras geometrias. Se em Veneza, na última bienal, evocou o arquitecto Carlo Scarpa, ao lado do vidro de Murano, noutras ocasiões inspirou-se em Lina Bo Bardi, Anni Albers, Alison Smithson ou Lucia Nogueira.

A obra de Leonor Antunes tem tido uma forte presença internacional, sendo representada por várias galerias, entre as quais as poderosas Marian Goodman (Nova Iorque), Kurimanzuto (Cidade do México) e Luisa Strina (Brasil). Até Setembro, a artista teve a sua primeira grande individual no México, no Museu Tamayo. No ano passado, expôs na Whitechapel Gallery, em Londres, depois de em 2016 ter sido um dos nomes escolhidos para ter uma instalação na reabertura do San Francisco Museum of Modern Art (SFMOMA). Em 2015, apresentou I stand like a mirror before you no New Museum, em Nova Iorque.

Notícia alterada no dia 5 de Novembro: Esclarece-se que a curadora Sara Antónia Matos não chegou a entregar a candidatura para que fosse apreciada pelo júri.