João Ribas: houve “interferências” e “violação continuada” da autonomia artística em Serralves

Director demissionário do Museu de Serralves quebra silêncio sobre caso Mapplethorpe e rejeita responsabilidade pela escolha final das obras expostas.

João Ribas
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João Ribas Nelson Garrido

O director demissionário do Museu de Serralves, João Ribas, quebrou esta quarta-feira o silêncio para, no mesmo dia em que a administração da Fundação de Serralves deu uma conferência de imprensa sobre o caso Mapplethorpe, reiterar que lhe foram “impostas (...) restrições e intervenções que criaram um ponto de ruptura”. Fala em “violação continuada” da sua autonomia enquanto programador quanto a esta exposição e diz ter-se demitido também “em defesa da liberdade artística”.

Logo no primeiro parágrafo do comunicado enviado ao final da tarde desta quarta-feira às redacções, João Ribas indica: “O cargo de director do Museu de Serralves é incompatível com ingerências, pressões ou imposições que limitem a sua autonomia técnica e artística e se traduzam em comportamentos de inadmissível repreensão da livre expressão das obras de arte ou das mensagens, harmonia ou lógicas próprias com as quais o curador entenda dotar uma qualquer exposição, como a das obras de Robert Mapplethorpe. Não é admissível que a liberdade e a autonomia do director sejam desrespeitadas.”

Há oito meses no cargo e ascendendo da direcção adjunta do museu, Ribas viu-se no centro da polémica em torno da exposição Robert Mapplethorpe: Pictures depois de ter garantido ao PÚBLICO que esta não teria áreas restritas e de, após a inauguração, existirem avisos de acesso condicionado e uma sala reservada a maiores de 18 anos. Das 179 obras previstas ser expostas, apenas 159 se encontravam nas paredes do museu portuense. Com o conselho de administração da Fundação de Serralves a justificar na sexta-feira que todas as obras presentes tinham sido “escolhidas pelo curador desta apresentação” e responsabilizando-o pela selecção, bem como justificando com a aplicação de legislação as limitações de acesso à sala, ao final do dia Ribas demitia-se do seu cargo.

Esta quarta-feira, e depois de em conferência de imprensa Ana Pinho e José Pacheco Pereira terem negado a existência de censura, João Ribas explica em comunicado que pediu demissão pelas “interferências na exibição de determinadas obras e na localização de outras que ocorreram durante a semana de montagem”, que criaram problemas de contextualização ao curador e que o obrigaram, escreve, “a alterar a selecção dos trabalhos para que a exposição fosse um todo coerente” – alude assim à explicação dada por Serralves de que é o responsável pela selecção das obras patentes. João Ribas nunca atribui a autoria dessas interferências no comunicado.

Mas precisa que uma primeira redução do número de obras perfez 161 peças que deveriam ser mostradas ao público. Mas “no dia da inauguração a curadoria foi mais uma vez intimada a retirar duas obras que já se encontravam expostas”. “Até ao limite, procurei manter a dignidade da exposição e fidelidade ao espírito da obra de Mapplethorpe, cumprindo todas as minhas funções.” Terminaram em 159 peças expostas.

João Ribas acrescenta: “Face à violação continuada da minha autonomia técnica e artística e do livre exercício das minhas funções e por respeito ao Museu de Serralves enquanto instituição de referência nacional e internacional, não me restou alternativa melhor e mais consentânea com a ética profissional que perfilho senão a demissão de funções.”

O curador e programador lamenta as “falsidades” e “imputações indevidas” ao seu comportamento profissional, que classifica como “calúnias e ofensas” ao seu bom nome. “Nenhuma exposição deve ser alvo de condicionamentos e imposições proibicionistas, nenhuma direcção artística deve ser alvo de sistemáticas ingerências.”

Dado o contexto e algumas temáticas da obra de Mapplethorpe, Ribas frisa que “a exposição nunca foi concebida numa lógica proibicionista” e que “houve a preocupação de criar mecanismos que permitissem aos visitantes fazer escolhas” entre o que queriam e não queriam confrontar da obra do fotógrafo.