Negrão: "Se aplicarmos o princípio por ele enunciado, Carlos César já não seria deputado do PS"

Ao contrário da simples pedagogia que defendeu na quarta-feira, o líder parlamentar do PSD já admite que os casos dos deputados do PSD envolvidos na marcação de presenças falsas possam vir a ser analisados pelo conselho de jurisdição do partido.

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Fernando Negrão responde a Carlos César Miguel Manso

Fernando Negrão recusa quaisquer recados moralizadores de Carlos César sobre a expulsão de deputados envolvidos na marcação de presenças falsas e passa ao ataque: "O que o PSD tem a dizer ao deputado Carlos César é que ele não tem qualquer legitimidade para se pronunciar sobre estes casos." E porquê? "Todos sabemos que o líder parlamentar do PS tem um problema ainda não esclarecido no que diz respeito ao reembolso das [suas] viagens" para os Açores.

Carlos César foi um dos deputados que admitiu pedir o reembolso do valor pago pelos bilhetes das viagens de avião entre Lisboa e as regiões autónomas (o chamado subsídio social de mobilidade), ao mesmo tempo que recebe da Assembleia da República um subsídio semanal de 500 euros para custear essas deslocações - desde que compareça nessa semana no Parlamento.

Em Abril, o Expresso revelou que Carlos César, Lara Martinho, João Azevedo Castro, Luís Vilhena, Carlos Pereira, Paulo Neves e José Paulino Ascensão admitiam pedir o reembolso do bilhete já pago com o dinheiro do Parlamento. Entre os outros cinco deputados eleitos pelas ilhas apenas Rubina Berardo disse que não recorria às ajudas de despesas de deslocação “por opção pessoal” e os restantes não responderam às perguntas. O bloquista José Paulino Ascensão decidiu sair do cargo de deputado mais cedo do que já estava previsto e Lara Martinho prometeu devolver o dinheiro à Assembleia. O caso foi tratado com pinças pelo secretário-geral do Parlamento, pelo presidente Ferro Rodrigues e até pela subcomissão de Ética, mas no fim o assunto foi encaminhado para a comissão da Transparência.

O líder parlamentar social-democrata contra-ataca assim o seu congénere socialista que nesta manhã afirmou que se houvesse no PS deputados com "comportamentos fraudulentos" como os que têm vindo a público com presenças falsas nos plenários, eles "não tinham o direito de permanecer no âmbito do grupo parlamentar do PS".

"O que quer dizer que se nós aplicarmos o princípio por ele enunciado, Carlos César, o presidente da bancada parlamentar do PS, já não seria deputado do PS", vincou Fernando Negrão.

O líder parlamentar social-democrata não se coibiu de mandar Carlos César olhar-se ao espelho e de lhe recomendar recato por se pronunciar sobre outras bancadas.

Questionado pelos jornalistas sobre o caso de o voto do deputado Feliciano Barreiras Duarte na votação do orçamento na generalidade ter sido feito pela colega de bancada Maria das Mercês Borges, que já esta quinta-feira anunciou a sua demissão de todos os lugares de coordenação que ocupa na bancada do PSD, Fernando Negrão afirmou que o caso poderá vir a ser apreciado pelo conselho de jurisdição do PSD. Recusou, porém, pedir a saída de Maria das Mercês Borges do Parlamento, remetendo para a deputada tal decisão.

O líder parlamentar do PSD vincou que a direcção da bancada não tem poderes para punir ou sancionar os deputados que tenham cometido irregularidades - como pediu o presidente do Parlamento, Eduardo Ferro Rodrigues, na conferência de líderes de ontem e como faz também agora Carlos César.