Nelson Garrido
Fátima Carneiro

“Não há lugar para destruir o que existe”

Fátima Carneiro foi eleita a “patologista mais influente do mundo”, pela revista The Pathologist. O reconhecimento de uma carreira que concilia a actividade clínica, a direcção de um serviço hospitalar, as aulas como professora catedrática e a investigação. E o resto da vida.

A frase que dá o título a esta entrevista foi dita já fora do alinhamento da conversa que o P2 teve com Fátima Carneiro, no serviço de Anatomia Patológica do Hospital S. João, no Porto. Por isso, é natural que não a encontre no guião que se segue do diálogo em formato de pergunta e resposta. Quando a “patologista mais influente do mundo” defendeu que “há solução para tudo” e avisava que “destruir demora um minuto e construir demora muito tempo” já estávamos a visitar as salas dos laboratórios do serviço hospitalar de anatomia patológica. Fátima Carneiro tinha um pulmão em cima da bancada, especialistas e alunos à volta. São essas as pessoas que a directora do serviço de anatomia patológica não quer perder. Essas e outras que não estavam ali ou que já se foram. Todas preciosas, garante. Como ela, acrescentamos nós. “A patologia é central na medicina” avisa a especialista com 54 anos e é por isso que “não há lugar para destruir o que existe”.

No piso superior, no seu gabinete, Fátima Carneiro falou ao P2 dos tempos de menina em Angola, onde nasceu, do livro na mesinha de cabeceira – D. Quixote – que está a revisitar, da agitação destes últimos dias por causa da distinção atribuída pela revista científica The Pathologist, que resultou de uma votação dos seus pares, especialistas da mesma área e de várias partes do mundo. Uma distinção que, em Portugal, só tinha sido atribuída ao conhecido patologista Sobrinho Simões, com quem a médica trabalha e aprende há muitos anos. Poucos conhecem Fátima Carneiro – muitos nem sequer tinham ouvido falar do seu nome antes da distinção que lhe foi atribuída na semana passada. Mas, tal como Sobrinho Simões, a patologista exibe, sem vaidade, a sua determinação, dedicação e generosidade.

A conversa, por mais desvios e tempos que se experimentem, volta sempre ao trabalho. “Um fervilhar diário” assegura a todos os que imaginam que um patologista é um médico calado e sozinho, debruçado em cima de um microscópio dia após dia. No gabinete, lembrou como escolheu ser patologista em vez de pediatra. E como voltaria a fazer tudo igual outra vez. Foi para o gabinete que regressou, apressada, depois da “intromissão” do P2 e depois da visita aos laboratórios do serviço. Era lá que tinha um aluno de Medicina à espera e também uma pequena caixa com lâminas de amostras de um tumor de uma vesícula biliar em cima da secretária. Coisas mais importantes para fazer.

Sei que não gosta de entrevistas ou jornalistas. Vamos então começar de uma forma mais leve. O que faz no seu tempo livre?
Infelizmente, hoje, tenho pouco tempo livre.

O que anda a ler, por exemplo?
Ah… D. Quixote. Um clássico. Uma releitura. No pouco tempo livre que tenho. É complicado gerir planos de acção diferentes e integrar as várias actividades. As do hospital de S. João, onde sou patologista e directora do serviço de anatomia patológica, com as actividades como docente na Faculdade de Medicina onde sou professora catedrática…

Gosta mais de dar aulas ou da prática clínica e investigação?
Não se pode colocar as coisas como se fossem universos estanques. Gosto das duas coisas. Por um lado, temos a actividade hospitalar… [estende a mão que coloca em cima de uma pequena caixa transparente] tenho aqui estas lâminas [com amostras de um tumor da vesícula biliar] para fazer diagnóstico que não vou poder fazer agora… estou a prejudicar os doentes por vossa causa…

Vai poder fazer, mas só vai ser um bocadinho mais tarde…
Sim, eu sei. Mas, de facto, o que é que esta actividade tem de tão bom? É permitir conciliar a actividade de diagnóstico com a actividade de ensino, gosto muito de comunicar, comecei a dar aulas muito cedo, ainda era aluna da faculdade. No terceiro ano já dava aulas aos alunos do terceiro ano. Isto passou-se em Angola.

Onde nasceu, certo?
Eu nasci num outro mundo. Um mundo muito diferente.

Que idade tinha quando veio para Portugal?
Nós tivemos uma trajectória diferente porque os meus pais eram funcionários do Estado e isso correspondia aquele regime de as pessoas estarem quatro anos lá e depois passavam um ano cá e voltavam quatro anos para lá… Nós passávamos a vida a saltar de um sítio para outro. Eu nasci no Sul de Angola.

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Onde?
Em Sá da Bandeira. Depois estivemos cá, depois voltamos para o mesmo sítio, voltámos para cá…

E quando é que veio para cá para ficar?
Vim em 1975. Já depois do 25 de Abril. Nós – eu e o meu irmão – tínhamos a ilusão de que íamos continuar em Angola. Éramos os dois estudantes de Medicina. Vivemos muitos sonhos, alguns realizaram-se, outros foram interrompidos. Este foi um dos sonhos interrompido, nós queríamos ficar lá.

Vai voltar a Angola?
Já voltei muitas vezes, mas se calhar um dia vou voltar. O meu marido trabalhou muitos anos em Moçambique depois de termos vindo de Angola, porque ele também era angolano.

Conheceu-o em Angola?
Sim. E viemos todos para Portugal na mesma altura. No fundo acabamos por voltar em 75, porque eu ainda tinha aulas, o meu irmão estava a fazer apoio de enfermagem em situação de emergência. Num desses dias fomos para o Hospital Universitário que ficava na periferia de Luanda e houve um bombardeamento. O hospital foi bombardeado. E eu estava lá. E isso foi… violento demais.

Ficou ferida?
Não. Mas, não se pode estar num sítio onde os hospitais são bombardeados. Não havia condições.

Foi aí que percebeu que tinha de vir para Portugal?
Sim, foi o desmantelamento de uma realidade. Foi muito difícil. Nós viemos no início de Agosto, talvez. O hospital universitário foi evacuado e continuei a ter aulas no hospital central. É essa determinação que faz com que quem quer muito uma coisa a mantenha com tiros ou sem tiros, com bombas ou sem bombas e que fez com que chegasse ao fim do ano lectivo. Mas depois do bombardeamento os meus pais impuseram as regras do jogo e disseram: ‘Acabou, vamos voltar, perdes um ano. Há outros anos adiante.’

Perdeu um ano?
Quando cheguei ao Porto recusava-me a perder um ano lectivo. Fizemos uma exposição ao vice-reitor e ele deixou-me fazer as cadeiras por motivos de guerra na segunda época, que não é habitual porque não se pode fazer mais do que duas. Portanto, fiz o terceiro ano neste regime, com as aulas lá e depois os exames cá…

Quando é que que percebeu que a anatomia patológica era a especialidade que queria seguir?
Ui… muito tarde. É uma história das Arábias. Nem percebi sozinha, tiveram que me explicar.

Como assim?
A sério. Eu odiei anatomia patológica durante o curso. Foi uma das tais unidades curriculares que eu frequentei lá e depois tive de me sujeitar a uma avaliação cá. E embora a formação teórica seja uma coisa que se consegue adquirir, a formação prática requer que se veja o material que foi seleccionado. Eu não tinha tido aulas práticas. Fui obrigada a confrontar-me e contactar com colegas e andava atrás deles a ver o que é que eles viam, o que eles diziam… Para mim, esta forma de aprender era contranatura. Quando acabei o exame de anatomia patológica, rasguei os apontamentos e deitei tudo no lixo.

Fim?
Fim.

Mas não.
Não. Mas de facto eu fiz o curso todo a acreditar que ia fazer pratica clínica.

Que especialidade é que achava que ia escolher?
Pediatria. Até que no fim do meu curso, um professor de Biologia Celular, o professor Miranda Magalhães, convidou-me para dar aulas em Biologia Celular e eu disse-lhe ‘sinto-me muito honrada, adoro dar aulas, mas uma coisa tão sossegada como a biologia celular não se adapta a mim’. Ele perguntou-me o que é que eu gostava de fazer então. Eu disse que ‘gostava de juntar a actividade clínica com a possibilidade de ensinar e fazer investigação’. E ele respondeu ‘mas isso é anatomia patológica’. Acrescentou: ‘A anatomia patológica fica na porta em frente, quer que eu vá consigo?’. Eu disse que não. ‘Vou sozinha.’ Cheguei, apresentei-me ao professor [Daniel] Serrão que me apresentou ao professor Sobrinho [Simões] e comecei a trabalhar no dia seguinte.

Em que ano?
Em 1978.

E não achou a especialidade de Anatomia Patológica sossegada?
Não, não. Não é sossegada. É um fervilhar diário. E é isso que é bonito. Eu transporto muito para a minha actividade de diagnóstico os meus métodos, em termos de investigação. Fazer observações independentes, gosto de olhar para uma lâmina na primeira análise sem saber qual é o diagnóstico clínico

Como é que a anatomia patológica é um “fervilhar diário”?
Primeiro, a anatomia patológica é uma especialidade clínica. Nós produzimos diagnósticos que são utilizados para o tratamento de doentes. E não há dois casos que sejam iguais. Assim como não há duas pessoas iguais, não há dois doentes iguais.

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Pensa no doente quando olha para uma lâmina?
Então não penso!

Quando faz um diagnóstico de um cancro, por exemplo…
Temos de pensar.

Mas não é o patologista que dá a notícia…
Não sou eu que vou dar a notícia. Mas, se estivermos agora a falar de cancro, as decisões sobre um tratamento de um doente devem ser tomadas no âmbito de consultas multidisciplinares, está um oncologista, um cirurgião, um gastroenterologista, radioterapeuta, patologista, enfermeira, nutricionista… Nós temos imensa actividade clinico-patológica, participamos em mais de 15 grupos multidisciplinares, alguns deles oncológicos. A anatomia patológica é uma actividade muito exigente. A nossa tarefa não é só estar ao microscópio e fazer o relatório, validá-lo e disponibilizá-lo.

Esse diagnóstico também define a terapêutica.
Sim, cada vez mais a anatomia patológica incorpora no seu relatório elementos que não são só de uma simples observação ao microscópio, de uma citologia, ou de uma lâmina histológica. Quando fazemos um diagnóstico de cancro temos de identificar um tipo histológico e há uma coisa fundamental: saber o estádio da doença, se envolve os gânglios, se tem metástases. Todos estes elementos vêm a definir um estádio que é fundamental para se ter uma ideia do prognóstico e para se decidir os esquemas terapêuticos.

Mas o patologista não tem às vezes sequer o nome do doente, apenas o número de um processo. Não tem o rosto do doente, os olhos dele…
Não. Não penso muito nisso porque essa também foi uma das razões pelas quais eu não podia fazer prática clínica de contacto directo com os doentes. Enquanto fiz prática clínica — fiz internato geral, serviço médico à periferia — nunca consegui afastar-me afectivamente. Vinha para a casa preocupada, às vezes vinha ao hospital ao fim-de-semana ver se os doentes estavam bem…

Isso em Pediatria poderia ser complicado, tem de lidar com os miúdos e os pais…
Terrível. Percebi isso no primeiro dia que fiz urgência. Eu adoro crianças. Adoro crianças a rir, a saltitar. Olhe para ali [aponta para um quadro de cortiça com dezenas de fotografias, são os meus dois filhos [João e Marta]. Sempre com ar bem-disposto. Eles passaram horas aqui comigo. Adoro crianças mas tenho uma grande dificuldade de lidar com o sofrimento.

Toda a gente tem…
Nunca é fácil. Mas na minha primeira urgência num hospital próximo do Porto, durante a noite, tive uma criança com uma dificuldade respiratória e aí fiquei com a certeza absoluta. Já estava na anatomia patológica, já sabia que ia ter uma actividade clínica de outra natureza.

Mais distanciada?
Mais distanciada. Na anatomia patológica, além do nosso ambiente que permite integrar o diagnóstico com o ensino e a investigação, também tentamos validar em modelos de doença humana conhecimentos do mundo experimental. É uma especialidade muito rica e funcionamos de uma forma muito integrada. Há uma outra característica que tenho que também não é boa para quem faz clínica, tenho aquele sentido de urgência, se tenho de fazer uma coisa tenho de a fazer logo. A clínica não é assim, a doença tem um percurso, os doentes estão ali e vão reagindo

Como patologista tem umas células e pode ver como reagem naquele momento a isto ou aquilo.
Neste momento, tenho aqui muitas lâminas para ver. Quando vocês se forem embora é isso que vou fazer. A área patológica, na maior parte dos nossos actos, tem uma liberdade de ocupação de tempo.

Na maior parte porquê?
Porque se estivermos a falar em actos como, por exemplo, os exames extemporâneos que são intra-operatórios [feitos durante o acto operatório] não ficam à mercê da minha disponibilidade, temos de ter uma escala diária e uma pessoa que tem de estar disponível naquele momento para responder a uma pergunta clínica. A proximidade da anatomia patológica à clínica é cada vez maior. Não só através destes exemplos que estou a dar mas através da participação, que eu diria que é obrigatória, em grupos multidisciplinares, em grupos oncológicos. A decisão é colectiva e nós temos um papel muito importante porque chegamos lá com um rótulo. Um diagnóstico que coloca sobre os nossos ombros uma enorme responsabilidade.

E os diagnósticos têm sempre uma certa urgência, as pessoas têm a sensação que demoram sempre muito tempo…
Não sei o que é tanto tempo assim.

Um dia à espera de um diagnóstico de cancro pode ser uma eternidade, certo?
Para as pessoas sim. É o que sinto na maior parte dos casos. Por exemplo, quando um cancro do estômago é identificado como tal, porque deu sintomas, porque condicionou uma endoscopia ou porque se viu uma deformação, já está lá há muitos anos, não é nada que tenha começado ontem. Aquela ansiedade que as pessoas têm “eu tenho um diagnóstico e quero um tratamento amanhã” é uma ansiedade do pânico gerado de repente. Porque isso só será contraproducente. Um diagnóstico de cancro é uma notícia bombástica para quem o recebe.

Demolidora.
Sim, já recebi em pessoas muito próximas e sei bem o que isso é. E nessa altura não somos médicos somos simplesmente família, amigos. Só que não é sensato ceder à precipitação de um doente com um tratamento o mais depressa possível. Tem de se ver onde a doença está, se está só naquele órgão, se tem metástases…

Para tratar melhor.
Sim, daí vão resultar decisões terapêuticas. Se o doente tem um cancro localizado no estômago, que é a área de estudo que eu mais gosto, se for muito superficial pode fazer apenas uma ressecção, uma espécie de cirurgia endoscópica e tira a área doente, se já afectar a profundidade da parede já terá que tirar o estômago, ou parte ou a totalidade. Se a doença estiver ainda mais disseminada, antes de se ponderar uma cirurgia tem de se ponderar um tratamento sistémico, a quimioterapia, a radioterapia. Não há regras iguais para tudo. O comportamento dos diversos cancros é diferente e, portanto, a adaptação tem que ser aquele doente, com aquele tumor, com aquele estádio, com ou sem estes biomarcadores.

Porque é que é que o cancro do estômago é a área de estudo de que gosta mais?
Tudo tem uma história. Quando vim para cá comecei a trabalhar em patologia da tiróide, porque fiquei sob a orientação do professor Sobrinho Simões. Ele tem uma visão muito aberta em relação ao que deve ser o futuro. Numa determinada ocasião, no nosso grupo, ficou claro que um problema de saúde em Portugal era o cancro do estômago. Era e é. O cancro do estômago é diagnosticado em fases muito tardias, não há rastreio, afecta homens e mulheres… era preciso compreender esta doença o melhor possível para ajudar a identificar biomarcadores, para contribuir para outras formas de investigação clínica, ensaios clínicos, o que quiser. Nós passamos de uma fase que não estávamos sequer a estudar o cancro propriamente dito mas a infecção por um microorganismo que causa o cancro que é a tal bactéria Helicobacter pylori. E depois é um mundo sem fim.

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E hoje continua a investir nessa área…
Mais recentemente interessei-me por um modelo de cancro em que pode haver contributos interessantes na prevenção, que são as formas hereditárias de cancro.

Do cancro do estômago?
No cancro de estômago há mais do que uma forma hereditária. Há uma mais conhecida que é aquela que é causada por um gene que codifica uma molécula de adesão.

A Caderina-E que é conhecida como um “cimento das nossas células”?
Sim. Nós tivemos a felicidade de acompanhar a identificação desta doença [cancro gástrico hereditário difuso] desde há muito, muito tempo. O PÚBLICO trouxe uma notícia sobre o prémio que recebi agora e a fotografia é de uma altura em que estávamos a estudar as famílias portuguesas com cancro hereditário do estômago. Agora estudamos muito mais, neste hospital há um centro de referência para cancro hereditário do estômago. Portanto, a expansão foi imensa.

Essa história marca a sua carreira na investigação clínica…
Tive um privilégio de termos visto no início os estômagos que vinham um pouco de todo o mundo, onde se começava a identificar esta doença. Que é um trabalho absolutamente incalculável. Só fiz porque tínhamos na altura um colaborador que é chinês [Xiaogang Wen] e é patologista em Portugal. Ele é que me ajudou a fazer o estudo detalhado daqueles estômagos. Essa foi uma história linda porque nos permitiu identificar quais são as alterações muito iniciais neste tipo de cancro, permitiu fazer reuniões de consenso e caracterizar qual era a genética, a patologia. Na realidade, o nosso grupo ajudou de uma forma substancial a definir isso. Fizemos recomendações sobre o que se faz a um doente que se apresenta com uma forma de cancro do estômago hereditária. Quando o doente se apresenta muitas vezes já está numa forma avançada, mas sabemos que ele tem aquele defeito no seu genoma e que os seus familiares directos também podem ter.

E nessa altura o que se faz?
Aos seus familiares directos pode-se oferecer uma intervenção que salva a vida. Que é remover o estômago. Chama-se uma gastrectomia profiláctica. Essa história é das mais lindas.

Já salvaram vidas assim?
Então não? Todas as pessoas que fizeram uma gastrectomia profiláctica não morreram com cancro do estômago. Depois a história é tão recente que ainda falta saber que outras complicações podem existir.

E agora? Quais são agora as principais questões sobre este cancro?
Ainda não sabemos tudo. Há mutações de muitos tipos. E depois há famílias que têm esta forma cancro e não se identifica esta mutação. Ou seja, haverá outras mutações que é preciso identificar. Há já outra identificada que codifica também uma outra molécula de adesão que é a Catenina. Mas ainda há uma percentagem de casos que do ponto de vista do comportamento clínico parecem indistinguíveis e que a mutação não se encontra. Isto é apaixonante.

O que viu mudar mais na sua área ao longo destes anos? A tecnologia?
Muita coisa. A tecnologia nem sequer tem comparação. E a possibilidade de usarmos melhor tecnologia aumenta as possibilidades de fazer diagnósticos mais precisos e isso é fundamental. Mudou também a possibilidade de integrar dados genómicos, as alterações do genoma não no indivíduo portador, mas no próprio cancro, integrar isto tudo em diagnósticos que façam sentido para a aplicação clínica, na tal translação. Estamos na época da patologia digital. Caracterizamos uma doença vendo só imagens digitais. Hoje pode-se prestar serviços de patologia à distância. As pessoas podem mandar as lâminas que preparam para serem vistas noutro sítio. Quando faço consulta dos meus casos, a maior parte das vezes o que faço é fazer imagens digitais e mandar para pessoas que respeito e confio.

Como vê o futuro?
Onde? No mundo? Em Portugal? Aqui, no meu gabinete?

Na Anatomia Patológica, no seu serviço.
Vejo com muita preocupação. Não falta vontade de fazer e de viver esta realidade em que integramos as diferentes facetas de uma actividade muito gratificante. E em que temos uma actividade que ainda não falei que é a formação de jovens.

Mas…
Mas precisamos de pessoas. O que acontece é que perdemos cinco pessoas nos últimos tempos. E nos últimos quatro concursos não tivemos nenhuma vaga aberta.

Quantas pessoas tem e quantas acha que precisa?
Não se pode colocar as coisas assim, este serviço tem pessoas com perfis diferentes. Há cálculos feitos para o número de pessoas que um serviço destes deve ter, recomendações feitas pelo Ministério da Saúde.

E o que dizem os cálculos?
De acordo com as recomendações, para estarmos numa situação ideal, precisaríamos de ter mais oito patologistas, além dos que saíram. Nós formamos as pessoas, batemo-nos muito para que fiquem cá no hospital e depois elas vão-se embora. Precisamos inexoravelmente delas. São actividades que vamos deixar de fazer porque não podemos fazer.

Que actividades?
Por exemplo, neuropatologia que é uma área carente. Tínhamos dois neuropatologistas que deixaram o hospital e agora temos uma consultora que só cá vem uma vez por semana. Outro exemplo: este hospital é centro de referência em epilepsia e a anatomia patológica é essencial para o estudo das alterações. Temos uma carência imensa. Formámos uma pessoa para esse fim e depois não tivemos vaga. Estamos à espera de uma solução. Temos de conseguir reter uma equipa suficientemente capaz na solidez geral e especializada. Este centro tem todas as condições para poder fornecer treino em anatomia patológica, para dar oportunidades de investigação, para dar oportunidades de interacção interinstitucional e internacional. E uma vez que as tem não vejo que haja necessidade de as destruir. Sem pessoas não vamos lá.

O que pode atrair um jovem patologista?
Pode ser atraído por outras instituições privadas, onde os salários são melhores. Não tenho nada contra isso. As pessoas devem ter liberdade plena. Tenho o maior dos orgulhos que neste serviço se formem profissionais competentes, é uma responsabilidade nossa. Acho também que é uma responsabilidade do Governo identificar centros que devem estar capacitados para dar uma formação completa aos patologistas que podem servir as necessidades públicas e privadas. Se se destruir a capacidade de formação das instituições que neste momento as têm, está-se a destruir a qualidade das instituições. Eu preocupo-me muito com uma outra coisa, pela qual me vou bater sempre e até ao fim, que é a educação médica contínua. Preocupa-me tanto e eu sou actualmente presidente da academia nacional de medicina de Portugal e a primeira reunião que organizei foi sobre isto

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O que significa esse conceito de formação médica contínua?

Significa que obter um título não me confere competência. Eu tenho de me actualizar.

E quem avalia essa competência e actualização?

Em Portugal não há nada. As pessoas procuram elas próprias acções de formação. Aquilo que fazemos de formação pós-graduada para os internos são acções que são partilhadas com os seniores. Reuniões de discussão de casos, por exemplo, são para todos. Novos e seniores. Deus me livre que eu falte a uma dessas reuniões. Eu sei que nada sei. Todos os dias a anatomia patológica, tudo, cresce, temos de acompanhar desenvolvimento, as novas entidades, os novos métodos, as novas exigências.

Não podem parar de aprender.

Sim. Essa é uma responsabilidade fundamental. Em países como a Holanda e o Reino Unido, onde isto é uma ciência, uma pessoa tem um portfólio. Qualquer médico tem um conjunto de actividades com créditos que deve preencher e satisfazer ao longo de um ano. Ao fim desse ano, o portfólio é avaliado. Em caso de necessidade são pedidas provas. Há um limiar que as pessoas têm de fazer. Para prova para o sistema de que houve iniciativas da tal aprendizagem médica contínua. Na Austrália, que é uma sociedade vigilante, os especialistas têm de fazer um exame…

Esse tipo de avaliação seria possível cá?

Não acho possível e ninguém quer abanar o fantasma dos exames. Ninguém quer isso. O que as pessoas querem é que a cultura da formação pós-graduada e da educação médica contínua seja praticada. Isto significa, por exemplo, responsabilizar estruturas para oferecer acções de formação médica contínua. Depois há também o  um teste online  - o progress test - que é feito uma vez por ano e que é voluntário

Para autodiagnóstico?

Sim, as pessoas vão saber qual é a sua classificação em relação à média europeia. E vão saber, no ano X se estão melhor do que no ano Y e quais são as áreas que estão mais fracas. O exercício profissional é mais do que fazer rótulos. É ter tempo para formar os outros, é ter tempo para se formar a si próprio, para partilhar em equipas multidisciplinares….

Agora já não está a falar só da patologia…

Estou a falar da patologia mas é um exemplo que se pode replicar. Quando, por exemplo, assumi a direcção do serviço fui confrontada com uma opção… continuar a fazer ou não investigação. E decidi que queria continuar. E tive que ir buscar um tempo de antes tinha disponível e que agora já não tenho. Porque quero muito, porque gosto muito. Mas os sistemas amadurecidos e com experiência têm a responsabilidade de garantir o seu futuro. Quando o professor Sobrinho sair, quando eu sair, e os outros…

Como explica esta distinção como a patologista mais influente do mundo?
Foi exactamente esta história que lhe contei. É que esta distinção só é possível porque eu não sou uma pessoa isolada.

Mas como é que influenciou esta área?
Eu vivi uma realidade da qual tirei o melhor partido. É, se calhar, um mérito. Como entendo muito bem esta interacção entre a actividade clínica, académica e da investigação, maximizei sempre todas as potencialidades e tentei contagiar outros. Daqui decorrem actividades de ensino, trabalhos científicos, comunicação internacional, convites... na minha trajectória passei também pela Sociedade Europeia de Anatomia Patológica, de que fui presidente. Isto é uma expressão da internacionalização. Mas não sou só eu. Aquilo que é relevante nesta história é que a Anatomia Patológica portuguesa está internacionalizada. Isto é um reconhecimento da Anatomia Patológica portuguesa que atingiu uma plataforma internacional. Vou-lhe contar uma coisa cómica, a propósito desta distinção, o meu filho mandou-me uma mensagem ‘mãe, finalmente fizeste uma coisa útil’.

Isso leva-me a outra questão. Muita gente conhece Sobrinho Simões, mas o seu nome não é mediático…
Não gosto de aparecer. Isto é um sacrifício que vai acabar dentro de uma semana, quando já ninguém se lembrar disto.

Vai esconder-se?
Gosto da minha paz. Faz parte da minha liberdade. Mas nestas alturas sentimos alguma responsabilidade em nome do que é realmente o valor desta distinção. O valor da Anatomia Patológica. No fundo, o que eu quero é dar nota de que a anatomia patológica é central à medicina.

No dia em que se soube a notícia da distinção disse-me que se sentia privilegiada…
Sinto, muito. Sinto-me muito privilegiada de ter nascido em África, de ter crescido em África, de ter tido a família que tive, aquela em que nasci, a que me adoptou através do casamento, fui terrivelmente feliz.

Fui ou sou?
Sou, mas a vida vai-nos castigando com perdas de pessoas de que gostamos e isso só é compensado com a chegada de outros.

Já tem netos?
Ainda não, mas hei-de ter.